Com certeza, essa não será nem a primeira nem a última vez que você vai ler uma matéria sobre a "primeira vez". O assunto não é virgem mesmo, mas ainda sobram léguas de águas mal discutidas por aqui, principalmente entre quatro paredes. Não do quarto, mas da sala de estar. O ponto em questão é: será que a família moderna já aprendeu a lidar com essas delicadezas? Levando em conta os pais atuais que viveram a liberação sexual, teoricamente a resposta deveria ser sim.
Muitos até foram usuários da máxima hippie: "Não tome banho e tome pílula". Depois dos Beatles, Rollig Stones nada foi o mesmo, nem o hímen. Será?
NOVAS PREOCUPAÇÕES.
Na verdade, essa carga histórica dos anos 60 chegou ao sofá na sala das melhores famílias. Com isso, a visão familiar em torno da "primeira vez" também se deslocou. "A perda da virgindade já foi assimilada. A preocupação de agora é com a falta de afetividade e de valores nesse crescimento afetivo dos filhos", afirma a psicóloga e terapeuta familiar Silvia Fontes.Você conversa sobre sexo com seus filhos? Como aborda? Outro receio: filho ou filha podem não saber lidar com as conseqüências psicológicas e físicas da vida sexual. Será que vão conseguir se refazer em caso de término de namoro? E há, ainda, a gravidez, a Aids...
A escolha do parceiro correto e a tal da "hora certa" são outros causadores de cabelos brancos. E aqui se escancara a contradição: para todas essas questões, é preciso conversa. Papo franco, sem medo e sem expressões de censura ou receio. Contudo, surpreendente, para a geração dos pais modernos falta naturalidade na hora de botar a sexualidade na mesa. Segundo pesquisa realizada recentemente pelo Instituto Futura - com 400 entrevistas na Grande Vitória - os pais conversam sobre drogas, violência, educação e o futuro dos filhos, mas sexo continua sendo um tabu para muitos deles. Entre os filhos, 42,03% disseram não se sentir à vontade para engrenar esse tipo de conversa em casa.
DESPREPARO
Não admira que o jovem brasileiro seja o segundo no mundo entre os que perdem a virgindade mais cedo. Entre os garotos, a prática começa aos 14. Entre as meninas, aos 15, segundo dados do Ministério da Saúde. Em compensação, o país fica em sétimo lugar quanto à utilização da camisinha nessa primeira relação. Pudera. quase metade dos jovens afirma não ter planejado a primeira relação, e a maioria assumiu não estar preparada para a experiência. Só 20,2% dos homens e 39,5% das mulheres se achavam prontos. A psicóloga, sexóloga e terapeuta familiar Christina Werner arrisca uma razão: "Sobra informação, mas faltam as figuras que ensinam os limites". Adivinha quem são? Os pais, os responsáveis pela educação dos desejos dos filhos. "O autocontrole do jovem é construído quando ele é criança e recebe o autocontrole externo, passado pelos pais. Só assim os filhos aprendem a refletir sobre a hora e maneira certas de iniciar a vida sexual", conclui a psicóloga. Limites, sim. Mas, como lembra a ginecologista e sexóloga Denise Galveas Terra, não adianta discutir o assunto apenas para efeito de informação, para prevenir doenças ou uma gravidez precoce. "Os filhos também precisam sentir o companheirismo dos pais, inclusive nas emoções e descobertas típicas do corpo e da vida sexual".
O NÚMERO 47% - É a porcentagem dos entrevistados, com até 24 anos, que admitem não ter planejado a primeira relação sexual. Entre os maiores de 49 anos, o índice é de 75,8%. Cabeça aberta, só fora de casa Se teoricamente, os pais modernos deveriam ser mais bem resolvidos, por que existe essa contradição? Por que, muitas vezes, a liberdade sexual só chega na filha do vizinho? Afinal, ao mesmo tempo em que existe vergonha de proibir, não há como negar o receio de permitir.Esse quebra-cabeça tem uma razão: as mudanças culturais só influenciam a relação familiar, até certo ponto. "A mudança cultural não determina uma mudança imediata nas decisões do sujeito, porque dentro de cada casa existem valores típicos próprios", ressalta a psicanalista e professora do curso de psicologia da Faesa, Adriana Gonring.Ou seja, a atitude emocional dos pais não se altera na mesma velocidade que o comportamento social. "Eles se incomodam com o tabu que existe em torno do sexo, já que ele não é mais socialmente aceito.
Mas, inconscientemente, eles ainda carregam essa herança construída ao longo dos séculos", esclarece o psicólogo especialista em psicologia Junguiana, Luiz Fernando Magalhães.Resultado: só fora de casa vale o socialmente prescrito. Já dentro, prevalece a atitude emocional paterna, que é disfarçada com racionalismos - gravidez precoce, Aids, o "momento certo"... E nem é preciso dizer que as filhas são as que mais sofrem, pois os valores em torno do corpo feminino têm raízes históricas mais profundas. "Os pais tentam encobrir que têm duas medidas para o mesmo peso. O filho fica à vontade, a filha é retraída. Eles sabem que estão errados, mas não conseguem mudar. Não é racional", conclui Luiz.Você conversa sobre sexo com seus pais? Como o assunto deve ser abordado? .www.gazetaonline.com.br/agazetaCiumento assumido As conversas sobre sexo foram pingadas ao longo dos anos na família Moraes.
As perguntas e a maneira de dar as respostas, também. A clássica história da sementinha ficou mais séria com o passar do tempo, e faz Odilon, 43, aumentar a velocidade de seus passos na sala de estar. O corretor de imóveis é ciumento assumido. E sobre virgindade, ele tem um remédio: "Prefiro nem saber!". É sua esposa Anne, 50, quem cuida dessa parte do ninho. Pela mãe, as filhas Vanessa, 27 - que mora em Salvador, e se casa no fim do ano-, e a estudante Lorrayne, 19, trariam os namorados para dormir em casa. Afinal, ela só se casou depois de anos "juntada" com Odilon. Mesmo assim, ele bate o martelo: em casa, só em quartos se-pa-ra-dos. "Dei a educação. É ela que vai decidir sobre isso [virgindade]. Só não me sinto bem que seja aqui em casa", esclarece Odilon. "Acho papai radical, mas tenho liberdade de falar com minha mãe sobre virgindade e sexo quando eu quiser", diz Lorrayne.Sexo tem sexo Na família Saib, os pais Monica, 42, e Roberto, 43, falam sobre sexo com os filhos, Larissa, 17, e Victor, 19, faz tempo. "Não invado o espaço deles, só tento me manter disponível para todos os assuntos", conta o consultor de seguros. A esposa completa: "Passamos valores e colocamos os limites que são necessários.
Quando minha filha descobrir que é a hora dela, tudo bem. Que seja com a pessoa certa", diz a advogada. Larissa concorda: "Algumas amigas minhas perderam a virgindade porque outras perderam. Isso é carência. Fazem por impulso, por falta de diálogo com os pais". O casal divide tudo com os filhos, da academia à boate. Mas na hora de falar sobre intimidade, o sexo tem sexo: o pai fala com o filho e a mãe, com a filha. "Para tentar diminuir a inibição". Quando o papo extrapola a primeira vez, uma nova pergunta: "Os filhos podem dormir com namorado em casa"? A resposta vem dividida: sim e não. Roberto explica: "Meu filho já trouxe a namorada pra cá. Falei de todos os cuidados, e expliquei que isso não poderia ser para prejudicar nenhum dos dois". E se Larissa quiser trazer um namorado? "Confesso que não me sentiria bem. A gente tenta ser moderno, mas nem sempre consegue". Larissa defende a contradição explicando que "seria a primeira a não se sentir bem com isso".
Além disso, sobra uma velha questão cultural: "Ouço o que os garotos falam de algumas meninas e não quero ouvir o mesmo da minha filha. Por isso, acho que a mulher ainda precisa ser mais recatada", justifica a mãe. Vida sexual dos filhos depende do "modelo" dos pais Segundo especialistas, pode-se dizer que a alfabetização sexual dos filhos se oficializa quando a criança começa a perguntar. Mas na prática, ela começa bem antes disso, baseada no modelo de afetividade e respeito adotado pelos pais. A forma como eles encaram a sexualidade, e o quão bem resolvidos sexualmente eles são, faz toda a diferença, afirma a sexóloga Denise Galveas Terra.Isso evita que o fator carência afetiva contamine a decisão sobre o momento de "perder" a virgindade. "Não basta só falar. O jovem se baseia na conduta moral e afetiva, na relação de amor e respeito dos pais para tomar decisões, incluindo aí a da primeira vez", diz Os abraços e beijinhos dos pais são fundamentais, mas são só o começo. As perguntas (e respostas) sobre sexo, são outro pedaço indispensável. Mas tanto para as palavras, quanto para o carinho, não se deve forçar a barra.
Segundo a psicóloga, sexóloga e terapeuta familiar, Christina Werner, a dica aqui se divide em três:
Primeiro: Nenhuma pergunta pode ficar sem resposta.
Segundo: "Só responda o que foi perguntado".
Terceiro: "Antes de responder, pergunte ao filho o que ele sabe sobre o assunto. Partindo daí, fica mais fácil explicar". E como puxar o assunto? Os pais podem iniciar o papo falando de um episódio da vizinhança, ou da novela. Quem nunca teve diálogo pode começar admitindo esse problema. O importante é não ignorar o tema sexualidade. "Eles precisam se mostrar disponíveis para falar sobre isso. Mas tem uma coisa: NÃO devem fazer sermão! Se o filho faz uma pergunta, o pai deve responder. Se não se sentir à vontade, peça para responder mais tarde, e faça isso, sem falta. Outra coisa importante é: nunca se deve mentir", ensina a hebiatra Christiani Laignier.Espontaneidade garante naturalidade Essa é uma história de dois nascimentos separados por 28 anos. Irene Tasso (em cima à esquerda) ficou grávida aos 17. Danielli, 29, (em cima, à direita) teve Isadora no ano passado.
O ponto em comum aqui é que as duas mães são mãe e filha. Era 1976 quando Irene ficou grávida. Ela não se casou. "Tive que parar de estudar e trabalhar mais para manter minha filha. Fui feliz, mas não é fácil. O melhor é engravidar com planejamento", conta. Danielli seguiu o conselho da mãe, só teve a filha seis anos depois de se casar. Suas irmãs, as estudantes Ingrid, 21, (embaixo, à direita) e Monigue, 18, (embaixo, à esquerda) defendem o mesmo modelo de futuro. Quanto ao tema primeira vez: "Virgindade não é hímem, mas pureza. Se ali há felicidade e respeito com os conceitos de moral delas, a decisão fica com elas", garante a mãe. As conversas sobre sexo acontecem em duas direções: entre irmãs, ou com os pais. "Sempre falamos com naturalidade sobre o assunto. Falava sobre as minhas dúvidas e eles explicavam, sem problemas", lembra Danielli.
Aliás, o "livro" mais consultado pelas meninas sempre foi o pai, Christovão, 68, que não tem dedos para falar sobre sexo. "A gente acha que gente mais velha é careta, mas ele sempre teve tranqüilidade pra falar sobre tudo"