Não há dúvidas de que o sexo é uma das coisas mais prazerosas da vida, transcendendo o caráter reprodutivo, além de representar um traço primitivo do instinto animal no ser humano. Mas diversos fatores influenciam a prática sexual para que ela seja plena e satisfatória tanto para o homem quanto para a mulher. Quando algo está errado, do ponto de vista psicológico ou orgânico, eis que surgem as disfunções sexuais, sendo as mulheres as principais vítimas.
Estima-se que pouco mais de 40% das mulheres apresentem algum tipo de disfunção sexual. Entre as principais estão a falta de orgasmo ou anorgasmia, diminuição da libido ou do desejo sexual, disfunção da excitação, vaginismo (contração involuntária da musculatura da vagina, impedindo a penetração ou causando dor durante o coito).
“A dor no ato sexual é muito frequente e às vezes se resolve clinicamente de maneira muito simples, com o uso de algum creme vaginal. Outras são mais complexas e pode ser instituída uma psicoterapia”, comenta Maria Bernardete Sousa, professora do curso de Medicina e pró-reitora de Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Há três anos, ela comanda um levantamento sobre disfunção sexual nas mulheres natalenses e sobre o que elas acreditam ser uma vida sexual saudável.
Durante muito tempo na história da humanidade, a mulher teve o prazer sexual reprimido, limitando-se à função da reprodução, da perpetuação da espécie. Aos homens, sempre foi dado o aval da liberdade no sexo, o papel de predador de fêmeas.
Um exemplo disso é o fato de o rapaz ser estimulado desde cedo a ter suas primeiras experiências sexuais, enquanto das meninas espera-se (ou esperava-se?) o recato e a virgindade.
Para a professora Maria Bernardete não houve tantos avanços nessa área. “A despeito de a mulher ter se tornado muito mais liberada, desse ponto de vista delas terem o início da vida sexual cada vez mais precoce, de ela ser mais aberta do ponto de vista do relacionamento, a gente observa que a disfunção feminina ainda continua do mesmo jeito, pouco discutida”, avalia. Para ela, falta mais ações governamentais e políticas públicas que tratem disso.
Transtornos sexuais
Apesar de a disfunção sexual feminina atingir cerca de 45% das mulheres brasileiras, faltam dados clínicos sobre o problema e não há uma disciplina específica sobre o tema no curso de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Aborda-se a sexualidade do ponto de vista reprodutivo e não do ponto de vista da subjetividade das relações. Para reverter essa situação e promover o debate sobre a saúde sexual, a pró-reitora de Pesquisa da UFRN, Maria Bernardete Sousa está à frente de uma pesquisa realizada com mulheres de vários bairros de Natal.
“Nossos indicadores vêm ou do exterior ou dos estados das regiões Sul e Sudeste. Faltam dados da nossa região, particularmente aqui do Estado. A outra questão que a gente tinha era, em posse desses dados, estabelecer algumas políticas públicas”, diz Maria Bernardete.
O tabu que a sociedade tem sobre sexo acaba colocando a discussão sobre o prazer sexual de escanteio. Segundo a pró-reitora, que também é professora do curso de Medicina da UFRN, até mesmo entre médicos clínicos, como urologistas e ginecologistas, o assunto não é abordado.
“Normalmente, você vai para um desses dois clínicos para ver a saúde do órgão reprodutivo, mas não o lado subjetivo de sua relação com o seu parceiro. Transformar isso numa coisa natural como deve ser dentro da Medicina, que ainda não é, pois existe ainda um pouco de tabu e isso é pouco desenvolvido na formação dos médicos atualmente”, analisa a acadêmica.
Pesquisa
O objetivo do levantamento feito pela pró-reitora de Pesquisa e um grupo de alunos colaboradores foi investigar o que as mulheres entendem por saúde sexual, o que elas imaginam de viver de forma “sexualmente saudável”. Segundo Maria Bernardete, a primeira coisa que vinha à cabeça das entrevistadas era a prevenção. Dois termos tiveram grande expressão: Aids/DSTs e camisinha.
Foram pesquisadas 150 mulheres atendidas pelo SUS; 77,7% alegaram ser casadas ou com relação estável, 49,3% delas cursaram o ensino médio e 44,7% o ensino fundamental, 84,6% eram da faixa-etária entre 19 e 46 anos de idade.
As mulheres pesquisadas consideraram que ter saúde sexual significa ter um parceiro fixo, companheiro e fiel, além de uma relação baseada no amor recíproco. “Nenhuma falou que não tem desejo, que nunca teve orgasmo. Também aplicamos o questionário na materninade Januário Cicco, de forma objetiva, e vimos meninas grávidas de 18 anos que diziam: 'Ai como eu queria sentir isso'; 'Já ouvi falar disso mas não sei como é'. A disfunção nunca aparece quando perguntadas sobre o que saúde sexual”, revela Maria Bernardete.
A pesquisa começou pelos bairros de Felipe Camarão e Bom Pastor, onde a receptividade foi muito grande. Os pesquisadores iam até as casas acompanhados pelos agentes de saúde. Nenhuma mulher deixou de responder o questionário, segundo a pró-reitora. Mas no Tirol, a história foi bem diferente, o oposto: simplesmente ninguém respondeu as perguntas. “Notamos como ainda falta sensibilidade. Por mais discreta que você seja, por mais sigilo que você garanta, não existe uma adesão a esse tipo de investigação. Nos outros bairros, ninguém se recusou a responder.”
A professora comenta ainda que os moradores do Tirol supostamente têm um bom nível de informação, além de serviços disponibilizados. “Eles não vão se preocupar em criar políticas públicas porque já têm acesso ao serviço de saúde; a maioria tem seu plano de saúde, então não existe muito essa preocupação de dar um retorno.”
Aspecto psicológico
Segundo a psicanalista Odete Bezerra, muito mais do que o homem, a mulher é regida pelos aspectos psicológicos, inclusive no sexo. Ela comenta que para atingir um orgasmo com tranquilidade numa relação sexual, tem que estar bem definido dentro da mulher o seu papel de fêmea. Isso na instância do instinto. Caso isso não esteja organizado, há a possibilidade de haver vários distúrbios. “Na construção psíquica da estrutura da mulher, o desejo dela é ser desejada pelo outro. E no homem, é ser o que deseja, ou seja, o ser desejante. Ele é quem deseja ela; e ela deseja ser desejada por ele. Ela vai provocar nele o desejo de desejá-la.”
Ela lembra, porém, que a sexualidade feminina sempre foi marcada por tabu, mito, preconceito, submissão, poder, moeda de troca. Quando o homem pré-histórico começou a se organizar socialmente, percebeu o poder da mulher, por ela ter a “divindade” de gerar filhos, sendo o homem um colaborador desse processo. Foi a partir daí que ele passou a querer dominar esse poder.
Mais à frente, dentro do processo evolutivo, a mulher passou a fazer uso de sua sexualidade não mais pelo poder da procriação, mas pelo poder da sedução. “Ela descobriu que ela seduz. E aí estamos há aproximadamente 100 anos, entrando nesse caminho.”
A opressão ao chamado “sexo frágil” também teve o aval da ciência, na opinião da psicanalista. “Passou-se a afirmar que o clitóris — responsável pelo prazer na mulher — é o pênis. Hoje, a ciência, não sei a do conhecimento ou a de cunho machista, opressor, manipulador, está dizendo que a mulher também tem orgasmo, também ejacula. Aí, ficamos na dúvida se esse também é mais um fator de manipulação “mulher é igual a homem.”
Mas a psicologia apontou as descobertas no campo do prazer feminino, mostrando que a mulher não é apenas detentora da procriação. “Não é só para isso que eu sirvo. Eu sirvo para usar o meu clitóris em meu favor. É bom ter prazer!”
Odete Bezerra indica às mulheres conhecerem seu próprio corpo, percebendo como é bom o toque. “Aí entra a masturbação, que ela tem dificuldade devido ao preconceito, à cultura, à opressão, inclusive religiosa, ao meio em que ela vive. “É importante que eu me autorize. Eu sou dona de mim. Esse gozo é meu antes de ser dele. É o caminho que ela poderá andar para conquistar a liberdade de fazer sexo sem tanta pressão psicológica. Porque o sexo é um prazer físico.”
Isaac Ribeiro