Sexualidade e educação: espaços de silêncio e tabus

Posted on 1/01/2015 by UNITED PHOTO PRESS MAGAZINE

Quais espaços os gestos de leitura e interpretação sobre o corpo e a sexualidade ocupam no cenário da educação? A instituição escolar aborda de forma eficaz o tema “corpo” desde seus efeitos de subjetividade, afetividade, erotismo e relações sociais, como por exemplo, o sexo e a questão da condição sexual entre elas a homossexualidade? Quais regimes de saberes circulam no ambiente escolar para dar conta de tal abordagem? 

Ocorreram avanços nas últimas décadas na implementação de políticas educacionais referentes ao estudo da sexualidade e do corpo, ou como é denominada a Educação Sexual. 

Todavia, uma análise mais apurada sobre os regimes de saberes e as relações de poder utilizadas em tal ensino demonstra espaços de silenciamento, ou de resistência que ainda persistem a existir em vários segmentos escolares. Um bom exemplo foi a polêmica que envolveu um conto com conotações obscenas do escritor brasileiro Ignácio de Loyola Brandão em 2010. Publicado no livro ‘Cem melhores contos brasileiros do século’ e entregue pelo governo do Estado de São Paulo como leitura obrigatória para o Ensino Médio. 

O conto citado pelos pais e alguns professores como inapropriado é o “Obscenidades Para Uma Dona de Casa”, que narra a história de uma mulher que recebe cartas de um desconhecido. As cartas descrevem detalhadamente momentos de atos sexuais. Frente a isso foi solicitado o recolhimento do livro das unidades escolares.

Michel Foucault, na obra A Ordem do Discurso (1996), afirma que toda sociedade desenvolve um conjunto de saberes e faz circular por meio das Instituições os discursos sobre tais saberes que são socialmente legitimados por ordens de valores específicos e por segmentos sociais determinados. Outros discursos considerados nocivos, são interditados por um conjunto de disciplinas e procedimentos de exclusão. Persiste na ordem dos discursos que legitimam a sexualidade na escola a noção do saber médico, que centra nas figuras de autoridade clínica o debate e o acesso ao corpo e suas expressões. Os atores e agentes de tais abordagens têm nome e área de atuação própria: são médicos, biólogos, psiquiatras, ou professores formados em biologia. Com autoridade clínica para falar e analisar o corpo em suas mínimas produções, por um olhar clínico, anatômico e fisiológico. 

No entanto, quando esses gestos de leitura transcendem o saber científico-médico-biológico e ocupa a abordagem psicológica, filosófica ou sociológica, com seus sujeitos emissores próprios e com um regime conceitual específico, surge no ambiente social e na própria realidade escolar movimentos de resistência e interdição a esse discurso. Os indivíduos associam o saber médico científico como sendo a fronteira que separa a autorização para se falar do corpo e da sexualidade na escola, daquele saber fundamentado nas Ciências Humanas. Ultrapassar essa barreira desautoriza e exclui qualquer sujeito emissor de trazer à discussão escolar, por meio de uma proposta pedagógica, um estudo profícuo a respeito de tais questões. 

O conto de Ignácio e Loyola Brandão margea uma zona de conhecimento fora ou aquém da ordem do discurso clínico-biológico, pertence a um cabedal de saber da Literatura, com um campo enunciativo próprio e com efeitos de sentido de ordem subjetiva.

O que se perde com as proibições e espaços de silêncio e vazio no ambiente escolar, no que se refere ao corpo e à sexualidade é a sintomática ignorância por parte dos estudantes e dos professores em abordar o assunto desde sua perspectiva humana existencial. Os espaços de silêncio que se encontram na família e chegam a escola criam hiatos e cenários ilusórios, no qual, se ignora ou faz de conta que nada acontece no que tange ao corpo e suas manifestações. É assumida uma postura de que é preciso ignorar determinadas questões ou polêmicas. Frente a elas um sorriso nos lábios, um leve gesto com a cabeça e se muda de assunto, quase sempre com rostos ruborizados e com uma sensação de mal estar. Como diz Foucault na História da Sexualidade: “Ainda falamos de sexo fazendo pose”.


Fausi Santos é filósofo, mestre em Linguística e Análise do Discurso e pesquisador sobre Corpo e a Sexualidade pela Unesp de Araraquara.