Bispo de Viseu voltou a criticar abertamente o Governo por ter aprovado o casamento entre pessoas do mesmo sexo, sobretudo "nesta época", enquanto o do Porto pediu menos pressa na resposta às questões essenciais.
"Infeliz, despropositada e injusta." Foi assim que o bispo de Viseu classificou ontem, na missa de Natal, a tomada de posição do Governo relativamente ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Um tema que acabou por marcar as mensagens de Natal - mesmo quando as referências foram laterais ou encriptadas, como no caso do bispo do Porto, que desaconselhou a pressa na resposta "a questões fundamentais". Quem preferiu passar ao lado da questão foi o Cardeal Patriarca, que dirigiu a homilia para agnósticos e ateus.
Não foi o caso do bispo de Viseu. Num discurso carregado de emoção, D. Ilídio Leandro foi fértil em alegorias, aproveitando a Missa do Galo para "reforçar o papel da família, tantas vezes maltratada, na sociedade". De véspera, o bispo tinha difundido, através da internet, uma mensagem onde lembrava que "o governo de Portugal brindou o Povo Português, nesta quadra natalícia, com uma decisão que é, no conteúdo, na forma e no tempo, um atentado à Família - instituição fundamental, sustento e referência do Natal".
Discurso retomado na homilia do dia de Natal: "Como cristão e como bispo, eu e tantos homens e mulheres, (fomos) confrontados com esta infeliz despropositada e injusta tomada de posição, precisamente nesta quadra de Natal". Por isso, manifestou " veemente repúdio por esta tão negativa decisão política".
Ilídio Leandro pediu ainda, "em nome de todos os leigos que se têm esforçado por esta causa, àqueles que representam o Povo Português pela legitimidade do voto" - que sejam representantes autênticos e defensores corajosos dos valores que constituem a essência da nossa cultura e das nossas tradições".
No Porto, numa catedral com pouca gente, na manhã de Natal, D. Manuel Clemente não falou na importância da família, muito menos em casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas das perguntas que é necessário fazer e explorar, acrescentando que o progresso não se faz sem perguntas. "Mal seria se desistíssemos de o fazer, resolvendo mal e depressa as questões fundamentais, da vida à família, da sociedade à cultura", concluiu o bispo do Porto.
Mais tarde, Manuel Morujão, porta-voz da Conferência Episcopal, também referiu que lhe parece apressado o ritmo com que se está a implementar "a agenda" do casamento entre pessoas do mesmo sexo e defendeu a importância do referendo.
Já o cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, elegeu como principal preocupação nas suas homilias de Natal a visibilidade dos que não procuram ou não acreditam em Deus: agnósticos e ateus. Uma ideia que já tinha sido sublinhada na mensagem de Natal : "Nos últimos tempos, entre nós, falou-se muito de ateísmo; exprimiram-se ateus, pessoas e organizações, defendeu-se o direito de ser ateu e de exprimir a negação de Deus", lamentou, acrescentando que "não é o facto de alguém não acreditar em Deus que faz com que Ele não exista".
Por outro lado, D. José Policarpo lamentou também que "um povo cuja cultura foi profundamente marcada pelo cristianismo", como o português, e em que a grande maioria das pessoas são baptizadas celebre o Natal de forma cultural e não religiosa, não reconhecendo "em Jesus o Deus que o visita".
