
As calças de ganga até aí apertadas, que deixavam perceber uma proeminente barriga, saem sem o mínimo de sensualidade. Acto mecânico, Lurdes desaperta o amplo soutien. "São 30 euros por 20 minutos", atira, fria e descomplexada.
Os 15 anos de prostituição deram-lhe já o alheamento das sensações. E nem o facto de ter perante si um cliente de pouco menos de 30 anos, face aos seus 48, a espanta. "De vez em quando aparecem aí uns da tua idade, geralmente malta bairrista, que foi habituada a isto, a mim não me espanta nada", remata. Da janela da pensão Nova Goa, observamos uma ambulância que acaba de chegar ao Poço do Borratém, zona nas traseiras da Praça da Figueira, em Lisboa, conhecida como um dos principais pontos de prostituição de rua da cidade. A primeira ideia que nos vem à cabeça quando ouvimos as sirenes de emergência é a da que mais uma prostituta foi violentada. Possíveis agressores? Um cliente despeitado, o chulo violento, um ajuste de contas entre "colegas", as hipóteses são quase tantas quantas as personagens que compõem o mundo da prostituição. Neste caso, a pessoa a precisar de socorro é um simples transeunte que torceu um pé nas escadas que dão acesso ao centro comercial em frente. Mas nem o súbito rebuliço incomoda as rotinas deste mercado do sexo. À esquina, alheia à confusão, uma mulher de cabelos oxigenados, de grosso cordão de ouro ao pescoço, e saltos altos brancos a imitar verniz dá umas baforadas de uma languidez crua num cigarro. O ritual resulta. Um cliente, nitidamente habituado ao código da situação, faz-lhe um sinal e entra na pensão. Momentos depois, a prostituta segue-o. "Apesar de também aparecerem uns miúdos, a maioria dos homens que nos procura são mais velhos, acima da casa dos 50, clientes habituais, que fazem disto uma rotina", reconhece Lurdes, já vestida e nada desiludida por, desta vez, o cliente se ter recusado a usá-la como objecto sexual.
Para Carocha, aos 18 anos a desilusão é um dos seus muitos males. Encontramo-la poucos quilómetros acima da Praça da Figueira, junto ao Instituto Superior Técnico, acompanhada por duas prostitutas mais velhas, Maria, de 52 anos, e Teresa, de 37. Estas verdadeiras matronas da jovem acabada de chegar à prostituição - apenas com a 4.ª classe, e com aspecto de quem tem pouco mais de 14 anos, achou que este era o único trabalho que lhe restava, depois de ter sido rejeitada noutros - ainda a acompanham nos "serviços". Com quatro dias de rua, Carocha tem medo do que os homens possam fazer sozinhos com ela num quarto. "E geralmente só aceito ir com velhos, que me procuram muito, se calhar por ter este ar de miudinha. Os mais novos, apesar de me pedirem muito, metem-me medo", confidencia, no preciso momento em que um rapaz na casa dos 25 anos, calças de ganga, t-shirt verde e gel no cabelo, a chama ao lado. "Diz que é do Porto, está cá com uns amigos e dá- -me 50 euros para ir com ele para uma residencial", conta pouco depois. "Não me apetecia ir com ele, mas se não for acabo por não ganhar nenhum hoje." Nessa noite, Carocha teve a sua estreia a solo.
A tradição ainda é o que era, Luís cresceu e mora nos arredores do Cacém. Mas bem podia ser um daqueles jovens bairristas de que fala Lurdes. Hoje com 29 anos, cumpriu uma antiga tradição, que se julga mais ligada aos antigos costumes das pequenas aldeias do interior: perdeu a virgindade com uma prostituta. O motivo não foi o ter atingido a maioridade ou sequer ter sido chamado à tropa. "Aos 18 anos, nunca tinha tido namorada e já me andava a passar", esclarece. Pouco eficiente nos jogos de sedução, a solução passou por Lola, uma velha prostituta bem conhecida daqueles que todos os dias a viam parada na berma do IC 19. "Estava farto de ver os meus amigos com namoradas e depois virem falar comigo de sexo e ter de fazer de conta que sabia do que estavam a falar", conta Luís. Já o relato do ambiente que encontrou é tudo menos caloroso. "Lembro- -me que na altura paguei três contos (15 euros) e fui levado para um recanto na mata de Rio de Mouro (concelho de Sintra), onde havia um colchão velho rodeado de arbustos e papéis velhos. Aquilo fez-me imensa impressão e a Lola deve ter dado por bem empregue aquele dinheiro, porque acabei por não lhe dar muito trabalho", recorda.
À porta do Marinheiro, no Cacém, Carlitos, 30 anos, assiste impaciente à conversa. "Vamos lá entrar, as gajas estão à nossa espera." As "gajas" são nem mais nem menos do que as empregadas do bar de alterne, que em troca de bebidas oferecem fantasias sexuais aos que não se querem dar ao trabalho de as procurar pelos próprios meios. Sérgio, 26 anos, o mais novo dos três amigos, não quer entrar ainda na sórdida sala vermelha. "Elas esperam por nós, já nos conhecem, vimos cá quase todos os fins-de-semana." Uma noite bem passada na periferia de Lisboa nunca fica por menos de 50 euros. Muitas vezes 75. Tudo é legítimo para trocar o cimento nas mãos de um, e as entregas porta a porta nas dos outros, pelo toque da pele de mulheres.
Quem espera... Aos 29 anos, Neves cultiva entre os amigos a fama de mulherengo. Entre as suas façanhas, o jovem de Lisboa vangloria-se de ter "andando com quatro namoradas" ao mesmo tempo, "sem que nenhuma soubesse das outras". No meio deste verdadeiro malabarismo emocional, Neves ainda consegue arranjar tempo para cumprir o ritual de fim-de-semana e ir com os amigos a bares de striptease. Desta vez, o destino é o Montijo, onde um deles faz segurança. À entrada, o corpulento amigo lança-lhes um inusitado aviso de boas vindas. "Epá, a minha namorada é uma das strippers, peçam-lhe para ela vos fazer sexo oral. Levem-na para o privado, que ela faz-vos umas coisas maravilhosas." Mesmo perante a amável e, aparentemente, sincera dica, todos preferiram experimentar outras dançarinas. Russo, um jovem baixo, cuja calvice contrasta com os seus 25 anos, foi levado pelos amigos a desembolsar 45 euros para poder ter um contacto mais directo com uma loura. As promessas de sexo na sala privada granjearam junto da sua inexperiência. O resultado foi pouco mais do que frustrante. "Não lhe pude tocar. Eu ainda me entusiasmei e tentei mexer-lhe, mas ela não gostou da ideia e não voltei a tentar." A envergadura dos colegas do seu amigo segurança fizeram-no recuar. "Mais valia ter guardado o dinheiro, se era para isto nem tinha vindo." E acto contínuo abanonou o bar. Mal sabia o que estava a perder.A sorte acaba por sorrir aos pacientes. Já depois do fecho do bar, bem para lá das quatro da manhã, Neves e os três amigos resistentes são convidados para um serão muito especial na casa do segurança, em Lisboa. "Uma maluqueira como eu nunca vi! Éramos dez, entre homens e strippers, e aí elas já não tiveram pudores." Segundo Neves, fora dos holofotes do palco ou da meia-luz das salas privadas, "passa a valer tudo".
Do Brasil sem amor, Michelly Mattos está acostumada a ser procurada no seu apartamento na Almirante Reis, em Lisboa, a horas impróprias. A "garota de programa", como a própria se define no seu sotaque brasileiro do Rio de Janeiro, até recebe muitos clientes a meio do dia durante a semana no seu quarto forrado por quadros com mulheres nuas e um poster de Marilyn Monroe à cabeceira da cama, "homens que aproveitam a hora de almoço para vir dar uma relaxada". Mas a partir de sexta-feira tudo muda. Ao fim-de-semana a maioria das marcações são para de madrugada, geralmente depois das quatro da manhã, quando a generalidade dos bares e discotecas fecha, o que não deixa margem para grandes dúvidas. "Os meus clientes são quase todos jovens. Eu não sei o que eu tenho para atrair tanta molecada, mas em 30 pessoas que atendo em média numa semana, umas 25 têm menos de 30 anos."Vestida com uma saia de cabedal que pouco mais lhe cobre do que a cintura e um top de rede preta que lhe revela o peito empolado - embora garanta que nunca fez nenhuma operação plástica - Michelly em pouco se assemelha à personagem de jogadora de futebol que criou para o seu sítio na internet. Essas fotos, onde pouco mais usa do que as chuteiras, são um verdadeiro chamariz para jovens pretendentes a craques da bola, talvez por verem na loura de 26 anos uma sósia de Milene Domingues, antiga namorada do jogador brasileiro Ronaldo. Por 75 euros por meia hora, ou 100 por 60 minutos, Michelly cumpre todas as fantasias dos clientes. Por mais extravagantes que elas sejam. "Há homens que pedem para eu só usar instrumentos neles, outros que querem que eu passeie com os meus saltos altos no corpo deles. Regra geral, eu aceito tudo. As regras têm é de ser definidas quando chega o cliente", explica. No quarto ao lado, atepetado com passadeiras cor-de-rosa a combinar com a toalha da cama, Daniela preenche os tempos mortos entre as "visitas" dos clientes a ouvir música e a ler... Nietzsche. Ao contrário do que afirmam a directora de "O Ninho" ou as Irmãs Oblatas (ver caixa), esta brasileira de 27 anos é a prova viva de que existem universitárias ou licenciadas na prostituição. Mesmo que tenham tirado um curso de português-francês na Universidade do Rio de Janeiro. Mais do que repartir a renda de 800 euros de um apartamento que tem apenas dois quartos e uma casa de banho, Daniela partilha com Michelly as fantasias mais arrevesadas dos clientes. "Às vezes vêm pessoas que querem fazer em grupo. Temos casos de quatro amigos que vêm e que nós ficamos com dois cada." A juntar a isso, há um pouco de tudo: homens que gostam que lhes batam, famosos que fazem gala do seu nome para conseguir um serviço mais personalizado, "e até um pedófilo em potência, que queria que me fizesse passar por menininha". No outro extremo estão aqueles que aproveitam o facto de Daniela gostar de literatura e filosofia e que querem apenas falar. "Procuram uma psicóloga", conclui. Em comum, têm a idade, quase todos na casa dos 30 anos.