O Sexo Também se Levanta: Códigos Sexuais Num Romance de Hemingway


A androginia na obra de Ernest Hemingway já tem sido bastante pesquisada. Mas é sempre interessante ler um romance como The Sun Also Rises observando os códigos sexuais ali presentes. Inicialmente, o romance gira em torno da amizade entre Cohn e Jake, assim comov desdobra-se num triângulo amoroso com a entrada da figura de Lady Ashley Brett. Jake Barnes é um jornalista em Paris que é amigo de Robert Cohn, herdeiro rico de família judaica, boxeador e escritor.

2. Os triângulos
Barnes/Brett/Cohn e Bill/Barnes/Cohn Jake Barnes é o melhor amigo de Robert Cohn, mas sempre o descreve com distanciamento e ironia. Temos então o eixo Barnes/Cohn, ampliado para Brett como objeto de desejo dos dois. Barnes explica o que aconteceu quando da formação desse triângulo amoroso: A razão é que, até o dia em que se apaixonou por Brett, eu nunca o ouvira (Cohn) fazer alguma observação que o distinguisse dos outros. Era agradável vê-lo numa quadra de tênis. Tinha um bom corpo e conservava-se em forma, jogava bem o bridge e havia nele um quê divertido de colegial (HEMINGWAY, 1982, p. 53). Nesse triângulo, portanto, existe admiração platônica de Jake Barnes pelo belo físico de Cohn e uma forte afeição de Cohn por Barnes.

A relação irá se complicar com a entrar em cena Brett, figura muito próxima das poules (putas) de Paris, pendendo inicialmente mais para o envolvimento com o rico Cohn do que com o distanciado e frio Barnes. O amor de Barnes por Brett é forçosamente platônico, pois Barnes foi ferido na guerra e sofre as seqüelas psicológicas. Isso faz, de certo modo, com os ânimos entre Barnes e Cohn esfriem. O núcleo central é abalado quando os três se inserem em meio a outros personagens em uma viagem à Espanha. Brett, objeto de desejo platônico de Barnes e efetivamente envolvida com Cohn, liga-se também a um toureiro espanhol.

O fascínio de Brett pelo toureiro é partilhado por Barnes, que se refere a ele duas vezes como “um homem muito bonito”. A partir daí, o conflito principal é deslocado para um conflito semelhante ao do romance Carmen, de Prosper Mérimée e gerou a adaptação de Bizet para a ópera: Cohn, Brett e o toureiro. De certa forma, os oponentes de Barnes são primeiramente Cohn e depois o próprio toureiro. No entanto, Barnes tem uma postura cínica, distanciada, que não se justifica nem moraliza. Barnes é pouco envolvido com os acontecimentos que narra, os quais enxerga como se fosse um drama que se desenrolasse à parte: ele tem um olhar impotente para interferir.

Quando ele se desloca do eixo, vai beber com Bill. A conversa, regada a álcool, em plena festa de San Fermin, em Pamplona, exibe um deslocamento da ligação Barnes/Cohn para a ligação Barnes/Bill. De certo modo, se considerarmos a fala de Bill para Barnes, pode-se dizer que Barnes ficou em outro triângulo amoroso, outro vértice de afetos, mas entre pessoas do mesmo sexo: Cohn/Barnes/Bill. Ao se deslocar do eixo com Brett e Cohn, devido à entrada do toureiro em seu lugar, ele também se desloca do afeto heterossexual para um campo de afetos homossexuais.

O deslocamento de lugares (Paris/Espanha, USA/Espanha) também permite deslocamentos de afeto e declarações reveladoras. Uma frase de Bill reflete esse deslocamento com uma visão de mundo fortemente marcada pela vulgarização da psicanálise: Escute. Você é um sujeito ótimo, formidável. Gosto mais de você que de qualquer pessoa. Mas não podia dizer-lhe isso em Nova York. Eu seria considerado um efeminado. Foi a causa da guerra civil. Abraham Lincoln era efeminado. Estava apaixonado pelo General Grant. Jefferson também. Dred Scott foi forjado pela liga antialcoólica. O sexo explica tudo. A mulher do coronel e Judy O´ Grady são lésbicas até a medula. Parou de falar (HEMINGWAY, 1982, p. 125).

Acima, nessa fala de Bill, ele projetou numa explicação baseada em códigos sexuais uma selvagem explicação da história. As relações entre pessoas do mesmo sexo seriam, para ele, a chave das grandes narrativas históricas e desencadeariam os acontecimentos importantes. Claro que a explicação histórica de Bill é fantasia movida pelo álcool, mas essa fantasia é profundamente interessante porque nela aparece delineado um triângulo amoroso que explicaria algo fundamental: a guerra civil americana. O triângulo seria: General Grant/Abraham Lincoln/Jefferson. Esse triângulo pode ser aproximado ao triângulo que acaba de se formar: Bill/Barnes/Cohn.

O fato de que Bill ama Barnes “mais do que qualquer outra pessoa” explica o ódio que ele sente de Cohn, a quem hostiliza com freqüência: ele quer afastar Barnes de Cohn, uma vez que sente ciúmes. Em The Sun Also Rises, assim com em Carmen, o ponto de virada é a entrada do toureiro na narrativa. Em Carmen existia a relação entre o soldado e a cigana Carmen, mas ela se complica quando Carmen se liga um toureiro: o resultado é que o soldado mata a cigana, tomado de ciúmes.

Carmen é uma ópera em quatro atos de Georges ,Bizet com libreto de Henri Meilhac e Ludovic Halévy, baseada na novela homônima de Prosper Mérimée. Ambientada em Sevilha, na primeira metade do século XIX, narra a história do oficial de exército Don José, que, prometido à jovem Micaëla, deixa-se seduzir pelos encantos da cigana Carmen, causando para si inúmeros problemas como a prisão e o rebaixamento no exército por facilitar-lhe uma fuga quando ela fora declarada culpada por agredir uma colega na fábrica de cigarros onde ela trabalha. Abandonando a vida honrada para se entregar à vida errante junto aos ciganos, Don José vê Carmen trocá-lo pelo toureiro Escamillo e, tomado por uma crise de ciúmes, mata-a. É o mais popular triângulo amoroso numa ópera.

É uma das mais conhecidas óperas de todos os tempos. E algumas de suas árias ficaram tão populares que foram até plagiadas em publicidade. Carmen, de Georges Bizet (1838-1875), no entanto, é a história de uma mulher que gostava de homens. E por eles era capaz de tudo: de abandoná-los e de levá-los a matar. E até a morte. A ópera de Bizet foi baseada em novela do francês Prosper Mérimée, com acréscimo de personagens, como Micaela, para ser o contraponto da cigana Carmen.

O compositor teve medo que a moral da época rejeitasse a ópera por causa da personalidade de Carmen, uma das mais fortes e dominadoras. Em The Sun, Cohn é que possui um papel análogo ao do soldado: ele ataca o toureiro. Esse conflito dissolve o triângulo amoroso. Mais tarde, afastada do toureiro e de Robert Cohn, Lady Brett volta para Jake Barnes em Paris. Os deslocamentos no espaço produzem o deslocamento final e o fim do triângulo amoroso: o episódio todo fez com que Barnes decidisse retornar aos Estados Unidos e decidisse que seu lugar não era a Europa; o romance de Brett com o toureiro foi prejudicado pela agressão deste a Cohn, a quem Brett se afeiçoara.

3. Conclusão
No final do romance, Jake Barnes rompeu também o triângulo homossexual para o qual tinha se deslocado, entre Cohn e Bill, retornando a Paris e retomando o laço afetivo, mais platônico do que afetivo, estabelecido com Brett no início do romance, sonhando em poder amá-la e que sua história pudesse ter sido diferente – assim como, já que esse amor não se efetiva, é bem provável que está aberto um outro vértice para outro possível personagem participar desse triângulo, dando a idéia de um final em aberto em “infinito”.

4. Bibliografia
HEMINGWAY, Ernest. O sol também se levanta. São Paulo: Círculo do Livro, 1982.

Turismo Sexual

O que é turismo sexual? O turismo sexual é um inimigo complexo. Tradicionalmente se manifesta em regiões onde existem, de forma conjugada, atividade turística e populações carentes.

Nem sempre é crime, só quando envolve menores de idade e redes de exploração da prostituição. Mas, ocorrendo ou não em modalidades passíveis de punição na Justiça, a prática traz conseqüências nefastas para os locais onde se instala. Estigmatiza essas áreas como paraísos sexuais, reduz a demanda turística de outros tipos e, diversas vezes, está ligada a práticas ilícitas como tráfico internacional de pessoas e tráfico de drogas.

O turista interessado em sexo pode viajar por conta própria ou assessorado por uma das muitas redes organizadas existentes - agências de turismo nos países desenvolvidos promovem viagens para fins sexuais, por exemplo, e há também serviços de agenciamento nos países onde os programas acontecem. Pode haver prostituição explícita ou uma relação romantizada, em que o turista presenteia a parceira ou parceiro. Há menores e maiores de idade de ambos os sexos envolvidos na prática, mas as meninas e mulheres são mais freqüentemente a mercadoria desse comércio lucrativo. Pobres, recebem uma parte ínfima do volume de dinheiro que o turismo sexual movimenta - não há estimativa oficial de quanto seja, mas o número toca a casa dos bilhões de dólares.

O Código de Ética Mundial para o Turismo, da Organização Mundial de Turismo (OMT), condena em seu Artigo 2 a exploração dos seres humanos sob todas as suas formas, principalmente sexual e especialmente no caso de crianças. Segundo o documento, esse tipo de prática “vai contra os objetivos fundamentais do turismo e constitui sua própria negação” e, portanto, deve ser “rigorosamente combatida”, com a colaboração “quer dos países visitados, quer dos países de origem dos atores desses atos”. A OMT e órgãos públicos dos países - incluindo o Ministério do Turismo, no Brasil -preferem não usar o termo “turismo sexual”, pois entendem que ele equipara a prática às demais modalidades de turismo, consideradas legítimas e desejáveis - turismo cultural, turismo de negócios, turismo rural, turismo de aventura. A definição mais utilizada pelas instâncias públicas para se referir a esse tipo de atividade é “exploração sexual por meio do turismo”.

Radiografia do Turismo Sexual Perfil das mulheres e meninas que atuam no mercado do turismo sexual - Oriundas de periferia ou de cidades interioranas, buscam melhores condições de vida nos grandes centros.- Têm baixa escolaridade- Muitas vêem de famílias desestruturadas e foram vítimas de violência em casa, física ou psicológica.Perfil dos turistas sexuais- A maioria dos turistas sexuais são europeus, e têm entre entre 20 e 40 anos. Houve uma mudança na faixa etária, já que, na década de 1990 e início dos anos 2000, o turista sexual tinha entre 35 e 45 anos.

Hoje, muitas garotas de programa dizem que atendem estrangeiros jovens e bonitos.- Italianos, portugueses, holandeses e norte-americanos lideram o ranking dos turistas sexuais que visitam o Brasil. - Pertencem à classe média e viajam com pouco dinheiro. - Com exceção dos pedófilos convictos, preferem garotas com mais de 18 anos, para evitar complicações com as autoridades. Países emissores Países desenvolvidos. Em geral, Europa Ocidental e Estados Unidos. Países receptores Países pobres ou em desenvolvimento. O Sudeste Asiático lidera o ranking. América do Sul, América Central e Caribe também recebem grande contingente de turistas sexuais.

Onde denunciar- A exploração sexual de crianças e adolescentes pode ser denunciada via Disque 100, número da Secretaria Especial de Direitos Humanos. - Casos de violência contra a mulher podem ser denunciados no número nacional 180, da Secretaria de Políticas para Mulheres da Presidência da República. - Em casos envolvendo redes de prostituição ou tráfico de seres humanos, você pode entrar em contato com a Polícia Civil de seu estado ou com a Polícia Federal. A relação das unidades da Polícia Civil em território nacional está disponível na página do Ministério da Justiça na Internet.

O endereço é http://www.mj.gov.br/.
Já para obter contatos da Superintendência da Polícia Federal de seu estado, acesse http://www.dpf.gov.br/.
Links de ONGs de defesa dos direitos de infância e dos direitos da mulher que atuam no combate à exploração sexual.

Sexo, traição e internet


O grande fantasma da maioria das relações amorosas é, e sempre foi a traição. Saber que o parceiro deseja outra pessoa é algo muito doloroso em nossa cultura.

Com a chegada de novas tecnologias, houve um aumento das oportunidades de encontro de pessoas que compartilhem os mesmos desejos e fantasias sexuais. Conhecer pessoas através do uso da internet, via e-mails ou salas de bate-papos, tem sido algo fascinante e cada vez mais fácil de ocorrer. Encontros amorosos e sexo virtual surgem em discussões, freqüentemente.

Mas, fazer sexo virtual é mesmo uma traição ao parceiro? Qual é o tipo de contato que realmente caracteriza uma traição? A internet abriu um campo novo, onde nos deparamos com situações inusitadas e provocantes para muitos. Algumas destas novas formas de contato vêm gerando polêmica entre os casais, motivando desconfiança, e até mesmo provocando o fim de relacionamentos tidos como sólidos.

Por exemplo, se antes um homem se masturbava vendo revistas ou filmes eróticos, hoje pode fazer o mesmo enquanto acessa sites que estão em constante atualização, ou ainda "vendo" uma mulher que está do outro lado do computador, e que pode realizar seus desejos, ainda que de modo virtual. Neste caso, passamos a ter dois fatores presentes: não mais apenas a "imaginação" (ou seja, a fantasia), mas também a possibilidade da "presença" (ainda que virtual) de um "alguém" que realiza suas fantasias e ainda a complementa em conjunto. E-mails trocados, ou conversas travadas em salas de bate papo podem ter um conteúdo altamente erótico.

O acesso é fácil. Conhecer pessoas com um mesmo interesse também. Muitos, então, começam a se preocupar com o que o parceiro faz durante as tantas horas conectadas na internet. Então, um parceiro desconfiado pode vasculhar e-mails (invadindo a privacidade do outro) ou verificar que sites estão sendo visitados pelo outro, tudo em nome do medo da traição. Normalmente homens e mulheres têm um conceito diferente do que seja a traição. Para alguns o fato de acontecer o contato físico é a única traição real. Para outros o envolvimento afetivo é a característica mais marcante.

É freqüente encontrarmos homens que acham que suas 'pequenas escapadas' são perfeitamente normais, e que suas mulheres devam compreender e relevar tal fato, uma vez que, nessa visão, o contato com a "outra" se resume ao físico e não envolve o afeto. Agora, se sua mulher adotar a mesma atitude, dificilmente esses mesmos homens a perdoariam, pois temeriam ser motivo da gozação de seus amigos. Ou ainda, para os homens de modo geral, permitir que um outro "tenha" fisicamente sua mulher, é sentido como se algo que lhe "pertence" fosse subtraído.

Já para as mulheres, normalmente, a pior traição consiste na traição do afeto. Porém, é desconfortável tanto para os homens quanto para as mulheres, saber que não é o "único" na vida do companheiro. Descobrir conversas mantidas por e-mails ou chats, ou a troca de fotos e imagens captadas por câmeras na web gera diferentes reações.

Que estas formas de contato podem se tornar muito íntimas e pessoais não há dúvidas, mas a questão é como cada um (ou o próprio casal) encara tais situações. Não existe uma regra válida para todos os relacionamentos, que defina de modo conclusivo o que seja (ou não) a traição, embora, de modo geral prevaleça o consenso de que o contato físico é sentido como a maior prova da falta de amor do outro. Mas, apesar de na internet não ocorrer o contato em sentido estrito, o ciúme invade o pensamento de muitos, do mesmo modo.

A conversa sendo íntima permite à imaginação ir longe, compartilhando no espaço do virtual algo que antes só era dividido entre quatro paredes. A fixação de um dos componentes de um casal por sites contendo fotos pornográficas, pode fazer com que seu parceiro se sinta menosprezado e excluído, como se tivesse defeitos a serem reparados, ou ainda possa supor que não é dotado de atrativos suficientes para satisfazer o companheiro.

Uma forma de lidar com estas complexas questões é a abertura da conversa franca dentro do próprio par, expondo-se as fantasias, sensações e pontos de vista de ambos. O objetivo seria, então, poder partilhar as necessidades do outro, desde que se respeite a própria vontade e limites individuais. Desse modo, a Internet talvez possa servir como um novo campo criativo, ou ainda um estímulo para que se amplie a experimentação da sexualidade. Ou ainda: um meio através do qual os casais possam enriquecer suas vidas sexuais.

A inclusão de um outro alguém na relação do casal geralmente é difícil de ser imaginada e compreendida, mas a fantasia humana não se limita a uma única pessoa, por mais que esta seja o grande amor de uma vida. Desejo e amor caminham juntos, mas não seguem regras únicas. Depende de cada um encontrar, junto com seu par, a forma ideal de relacionamento, e buscar estabelecer os limites do que pode (ou não) ser permitido dentro desta relação.

Cada relação é única, assim como cada pessoa que passa em nossa vida. Em se falando de sexualidade a única regra é a busca das formas de prazer que não invadam o espaço e/ou a sensibilidade do outro. Como em uma relação real, a avaliação das relações virtuais depende de cada casal, e a traição só pode ser vista e sentida como tal por quem está dentro dela, levando em conta as características deste casal, lembrando, ainda, que a única diferença é que agora estamos no campo digital na ação, mas o afeto continua a acontecer de forma "real".

“A liberdade sexual é uma utopia”

Conhecida por narrar sua vida sexual livre e muito intensa, a escritora francesa Catherine Millet se roeu de ciúme ao descobrir que o marido seguia a mesma regra. Ela fala sobre esse conflito, que é tema de seu segundo livro Por Amarílis Lage.

Relacionamento aberto? Utopia. A constatação acima vem com o peso da experiência: a francesa Catherine Millet, 61, adotou a liberdade sexual como regra já em seus primeiros relacionamentos e não abriu mão dela nem quando se casou com o escritor Jacques Henric. Crítica de arte e fundadora da conceituada revista Art Press, ela causou estardalhaço ao relatar suas experiências sexuais no livro A Vida Sexual de Catherine M., de 2001.

Já nas primeiras páginas, há o relato de uma suruba, da qual ela participou pouco depois de ter a primeira transa aos 18 anos. Nas surubas seguintes, chegou a participar de eventos com quase 150 pessoas.O que parecia natural para ela começou a ser questionado quando Catherine achou fotos de uma das amantes de seu marido. O ciúme intenso que a dominou e que a levou a espionar a vida sexual de Jacques nos anos seguintes é narrado no livro A Outra Vida de Catherine M., recém-lançado no Brasil.

A experiência, diz, foi quase patológica.“Escrevi A Vida Sexual... como forma de escapar do meu analista”, brincou a autora, em uma entrevista coletiva durante a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), no início de julho, após declarar que o processo de escrita foi transformador. Suas roupas sóbrias e sua voz pausada desfaziam qualquer imagem de mulher sedutora que as obras poderiam sugerir. Pergunto se ela acha que os livros, tão confessionais, mostram quem ela realmente é. “O autor escolhe o que vai mostrar”, ela diz. “E já me disseram que, apesar de eu falar coisas tão íntimas da minha vida, permaneço misteriosa.

”No livro A Outra Vida de Catherine M., você é bem dura consigo mesma, quando critica seu egocentrismo, seu ciúme... Mas não percebi nenhum sinal de raiva contra Jacques ou uma crítica aos casos extraconjugais que ele tinha. Por que reagiu assim? Nós tínhamos um contrato não escrito: nós nos autorizávamos a liberdade sexual. Jacques viveu essa liberdade, assim como eu a vivi, então não havia uma traição. Havia um acordo. Eu não podia acusá-lo de haver me traído porque, a princípio, nós dois estávamos de acordo com essa liberdade sexual. E é verdade que eu jamais, durante toda essa crise, tive ressentimento ou agressividade contra ele.

Eu não recriminava seus atos. Eu recriminava a mim mesma, por sofrer.Mas por que você se recriminava? É natural sofrer em uma situação assim. Sim, mas nós sempre queremos fugir desse sofrimento (risos). E, para mim, esse sofrimento não era natural. A crise que eu atravessei teve aspectos patológicos. O ciúme que eu experimentei era mais que um sentimento natural, era quase uma doença da alma e se transformou em uma obsessão. Eu estava obcecada.

Você relatou também ter sentido ciúme em relacionamentos anteriores, como o que viveu com um ex-namorado, Claude... Sim, mas aquele ciúme era menos profundo, não se transformou em uma obsessão, como no caso com Jacques. Nesse caso com Claude, sim, era um ciúme mais natural. E onde está a diferença? Acha que o ciúme está conectado ao amor? Sim, claro. Mas, na verdade, acho que a raiz do ciúme é sexual. E que esse ciúme se exprime de modo mais direto quando existe também o sentimento amoroso. Falando em sexo, você conta em seus livros que suas experiências sexuais não tinham como meta sentir prazer. O que você buscava? Encontrar as pessoas (risos).

Para mim, a relação sexual fazia parte de um relacionamento normal com os homens. Se eu tivesse prazer nessa relação, tanto melhor. Mas, se não tivesse, não era algo grave – eu poderia ter outro encontro no qual talvez sentisse prazer. Para mim, a relação sexual era algo que vinha no meio de todas as outras coisas: a discussão, o trabalho em equipe, todas as atividade da vida estavam misturadas. O sexo não tinha uma importância particular. Entretanto, você escreveu que as suas experiências sexuais pareciam um pouco desconectadas das suas outras esferas de vida.

Como se existissem duas Catherine. Elas se tornaram separadas a partir do momento em que eu passei a viver com o Jacques, para que esses encontros sexuais que eu tinha não entrassem em conflito com essa relação de amor. Eu vivia essas experiências como se fosse uma outra Catherine que as vivenciasse. Era um tipo de arranjo comigo mesma para que a mulher apaixonada por Jacques não estivesse em conflito com a mulher que vivia a sua liberdade sexual. É por isso que eu separei as coisas. Na sua opinião, esse conflito entre a liberdade sexual e a vida amorosa é inevitável? Ou é possível conciliar as duas coisas? É inevitável.

Acho que esse contrato não escrito entre Jacques e eu, de respeitar a liberdade sexual um do outro, era uma utopia. A liberdade sexual, como sonhada pela nossa geração, de maio de 1968, era certamente uma utopia. Você acha que viver a liberdade sexual é mais difícil do que optar por uma relação monogâmica? Não. Na verdade, acho que a liberdade sexual é até mais fácil do que a monogamia. Então, por que você a considera uma utopia?

A liberdade sexual é uma utopia na medida em que ela não proporciona a serenidade – para assegurar essa liberdade, será necessário estar sempre em combate, em uma luta. E é uma utopia, também, na medida em que ela não vai evitar o nosso sofrimento. Como aquele que é causado pelo ciúme. Eu sabia que essa obstinação inquisitorial levava ao vício.

Os sintomas foram a repetição mais frequente dos atos, a necessidade de dores mais fortes. Logo, os papeizinhos encontrados ao acaso não foram mais suficientes, e fui procurar no fundo dos bolsos. Cometi dois ou três furtos: uma folha de bloco (...) e a foto de uma jovem nua (...). Não as guardei com o objetivo de mostrá-las a Jacques para acusá-lo. Elas foram se juntar à desordem das minhas gavetas. De vez em quando, olhava para elas (...) Sua única função era relançar o puro abandono na dor.

A crise econômica americana pelo olhar de uma prostituta ...!

Steven Soderbergh analisa a relação dos negócios com o erotismo em 'Confissões de Uma Garota de Programa'. Após um épico de 4h30 sobre Che Guevara, dividido em duas partes, Steven Soderbergh volta-se para um projeto pequeno, tendo por personagem uma jovem prostituta de Manhattan.

Trata-se de "Confissões de Uma Garota de Programa", filme modesto, de baixo orçamento e resumido em meros 77 minutos.
 

O título em português talvez tente apimentar uma história que nada tem de apelativa - no original, chama-se "The Girlfriend Experience". Ela se passa durante a eleição presidencial que levou Obama ao poder contra McCain e, claro, em meio à crise econômica nos EUA, que então se desenhava de maneira catastrófica. Estamos no epicentro do capitalismo e Soderbergh monta o seu posto de observação a partir do olhar dessa garota que tem gente de Wall Street e em outras esferas do poder econômico entre seus clientes.

Mas também seria demais enxergar nesse filme rápido, de tom urgente, uma "análise" sociológica de um momento particular do século 21 - o do naufrágio das ideias neoliberais. No fundo, tudo, antes, durante e depois da crise, continua acontecendo como sempre, apenas, quem sabe, com os homens mais inseguros e buscando, na call girl de luxo, essa gueixa moderna, algo além do sexo - talvez um pouco do afeto que não tenha em casa, ou algum tipo de consolo maternal, ou mesmo algum tipo difuso de calor humano. A garota, Chelsea (interpretada pela atriz pornô Sasha Grey) também tem lá os seus problemas, apesar de o namorado (Chris Santos) não se importar, em aparência, com o métier dela.

Mas sempre existem conflitos nesse tipo de situação, por mais que os parceiros sejam liberais. Ou profissionais. Sexo é sexo, e não é como beber um copo d'água. O que pode incomodar um pouco no filme é o tom distanciado escolhido por Soderbergh. É algo desenhado não apenas pela trama, mas também pelo tipo de atuação do elenco e pela própria maneira como os atores são filmados. É como se a câmera explicitamente os observasse, sem entrar no jogo da representação, colocando-os em perspectiva, de maneira fria, quase entomológica. A única maneira de curtir o filme é embarcar nessa proposta, respeitando-a como escolha do diretor. Chelsea aparece como a mais desenvolta das criaturas, exerce sua profissão como faria com outra qualquer, com toda a naturalidade e dignidade.

Mas essa frieza de relacionamentos também tem seu preço a cobrar, mesmo que ela assuma seu papel como "atriz" enquanto encontra seus clientes, isto é, como uma tela em branco para projeção de fantasias masculinas. Mesmo assim, a impressão é que Soderbergh poderia ter ido mais longe, e mais fundo, em tudo que se propôs observar, não fosse a pressa em captar um determinado momento e a partir de uma ótica singular, a da garota de programa. Mesmo assim, o filme, apesar de muito distanciado, tem por vezes o tom cativante de um depoimento, de um diário, de uma experiência relatada. Uma depuração maior, um aprofundamento dos personagens, inclusive dos clientes, poderia redundar num retrato mais nuançado e completo dessa ciranda sexual.

Nela se inclui o erotismo mas, acima de tudo, envolve uma questão monetária, como costuma acontecer. O interesse e os negócios mandam, tanto de um lado do balcão como de outro. Vale para Chelsea, a garota de US$ 2 mil a hora; vale para os executivos que podem pagar pelo serviço. Uma relação de troca mercantil, tão velha como a humanidade, mas que, aqui e agora, parece se revestir de outra tonalidade e assumir outra natureza, ainda mais mecânica e impessoal.

Sexo casual para as mulheres, só se ele for muito atraente

Sexo casual para homens e mulheres

Os homens interessam-se muito mais pelo sexo casual do que as mulheres. Enquanto um homem precisa ser excepcionalmente atraente para levar uma mulher a considerar o sexo casual, os homens são muito menos seletivos. Estas descobertas, feitas pela equipe do Dr. Achim Schützwohl, da Universidade de Brunel (Reino Unido), foram publicadas no jornal Human Nature.

A pesquisa mostra que os homens são mais propensos do que as mulheres a relatar que tiveram sexo casual e eles expressam muito mais interesse em experimentá-lo do que as mulheres. E também que as mulheres, mas não os homens, elevam seus padrões de atratividade para um parceiro sexual casual.

Beleza e sexo casual O Dr. Schützwohl e seus colegas estudaram a influência da atração física de um paquerador ou paqueradora imaginários sobre a propensão que teriam homens e mulheres de aceitarem três ofertas distintas: sair, ir para seu apartamento e ir para a cama com o paquerador ou paqueradora.

Um total de 427 homens e 433 mulheres, estudantes dos Estados Unidos, Alemanha e Itália, responderam o questionário. Foi pedido que eles imaginassem estar sendo abordados por uma pessoa do sexo oposto, descrita como "ligeiramente não atraente," "moderadamente atraente," e "excepcionalmente atraente." Os estudantes então davam notas equivalentes a como eles provavelmente reagiriam a cada uma das três propostas.
Diferenças culturais
Os autores descobriram que a aparência do paquerador ou paqueradora afetaram homens e mulheres de forma diferente. Em todos os três níveis de atração física, os homens se mostraram mais propensos a sair, ir para o apartamento e ir para a cama com a mulher que os convidava. Os homens alemães se mostraram menos propensos a ir para o apartamento e ir para a cama com a paqueradora do que os norte-americanos e os italianos, e os italianos se mostraram mais prontos a aceitar o convite para ir para a cama do que os norte-americanos. Essas variações ressaltam diferenças culturais nas preferências e na moral sexual de cada país.

"Se ela não for muito feia, eu topo" Para cada uma das três ofertas, os homens se mostraram mais propensos a aceitar o convite quando a mulher hipotética era moderadamente ou excepcionalmente atraente do que quando ela era ligeiramente não atraente. Mas a diferença entre moderadamente e excepcionalmente atraente não alterou o nível de aceitação do convite pelos homens.

"Se ele for lindão, eu topo" As mulheres também deram mais importância à aparência do candidato, mas elas se mostraram mais propensas a aceitar os convites de ir para o apartamento e ir para a cama quando o convite vinha de um homem excepcionalmente atraente. Elas se mostraram menos sensíveis ao convite quando ele vinha de homens apenas moderadamente atraentes ou ligeiramente não atraentes. "Embora os homens não sejam inteiramente insensíveis à beleza daquela que lhes faz o convite, as mulheres têm padrões mais elevados e são mais abertas a aderir ao sexo casual com um homem excepcionalmente atraente do que com outro que não tenha tanta beleza," concluem os pesquisadores.

Sexo sem camisinha é bom para a saúde mental

As pessoas que fazem sexo sem camisinha têm, em geral, uma saúde mental melhor do que aquelas que se protegem durante a penetração vaginal.

Essa é a polêmica conclusão de um estudo liderado pelo professor Stuart Brody, da Universidade do Oeste da Escócia. Na pesquisa, Brody estudou o comportamento sexual de 99 mulheres e 111 homens de Portugal.

Cruzando as respostas dos voluntários sobre o prazer obtido pelo sexo e o tipo de método contraceptivo que usavam, o professor concluiu que o uso de camisinha estava associado a problemas na hora de lidar com o estresse. Segundo Brody, aqueles que faziam sexo sem preservativo eram capazes de lidar melhor com as situações estressantes, tomando atitudes mais maduras, o que lhes garantia uma melhor saúde mental.

"Quanto maior a frequência do uso de camisinha, independente da idade e da natureza do relacionamento, maior o uso de mecanismos imaturos de combate ao estresse", disse o pesquisador. Brody faz uma crítica às campanhas de saúde que pregam o sexo seguro como forma de prevenir a gravidez e as doenças sexualmente transmissíveis, como a aids, e foi, por sua vez, criticado por pessoas ligadas à saúde pública.

O argumento de Brody baseia-se na teoria evolucionista: como o objetivo principal de qualquer indivíduo é perpetuar a espécie, transar sem camisinha seria uma vantagem, já que aumenta as chances de reprodução. "A evolução não é politicamente correta", disse Brody. "Entre uma ampla variedade de práticas sexuais, apenas uma delas (a penetração vaginal) está consistentemente associada a uma melhor condição física e mental e é exatamente aquela que será favorecida pelo processo evolutivo".

O artigo de Brody será publicado na revista especializada Archives of Sexual Behaviour. Em carta a ser divulgada na mesma publicação, o pesquisador escocês diz que uma possível explicação para o resultado de sua pesquisa é que a troca de fluidos – impossibilitada pela camisinha – pode ter efeitos no combate à depressão e benefícios para o sistema imunológico.

Em Berlim, o mercado do sexo se adapta à crise

Nos bordéis alemães, legalizados no país desde 2002, a crise financeira faz aumentarem os "descontos" oferecidos para manter os clientes.

  • Em Berlim, o mercado do sexo se adapta à crise
  • Nos bordéis alemães, legalizados no país desde 2002, a crise financeira faz crescer os "descontos" oferecidos para manter os clientes. Na Alemanha, a crise afeta a prostituição, uma atividade legal e próspera no país. Mas, algumas casas noturnas aplicam o conceito de "descontos", como uma solução milagrosa em Berlim. Um folheto distribuído em toda a capital alemã atrai a população. Uma casa noturna, Schönefeld, situada em frente ao aeroporto de Berlim, oferece um pacote com "tudo incluído": bebidas, buffet e jantar à vontade. Sem mencionar TV a cabo, para não se perder nenhum jogo de futebol. E, em julho, um especial "churrasco com salsichas à vontade". Durante o dia o pacote custa € 70. A tarifa sobe para 100 euros durante a noite. Vender o corpo é uma atividade legal na Alemanha, onde as prostitutas têm os mesmos direitos que os outros trabalhadores, incluindo a segurança social e seguro-desemprego. Existem cerca de 450.000 no país, incluindo os 22.000 profissionais (homens e mulheres), em Berlim. O comércio sexual está enraizado na moralidade sexual após liberação de 1968. A prática da intensiva do FKK (Freie Kultur Koper), a cultura do corpo livre, ou nudismo liberado por uma "comunhão com a natureza", abriu as portas para a legalização da profissão.
    Prostitutas que trabalham na rua representam apenas 3% do total. A grande maioria das práticas são realizadas em bordéis, casas de massagens e residências privadas. A demanda continua forte, mas o número de prostitutas aumentou, devido ao desemprego e à medida que mais e mais pessoas estão voltando a exercer a mais velha profissão do mundo, explica Detlef Marion, da organização alemã de defesa das prostitutas Hydra. Daí a dura concorrência na atualidade. Redução das tarifas reduz a qualidade do serviço "Gina", uma romena de 21 anos, vestindo um minishort, se candidatou para trabalhar no Schönefeld. A legalização da prostituição, decidida em 2002, reduziu a atividade criminosa relacionada com o ambiente, a máfia, sem eliminá-la. Como "Gina", elas somam dezenas por semana a se apresentar em busca de trabalho. "As meninas ganham entre 100 e 250 euros por jornada", explica o proprietário. Um sinal da prosperidade do clube Schönefeld é sua intenção de abrir em breve um novo "wellness" (bem-estar), com spa, piscina, hidromassagem e pista de dança gigante. Os estabelecimentos mais luxuosos não estão dispostos a reduzir seus preços, apesar de uma queda nas receitas. "Isso não mudaria nada", afirma o proprietário do Monrouge, instalado atrás de seu bar. "Não podemos lutar contra a indústria do sexo. Taxas mais baixas afetam a qualidade do nosso serviço e nossa imagem", diz comandante da casa. Os funcionários do seu estabelecimento estão reclamando de uma queda na renda dos últimos seis meses. "Os clientes já não querem pagar para extras ", diz Katharina, funcionária da Romênia. Temos de ser mais empreendedoras para convencer os clientes. "Agora, Katharina faz horas extras como garota de programa, após sair de seu serviço no Monrouge, para completar o seu mês. Mas ela diz que nunca iria trabalhar em uma casa como a de Schönefeld. Ela acha que suas companheiras irão sofrer uma "verdadeira escravatura."

    Espanholas oferecem serviço doméstico sexual

    Trabalho mistura atividades como cozinhar, lavar e passar com atividades eróticas.
    A crise econômica global pode estar ajudando a impulsionar uma nova modalidade de trabalho na Espanha, os serviços domésticos eróticos, que no país ganharam o nome de porno-chachas. O trabalho é uma mistura de serviços de limpeza, cozinha, lavar e passar com atividades eróticas. No último mês foram oferecidos nos jornais e na internet mais de 750 mil anúncios de empregadas que oferecem o serviço. Apenas na última sexta-feira, 3.360 anúncios ofereciam propostas como "gostaria de conhecer moça que goste de se exibir enquanto realiza tarefas domésticas. Pago por hora." Ofertas como esta chamaram a atenção de especialistas em atividades relacionadas com a prostituição, como a ONG Amunod, que trabalha com projetos de reintegração social de prostitutas. "Nunca vimos uma coisa assim. Estão inserindo ofertas de trabalho encobertas como serviço doméstico que incitam à prostituição. Há gente se aproveitando das pessoas necessitadas por causa da crise", disse à BBC Brasil a presidente da ONG, Teresa López.
    A Espanha é um dos países mais afetados pela crise econômica mundial, e a taxa de desemprego no país chega perto de 20%. Queixa A Amunod foi a primeira a prestar queixa policial contra anunciantes dos serviços domésticos eróticos. A denúncia já provocou a retirada de vários anúncios em páginas de classificados e foi feita para demonstrar que os empregadores tentam explorar mulheres desempregadas com ofertas de prostituição. Alguns anunciantes, inclusive, avisam que não pagam ou pagam pouco. Eles propõem casa e comida em troca de sexo ou que as empregadas façam os serviços domésticos com pouca ou nenhuma roupa, pagando 20 ou 30 euros (cerca de R$ 53 a R$ 80) por hora. Segundo estimativas da Associação Espanhola de Prostíbulos, o novo serviço tem atraído principalmente mulheres espanholas que jamais haviam exercido a prostituição. "Isso para nós é um fenômeno surgido da crise. Nos últimos 15 anos não tínhamos nem 5% de espanholas neste mercado e agora elas já representam 30%", disse à BBC Brasil o diretor da associação, Roberto Doval. Ele afirma que a possibilidade de exercer a prostituição de forma livre e escondidas da sociedade faz com que muitas mulheres espanholas estejam aceitando mais a atividade de serviço doméstico erótico.
    "Se você soubesse da quantidade de casadas e com filhos que atendem a estes anúncios se surpreenderia. Tem gente que não consegue pagar as contas no fim do mês e se vê aflita. Em 30 anos neste negócio nunca tinha visto algo assim", afirmou Doval. A prostituição movimenta cerca de 20 bilhões de euros (aproximadamente R$ 53 bilhões) por ano na Espanha, 2% do PIB nacional, segundo estatísticas do Ministério da Igualdade. Desde o fim do ano passado, o número de anúncios de prostitutas na imprensa e internet cresceu 50% mas, apesar do aumento na oferta, empresários da prostituição esperam queda de 40% nos lucros em 2009, como reflexo da crise mundial.

    Sexo «tipo» rodízio na Alemanha

    Na Alemanha a prostituição está legalizada mas, mesmo assim, parece haver limites ao negócio. Para combater a crise, surgiu um novo tipo de bordel que oferece, em troca de um valor fixo (70 euros), «sexo ilimitado». Ou seja, «tipo rodízio». A notícia é avançada pelo site da BBC. Os anúncios publicitários a estes espaços fizeram levantar um coro de protestos, lê-se na mesma notícia. Incluindo o próprio secretário de Justiça do Estado de Baden-Württemberg, Ulrich Goll, que se mostrou indignado: «Se levarmos o anúncio a sério, podemos concluir que há uma violação da dignidade humana das prostitutas que lá trabalham». Várias entidades de defesa dos direitos humanos e até representantes da Igreja também já criticaram este tipo de oferta. Polícia no terreno Perante as criticas e as suspeitas de que haveria uso de prostitutas «ilegais» levou a polícia a realizar uma grande operação, no passado domingo. Mais de 700 polícias passaram a pente fino vários bordeis, em quatro cidades alemãs. Foram detidas 10 pessoas. Dois dos espaços foram fechados por falta de condições sanitárias e um por «prostituição forçada». Os bordeis «Pussy Club» são os principais defensores da nova fórmula de negócio e o slogan é claro: «Sexo com todas as mulheres, quantas vezes quiser e como quiser».

    Máquinas de sexo

    festa

    A Justiça do Rio de Janeiro liberou um Guia Turístico, onde as mulheres cariocas são apresentadas como “máquinas de sexo”. O Guia diz também que elas são “bundudas e gostosas”.

    Para se ter uma idéia, um dos trechos do livro diz: “As popozudas são máquinas de sexo. Elas malham, vestem calças apertadas que entram no bumbum, pintam o cabelo de louro e fazem de tudo para ficarem lindas. Bom investimento, já que o motel é sempre uma possibilidade com estas gatas…se você também é sarado”.

    O guia, que é editado em inglês, também afirma que as mulheres acima de 30 anos gostam de se divertir, dançar e beber. Resumo da ópera: o Guia vende sexo, vende as mulheres cariocas, como se todas fossem de “programa”.

    A Advocacia Geral da União tentou proibir o Guia, alegando que o texto viola a dignidade humana e expõe o povo brasileiro à situação vexatória, mas a Justiça carioca decidiu ontem que pode divulgar isso, sim senhor!

    Mostre ao mundo... você acabou de fazer sexo!

    Apesar de bizarro, esta é uma boa idéia. Um mapa de todo o mundo que mostra em tempo real as pessoas que acabaram de fazer sexo. Qualquer pessoa pode ir lá e, sem nenhum cadastro, pode deixar registrado seu ato sexual. Se você acabou de fazer sexo, não deixe de dizer ao mundo, anonimamente, claro.

    E se... humanos tivessem só um sexo?

    Esqueça a briga pelo controle remoto e a fila para disputar o buquê de noiva. Ignore a passeata do orgulho gay e o Dia Internacional da Mulher. Abstenha-se de qualquer papo cujo objetivo seja discutir a relação a dois e deixe de lado aqueles livrinhos que promovem a conciliação entre o universo feminino e o masculino. Afinal, na sociedade do sexo único, todo mundo nasce igualzinho e ninguém faz sexo. As pessoas se auto-reproduzem. Para garantir a sobrevivência da espécie o novo humano seria fisicamente parecido com a mulher. Isso porque o aparelho reprodutor delas é mais completo que o deles: além do útero, onde o feto se desenvolve, elas têm glândulas mamárias, que garantem alimento ao recém-nascido. “E são os hormônios femininos que permitem a gestação”, diz Carlos Alberto Petta, professor de ginecologia da Unicamp. Mas, no lugar de um óvulo ou um espermatozóide com 23 cromossomos, o novo humano teria um “nóvulo” com 46 cromossomos. Com a carga genética completa, ele não precisaria de um parceiro para lhe fecundar e os seres simplesmente não fariam sexo. O presidente da Associação Médica Brasileira de Sexologia, José Carlos Riechelmann, acredita que as mudanças seriam ainda mais radicais no assunto comportamento. Palavras como casal e amor não constariam do dicionário dessa sociedade. É que, em última instância, ao procurarmos uma namorada, nosso objetivo é levar nossa carga genética adiante. Mensagens apaixonadas e flores não passam de um ritual para apagar a luz e rolar na cama. O ser de sexo único não entraria nessa porque não precisaria de um parceiro para ter filhos. Diga aí, que tal a vida sem sexo, comédia romântica e jantar à luz de velas? Além de chato, isso pode ser perigoso. Os seres auto-suficientes estariam em perigo de extinção por causa de sua pequena variabilidade genética. O sexo com fins reprodutivos é uma poderosa ferramenta evolutiva. É que a reprodução sexuada garante a troca de genes entre os parceiros e, portanto, permite a variabilidade genética de seus descendentes. “Sem sexo, os seres seriam clones uns dos outros e estariam extremamente frágeis às alterações do meio”, esclarece Nilda Maria Diniz, professora do Departamento de Biologia da Universidade de Brasília (UnB). Então, trate de conciliar as diferenças...
    Mais Eva do que Adão O humano de sexoúnico seria parecido coma mulher de hoje Nem tão feminina Nós não teríamos o hormônio testosterona, abundante nos homens e que, nas mulheres, está ligado à libido sexual. Assim, o ser de sexo único teria poucos pêlos e voz fina. Já o corpo seria musculoso, resultado das atividades físicas diárias Coisa da sua cabeça O ciclo reprodutivo seria muito parecido com o que conhecemos. Tudo começaria com o hipotálamo e a glândula hipófise liberando hormônios que seriam levados pela corrente sanguínea até o “clonário” Casa de clone No lugar de dois ovários, um “clonário”. Ali se desenvolveriam as células reprodutivas. Elas já estariam “fecundadas” quando atingissem a maturação Ponto Zero Sem precisar copular, o novo ser humano não teria necessidade de prazer sexual. Não haveria clitóris, zonas erógenas ou ponto G No automático Se não houvesse um anticoncepcional para impedir a auto-reprodução, teríamos um filho por ano. O remédio poderia atuar no hipotálamo, impedindo o início do ciclo gestacional, ou no “clonário”, impedindo que o “nóvulo” se desenvolvesse Sem YO “nóvulo” teria 46 cromossomos e nenhum Y. Sem muitas trocas genéticas seríamos clonezinhos de nossas mães. Quer dizer, pais. Quer dizer, pães. Enfim, do(a) nosso(a) gerador(a)

    Dezenove mil formas de fazer sexo

    Chega ao mercado livreiro um livro com a mais completa compilação das fantasias sexuais modernas. Angelina Jolie está lá, assim como a cunhada, o vizinho, o vagão do trem, as trigêmeas...
    Espartilho, cinta-liga, máscaras. Eu e dois homens estranhos. Plateia? Não descarto, mas um lugar reservado talvez fosse melhor. Se houvesse uma segunda mulher, também seria uma bela experiência. Não acho que viraria lésbica por causa disso. Sem falar que o homem entre nós duas ficaria maluco. Uma travessura eu já fiz: um namorado me levou a um prostíbulo. Pedi permissão à dona, pagamos, me vesti a caráter e encenamos. Ele era meu cliente. Foi inesquecível. Acho que fantasio muito porque sou curiosa. Mas não conto nem para minhas melhores amigas. As pessoas são muito preconceituosas. Já me separei de um homem que não era criativo e não fazia nenhum esforço para realizar minhas fantasias. Ele dizia que não tinha, mas era mentira, claro. Todo mundo tem, mas a maioria esconde. O relato da paulistana Roberta, de 36 anos, advogada, ilustra uma certeza: o debate público sobre a sexualidade é cada vez mais natural, mas as fantasias sexuais permanecem tabu. Ela própria não quis se identificar. Os desejos secretos misturam prazer e dor, realização e sofrimento e embaraçam quem os experimenta. Por isso é raro ter um vislumbre desse pedaço da intimidade humana. Agora, porém, escancarou-se uma janela. Durante cinco anos, o psicanalista inglês Brett Kahr pesquisou fantasias sexuais. Coletou tantos relatos que ficou conhecido na Grã-Bretanha como "o homem das 19 mil fantasias sexuais". Os depoimentos foram tomados no consultório, nas ruas e pela internet e depois organizados por temas e padrões. No livro Sexo e psique (Editora Best-Seller), que será lançado no Brasil no fim deste mês, Kahr transcreve mil relatos de homens e mulheres. Eles vão de vontades corriqueiras e totalmente realizáveis a transgressões ligadas a incesto, violência, escatologia e necrofilia. A estrutura lembra o famoso Relatório Hite (de 1976, atualizado em 2004), no qual a sexóloga Shere Hite expôs pela primeira vez e com total crueza os hábitos e as fantasias sexuais das mulheres americanas. Kahr sentou-se "numa ruela escondida de Londres, com um divã e cadeiras aconchegantes" e, como Hite, ouviu o que parecia inconfessável. Seu relato nos leva a um mundo de incestos e perversões que o dramaturgo Nélson Rodrigues, uma espécie de patrono da libido oculta brasileira, reconheceria de imediato como seu, ainda que os devaneios sejam ingleses. "Existem dois tipos de fantasia: aquelas mais festivas, que revelamos com orgulho aos amigos de bar, e outras, que vêm das profundezas de nossa mente, que muitas vezes não revelamos nem aos companheiros ou muito menos a estes", afirma. Para começar, explica Kahr, tais fantasias entranhadas na mente não têm nada a ver com o que somos na realidade. Cidadãos pacatos e civilizados podem simular violência sexual com a companheira e passar a vida sem fazer mal a uma mosca. Um homem heterossexual pode se excitar com a ideia de uma relação com outro homem e não por isso ter uma tendência homossexual. Uma mulher independente e bem-sucedida pode se imaginar submissa e humilhada sem deixar de ser o que é. Aquela que se imagina penetrando o marido com um pênis de borracha certamente não gostaria de vê-lo com outro homem. No livro, há uma paciente que fantasia ser torturada por Saddam Hussein, mas Kahr especula que ela fugiria se ele aparecesse perto dela - e não só porque ele está morto. Kahr perguntou aos pesquisados por que eles fantasiam. As respostas mais comuns foram: as fantasias me ajudam a aliviar o tédio, me animam quando estou deprimido, me deixam fazer sexo com pessoas com quem eu não poderia fazer sexo, me permitem explorar pensamentos e atividades sexuais diferentes, s me ajudam a ficar excitado com meu(minha) parceiro(a). Alguns dizem que não conseguem se controlar: elas simplesmente surgem. Outros garantem preferir as fantasias ao ato sexual real. Segundo Kahr, homens e mulheres fantasiam igualmente, e a impressão generalizada de que há fantasias genuinamente femininas ou masculinas não se confirmou em seu trabalho. A publicitária mineira Carla, de 29 anos, acredita, porém, que, para as mulheres, as fantasias são ainda mais importantes. Não ficamos excitadas de forma tão rápida e prática quanto os homens. Falar sobre isso, inventar situações na hora do sexo é sempre bom. Já transei usando apenas botas, criando um clima sensual. Também fantasio sobre lugares públicos, como o elevador, a praia. Pensar nisso funciona como uma bela preliminar. Algumas fantasias existem desde sempre, mas os tempos modernos trouxeram - além de liberdade de praticá-las - novos ingredientes para a imaginação. Um deles é o sexo virtual. Um grande número de pessoas pesquisadas por Kahr disse se excitar mais com a sugestão do sexo pela internet, por meio de texto ou vídeo, do que com o contato físico. Outra inovação é a diversidade de celebridades que aparecem nas fantasias dos britânicos. Da realeza aos usuais Brad Pitt e Angelina Jolie, eles povoam a imaginação sexual dos entrevistados - mas numa frequência menor que o volume de informações que temos sobre eles sugeriria. A colega de trabalho ou o vizinho estão mais presentes nas fantasias que qualquer famoso. Ou a família, como no caso do dentista carioca Fábio, de 41 anos, casado há sete: Penso sempre em ter relações com minha cunhada. Fazer sexo com a irmã da própria mulher deve remontar a alguma ascendência primata, em que um único macho alfa copulava com as fêmeas do bando. Como não dá para realizar, me satisfaço vendo furtivamente pedacinhos daquela moça proibida entre camisolas larguinhas num domingo de manhã. Já dá o que pensar. A impossibilidade engrandece a fantasia. É o que diz a sexóloga carioca Regina Navarro Lins, que trabalha com o tema em suas pesquisas pela internet: "O conceito de fantasia é extremamente amplo. Há quem considere fantasia aquilo que não pode passar do desejo. Outros correm atrás da realização". Ela diz que a fantasia do momento é o sexo a três. Homens preferem com duas parceiras. Mulheres gostariam de experimentar variações. "Na pesquisa que fiz com 1.634 internautas, 80% disseram que fantasiam com o ménage à trois. E quase 30% já haviam realizado, o que é um número bem alto", diz. Num dos últimos capítulos do livro, Kahr responde a perguntas práticas. As fantasias devem ser compartilhadas? Seria recomendável encenar ou realizar as fantasias com nossos parceiros? A tudo, afirma que não há respostas definitivas. "Não há limites para o que podemos imaginar e desejar no campo sexual", diz. O psicanalista diz que desbravar o tema foi para ele um verdadeiro trabalho de antropologia: "Foi como se eu esbarrasse numa tribo distante e isolada, esperando que, através da minha jornada de pesquisas, eu chegasse a uma ideia do que constitui a sexualidade humana. Mas, se as fantasias são boas ou más, posso dizer apenas que podem nos levar a orgasmos mais potentes".

    Catherine Millet fala sobre sexo e ciúmes na Flip

    Libertina escritora francesa conta sobre o ciúme que sentiu do marido. Domingo (5) foi o último dia da Festa Literária Internacional de Paraty.

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    A escritora e crítica de arte francesa de Catherine Millet, autora do livro 'A vida sexual de Catherine M.', emque contava em detalhes sua vida de 'serial lover'. Na mesa 'As sem-razões do amor', com a participação de Maria Rita Kehl, fala sobre sexualidade e a crise de ciúmes do marido, com quem vive um relacionamento aberto, e que rendeu o livro 'A outra vida de Catherine M.'

    A psicanalista Maria Rita Kehl precisou se conter para não transformar a mesa As sem-razões do amor numa sessão de psicanálise: Cathérine Millet é um prato cheio para qualquer divã. É verdade que, em alguns momentos, Maria Rita não resistiu à tentação de enveredar por um jargão ligeiramente fora de lugar, cheio de “interditos” e “recalcados”, o que me parece uma forma involuntária de fugir do assunto que, afinal de contas, realmente interessa nos livros da escritora: as suas aventuras sexuais. Ainda assim, Cathérine, cuja expressão angelical não cansa de me impressionar depois do que li, disse coisas interessantíssimas, a propósito de seus dois livros, A vida sexual de Cathérine M. (surpeendentemente esgotado: me parece que a editora comeu mosca) e A outra vida de Cathérine M. (Jour de souffrance, no original). Exemplos: “A minha crise de ciúme passou quando me dei conta de que ela me dava um prazer masoquista.”

    “Não existe ciúme verdadeiro que não seja sexual. A crise não teve nada a ver com amor, sentimento que não estava em questão na minha relação.”

    “Sempre tive um duplo olhar sobre as coisas: quando eu tinha relações sexuais, eu via os meus parceiros, mas também via a mim mesma na cena. Isso cortava um pouco o meu prazer, porque penso que o prazer sexual intenso depende de um abandono total. Mas talvez esse outro olhar que me acompanha sempre seja, justamente, o olhar do escritor.”

    “Pratiquei muito sexo grupal, em clubes ou com grupos de amigos, mas continuei tendo meus tabus. Justamente imaginar Jacques Henric fazendo amor com outra mulher era algo inconcebível. Mas era nisso que eu pensava quando me masturbava.”

    “Não escrevo para me curar de alguma coisa, mas para me desembaraçar de mim mesma. A escritura apaga a memória primária das coisas, a ponto de eu não ter mais certeza de ter vivido tudo aquilo sobre o que escrevi.”

    “A liberdade sexual foi algo natural para mim, entrei nela como num jardim cheio de flores perfumadas. Meus pais brigavam muito, e minha mãe tinha um amante. Desde cedo percebi que a família não era um valor absoluto. Então não se tratou de uma transgressão contra pais tradicionais”.

    Estou grávida da minha namorada

    Um casal de lésbicas de São Paulo pode ser o primeiro a registrar os filhos com o nome de duas mães.

    Bruno Miranda

    FRUTOS DO AMOR - Adriana, grávida de sete meses, recebe o carinho de sua companheira, Munira, na cama do casal. As duas geraram os bebês juntas.

    Munira Khalil El Ourra não vai dar à luz, mas é mãe de duas crianças que vão nascer até a primeira semana de maio. Quem está na 31ª semana de gestação é sua companheira, Adriana Tito Maciel. A barriga é de Adriana. Os óvulos fecundados que grudaram no útero dela pertenciam a Munira. Os bebês já têm nome: Eduardo e Ana Luísa. Serão paridos e amamentados por Adriana, de pele marrom e cabelo que nasce crespo. Mas terão a cara de Munira, branquinha e de cabelo liso.

    Para a lei, mãe biológica é quem carrega a criança no ventre. Mas um exame de DNA mostraria o contrário. Nem Adriana nem Munira pretendem disputar na Justiça a guarda das crianças. O que elas querem é sair da maternidade juntas, com um documento que permita registrar as crianças no cartório com o sobrenome de cada uma e o nome das duas mães na certidão de nascimento. Como qualquer família normal.

    O sonho de ter filhos era antigo para as moças de 20 e poucos anos que se conheceram em Carapicuíba, na região metropolitana de São Paulo. A decisão de namorar sério foi influenciada por esse interesse em comum. Em poucos meses, estavam dividindo um apartamento e fazendo planos. Algum tempo depois, Adriana descobriu no ginecologista que seu útero estava ameaçado por uma doença que já lhe tinha arrancado um ovário: a endometriose. “Fiz tratamento desde os 18 anos”, diz Adriana. “Na época, achavam que era cólica menstrual e medicavam com morfina. Quando descobriram, já tinha perdido o ovário direito. E as dores continuavam.” O médico disse a ela que uma gravidez reduziria o problema em 80% e ainda lhe daria a chance de ter um filho antes que o útero ficasse inválido.

    Apesar do relacionamento ainda recente, Munira e Adriana aceitaram a ideia e procuraram um especialista em reprodução humana no Hospital Santa Joana para fazer a inseminação artificial. “A gente achava que iria comprar esperma, levar para casa e aplicar com uma seringa”, diz Munira. Os planos mudaram quando o novo médico descobriu que Adriana só tinha metade do ovário esquerdo e já não podia engravidar com os próprios óvulos. Ele sugeriu que Munira cedesse os seus. Se usassem o sêmen de um homem de mesmos traços que Adriana, o filho seria parecido com as duas mães.

    As duas moças se animaram com a possibilidade de ter um filho que tivesse um pouco de cada uma. Ainda hoje, Adriana se emociona ao contar essa parte da história. Tinha sido muito dolorido receber a notícia de que não poderia ter filhos do seu próprio sangue, e o gesto de Munira foi mais que bem-vindo. “Foi a maior prova de amor que ela poderia me dar.”

    Decisão tomada, era preciso fazer alguns exames e começar o tratamento hormonal para estimular os ovários de Munira e sincronizar os ciclos menstruais das duas. Os óvulos de Munira deveriam estar prontos para a inseminação artificial (em laboratório) na mesma época em que o útero de Adriana estivesse pronto para fixar os embriões. Munira se queixava dos percalços do tratamento. De abril a agosto do ano passado, as injeções diárias na barriga, a oscilação de humor que parecia uma TPM constante, a ultrassonografia vaginal toda semana, o acúmulo de líquido no corpo e o ganho de peso eram o preço que ela tinha de pagar pela bênção de ser mãe. Em breve, seria a vez de Adriana suportar a gravidez.

    Quando essa fase chegou, Munira diz ter sentido em seu corpo muitos dos sintomas da gravidez da companheira. “Parecia que eu tinha ficado grávida também.” Ela diz ter sentido enjoos, estrias que nunca haviam existido, mau humor, dores nas costas, dor nas pernas, cansaço de dia, insônia de noite e até desejos estranhos. Fernando Prado, o ginecologista das duas, diz não ter explicação para essa sintonia. Ele não descarta que Munira possa até mesmo ter leite quando os bebês nascerem.

    Dos exames à gravidez, todo o processo funcionou até melhor que o esperado. “Eu não imaginava que daria certo de primeira”, diz Prado. Segundo ele, a chance de uma inseminação desse tipo vingar é de 50%, levando em consideração a idade das pacientes e outras condições de saúde. Como Adriana ainda tinha miomas no útero por causa da endometriose, imaginou que seria preciso retirá-los antes. Mas eles nem fizeram cócegas. Para ajudar, em vez dos dez a 15 óvulos esperados após o tratamento hormonal, Munira rendeu mais de 20.

    A legislação brasileira não é a única que permanece lenta diante das mudanças na ciência e na sociedade. A chef americana Cat Cora, que comanda um programa de culinária na TV, está passando por transtorno semelhante ao das brasileiras. Ela mantém um relacionamento estável há dez anos e já tem dois filhos gerados por sua companheira, Jennifer. O segundo filho foi feito por fertilização in vitro com óvulos de Cat, mas ela foi impedida pela lei americana de registrá-lo diretamente no cartório como a segunda mãe. Foi preciso entrar com um pedido de adoção para garantir direitos e deveres de mãe sobre ele. “É injusto, mas é a lei”, disse Cat. Agora, Jennifer está grávida de novo, e Cat engravidou pela primeira vez. Desta vez, ambas retiraram óvulos para a fertilização in vitro, formando embriões que foram transferidos para as duas barrigas. Ainda não se sabe de qual delas é o DNA do bebê que vai nascer de cada uma. Para todos os óvulos, foi usado sêmen do mesmo doador anônimo. Assim, as crianças serão irmãs também por parte de pai.

    Na Espanha, a legislação é mais aberta. Com base em uma lei do Código Civil de 2005 que iguala em direitos e deveres a união estável de homossexuais ao casamento heterossexual, no final do ano passado o governo espanhol permitiu que um casal de mulheres gerasse um bebê por fertilização in vitro, usando um doador de sêmen anônimo, e o registrasse no nome das duas. Ambas são oficialmente consideradas mães biológicas porque uma doou os óvulos e a outra gestou o feto em sua barriga – exatamente como fizeram Adriana e Munira. O presidente da Comissão Nacional de Reprodução Humana Assistida do Ministério da Saúde e do Consumo da Espanha, Augusto Silva, diz que a lei garante direitos iguais a casais de qualquer gênero. “Não estamos estabelecendo uma obrigação. Mas deve ficar claro que a permissão que demos a essas mulheres vale para todos.” Silva diz que a Comissão está trabalhando pela modificação da lei de assistência reprodutiva para que não haja mais dúvidas de que, onde há casamento, há o direito à reprodução assistida.

    Munira poderia ter seus direitos de mãe reconhecidos de forma mais fácil. Bastaria entrar com uma ação para adotar seus próprios filhos. Com a jurisprudência construída desde 2006, é provável que ela ganhasse uma ação desse tipo. Mas não é isso que ela e Adriana querem. Sua expectativa é ganhar a ação da maternidade e dar origem a uma jurisprudência para favorecer casos como este no Brasil. Embora não sejam ativistas, Munira e Adriana dizem que ficariam orgulhosas de abrir caminho para outros casais homossexuais. Se perderem o caso, ficarão tristes. Mas a derrota não terá efeito nenhum na forma como pretendem criar seus filhos. “Registrando ou não, elas serão mães dessas crianças”, diz a advogada Maria Berenice. “Juiz nenhum vai apagar o que já existe.”

    Gravidez a duas As lésbicas Adriana e Munira serão mães biológicas dos mesmos bebês. Os embriões formados com os óvulos de uma delas estão se desenvolvendo na barriga da outra

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    Doador de sêmen O casal de moças foi a um banco de sêmen e procurou na ficha de doadores anônimos um que se parecesse com Adriana: pele morena, cabelo encaracolado

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    Coleta dos óvulos Munira tomou hormônios injetáveis durante dez dias para estimular a produção de vários óvulos naquele mês. No consultório, o médico extraiu mais de 20 óvulos maduros dos seus ovários

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    Fertilização Dois dias depois, o médico retirou os óvulos do corpo de Munira e selecionou cinco. No laboratório, dentro de uma placa de vidro, injetou um espermatozoide do doador anônimo em cada óvulo

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    Transferência de embriões Três dias depois, os embriões já estavam prontos para ser transferidos para o útero da mãe. Neste caso, de Adriana. O médico escolheu os três melhores embriões para introduzir nela pela vagina

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    Gravidez Doze dias depois, Adriana fez um exame de sangue e confirmou o sucesso de dois embriões: estava grávida de gêmeos