A capital argentina se torna um dos principais destinos de turismo homossexual do planeta – e lucra muito com isso.
Em uma campanha contra a aids, um preservativo cobriu, em 2005, o Obelisco de Buenos Aires, um dos cartões-postais da cidade. Acima, José Bello e Alex Freyre, que querem se casar no papel.
Buenos Aires converteu-se definitivamente em um dos roteiros preferidos dos homossexuais. Há três anos, a capital argentina disputa as primeiras colocações nos rankings das mais amigáveis para gays e lésbicas. Em 2006, a Here Media, um grupo americano com publicações voltadas para esse público, apontou a cidade como revelação do circuito.
No ano passado, a sua revista Out Traveler elegeu Buenos Aires como o principal destino gay em todo o mundo. A ascensão da metrópole do Prata ao topo do itinerário homossexual é corroborada pela International Gay & Lesbian Travel Association (IGLTA), que congrega agências de viagens especializadas nessa clientela. Resultado: uma pesquisa da prefeitura de Buenos Aires mostra que já chega a 20% a proporção de turistas gays e lésbicas. É o equivalente a 500 000 pessoas por ano. O sucesso com esse contingente não se deve apenas à beleza da mais europeia das cidades latino-americanas. O que atrai os visitantes homossexuais são sua vibrante vida noturna e, obviamente, a atitude dos portenhos, que estão entre os mais liberais da América do Sul.
Um indicador da tolerância sexual de Buenos Aires é o seu pioneirismo na legislação em favor de gays e lésbicas. Em 2002, ela se tornou a primeira cidade no continente a reconhecer a união estável de pessoas de mesmo sexo. No ano passado, sancionou uma lei que estende o direito à pensão a homossexuais. Em 1º de dezembro último, quase celebrou o primeiro casamento gay da América Latina. O psicólogo José María Di Bello, de 41 anos, e seu companheiro, Alex Freyre, de 39, chegaram a obter uma autorização judicial para realizar a cerimônia civil.
A Igreja Católica, no entanto, exigiu que o prefeito Mauricio Macri recorresse aos tribunais para anular a sentença. Ele fez o oposto. Provável candidato a presidente em 2011, Macri não só se recusou a atender à demanda eclesiástica, como postou no site YouTube uma declaração em favor do casamento entre homossexuais. A união acabou suspensa por outra decisão judicial horas antes de ser oficializada, estragando uma festa que reuniria a comunidade gay na Plaza de Mayo, que sedia o governo federal. O caso será, agora, julgado na Suprema Corte do país.
Buenos Aires começou a entrar no circuito do turismo gay (assumido) há pouco mais de uma década. Em 2001, a crise argentina deu o impulso que faltava a esse mercado. "Quando o peso se desvalorizou, a cidade, que já tinha um ambiente cosmopolita propício, ficou com preços convidativos para quem ganha em dólares, euros ou mesmo reais", diz o empresário Alfredo Ferreyra, dono de uma agência de viagens. A capital saiu do armário em 2006, quando ganhou o prêmio da Here Media. Naquele ano, seu porto acolheu o primeiro cruzeiro homossexual realizado na costa argentina. Logo em seguida, a cidade sediou uma edição da Copa do Mundo Gay – de futebol. Por lá passaram 400 jogadores distribuídos em 28 times e um número não contabilizado de torcedores gastadores.
Tanta animação vem atraindo investidores estrangeiros. A rede espanhola de hotéis Axel elegeu Buenos Aires para construir um de seus empreendimentos para homossexuais – os dois outros, também exclusivos para gays, ficam em Barcelona e Berlim. "Uma série de estudos que fizemos mostrou que Buenos Aires era a melhor alternativa. Os portenhos têm uma mentalidade aberta e a cidade conta com uma diversidade cultural e gastronômica que atende a todos os perfis do nosso público", diz Elvio Cornetti, diretor do Axel argentino.
O mercado para homossexuais em Buenos Aires é um arco-íris com potes de ouro no final. Duzentas empresas já se especializaram em vender produtos e serviços para esse grupo, que, sem filhos para sustentar, torra dinheiro com todo tipo de diversão. Há bares, restaurantes, boates e até casas de tango para gays – a La Marshall, por exemplo, aberta em 2002, é voltada para o público GLS. "A cidade precisava de um lugar para quem gosta de tango mas quer dançar com um parceiro do mesmo sexo", diz sua proprietária, Roxana Gargano. Há quatro anos, Buenos Aires passou a promover o Festival de Tango Queer, no qual só não vale homem dançar com mulher. "É como nos primórdios do tango: ele podia ser dançado apenas por casais masculinos", conta Roxana, transformando a lenda em realidade.
Como só em 2008 o segmento gay movimentou 1,1 bilhão de dólares em Buenos Aires, empresários criaram a Câmara de Comércio Gay Lésbica da Argentina. A primeira tarefa da nova associação será conduzir uma pesquisa sobre o perfil do turista gay que viaja ao país. O estudo servirá para que os empresários definam estratégias para atrair um volume ainda maior de visitantes homossexuais.












