Razão, emoção e sexo

Posted on 3/22/2015 by UNITED PHOTO PRESS MAGAZINE


“Por que a direita mais reacionária está tão segura em se mostrar de cara lavada com sua carga de incivilidade? De onde vem tanta arrogância para desejar a morte do outro, sua destruição real e simbólica? Qual é a origem do modelo social pretendido, que desenha uma sociedade excludente e inspirada por padrões eugênicos fascistas?”

Se há algo que as recentes manifestações de rua trouxeram de vez para a política brasileira foi a recuperação do lado emocional, do sentimento e da moral. Quem pensava que a razão era senhora do terreno, viu sucumbir argumentos e ideologias sob a capa por vezes hedionda do preconceito, da discriminação e do ódio. Até então, o mais corrente era considerar essas atitudes como pré-políticas e imaturas, convocando para o debate de ideais.

Por vezes, as atitudes são ideias.

Não é um acaso que tanta raiva esteja sendo mobilizada. E também não se pode ficar preso a padrões convencionais de política, muitos deles herdados do marxismo clássico e da busca de se apresentar como ciência. A política pode até ser uma ciência, como define a academia. Mas é atravessada de paixão. O que preocupa mais neste momento não é o potencial de afeto presente, mas sua direção, sua marca de horror, sua violência e regressividade.

Por que a direita mais reacionária está tão segura em se mostrar de cara lavada com sua carga de incivilidade? De onde vem tanta arrogância para desejar a morte do outro, sua destruição real e simbólica? Qual é a origem do modelo social pretendido, que desenha uma sociedade excludente e inspirada por padrões eugênicos fascistas?

Há algumas explicações possíveis, que vão da sociologia à psicanálise.

Em primeiro lugar, a comunicação anárquica das redes sociais criou um padrão de elocução que reforça o voluntarismo e a ausência de censura. Com o superego de molho, as pessoas julgam que a liberdade de se manifestar é absoluta e permite comportamentos que vão da falta de educação à ofensa à lei. Sem maior trato com a divergência, escorados pela visão de mundo unitária defendida pelos meios de comunicação hegemônicos, se sentem dispostos a baixar o nível até a altura de sua indigência intelectual. O que deveria ser um novo espaço de diálogo se torna território do opróbio.

O segundo aspecto a ser destacado é a falta de uma pedagogia para a ação pública. Os “diferenciados” brasileiros não sabem se comportar politicamente porque nunca o fizeram de forma organizada. A extrema direita, nesse aspecto, tem muito a ganhar com a experiência das ruas, mas como começa agora sua educação política ao ar livre, deixa de lado o repertório criado e amadurecido pelos movimentos sociais ao longo da história, assumindo o ato exclusivo de expor seu desprazer em dividir o mundo. Uma forma de diálogo sem a voz do outro, um embate narcísico com o espelho.

A terceira razão, possivelmente a mais marcante, é a formação reativa, mecanismo que Freud definia como uma defesa do ego a tudo que o ameaça. Nesses momentos, quem se sente em perigo passa ao ataque, usando aquilo que tem em mãos: a ira, o desprezo, a difamação. Parte da sociedade brasileira não aceita que a vida das pessoas tenha melhorado, que as universidades recebam alunos de famílias mais pobres, que os negros e nordestinos frequentem os mesmos espaços que ele, que as mulheres enfrentem a violência de gênero, que os homossexuais possam ser felizes, que o avião é apenas um ônibus que voa.

Essas questões trazem para a política aspectos que precisam ser postos em primeiro plano. Tudo que é ódio não se desmancha no ar. A pauta das manifestações trouxe para a linha de frente temas relacionados aos direitos humanos, às minorias e ao indivíduo. A política e a economia podem e devem dar o tom da razão. Mas a emoção está cobrando sua parte. Sem ela, não vamos a lugar nenhum. Não há paciência histórica que suplante a tristeza de viver num mundo atravessado pelo desprezo entre as pessoas.

Por fim, é sempre bom lembrar de um discípulo meio esquecido de Freud, o austríaco Wilhelm Reich, que notou, lá se vão quase 100 anos, que a libertação sexual gera pessoas mais livres e independentes, reduzindo a carga pesada do conservadorismo. Ele enfrentou problemas com os comunistas, que interpretaram suas ideias como um desvio de rota equivocado frente às exigências do período. Reich dizia – e estava certo – que adianta pouco ser revolucionário no partido e machista em casa.

O que diria ele, hoje, dos manifestantes que odeiam tanto os gays e as mulheres no poder, que sofrem por se sentirem iguais aos outros? Pessoas que afirmam sua macheza sempre com bravatas e covardia escudadas no anonimato das redes e em mensagens que ferem a dignidade humana e as leis do país. Homens e mulheres que adoram falar de família como se fosse um modelo universal, e não uma construção histórica, dinâmica, conflituosa e criativa. Que não aceitam discutir o aborto e zombam do feminicídio e dos estupros. O moralismo não é um desvio na vida dessas pessoas, é quase um jeito de ser.

Quem sabe a grande lição política que chega das ruas traga com ela uma verdade da vida privada: sexo não é tudo. Mas é 100%.