Ditadura do pénis. Todos os cérebros começam femininos

Posted on 5/29/2014 by UNITED PHOTO PRESS MAGAZINE


Médico recapitulou a formação da masculinidade na barriga da mãe para sublinhar que sexo não é igual a género.

Se as desventuras do pénis são mais conhecidas, na conferência, inserida no ciclo "Amor(es), Desamor(es)... E Talvez Sexo!" e que uniu academia e artes para falar de identidade e sexualidade, a primeira aventura do dito serviu contudo para esclarecer um outro aspecto que o médico considera mal entendido: sexo não é género. Ou para "ser Sr. Pénis" não basta tê-lo.

Tudo começa na pré-história. Os primeiros seres masculinos só apareceram meio milhão de anos depois dos femininos e persistem espécies de répteis e peixes que só têm fêmeas, sublinhou o médico. "É o erro bíblico", ironizou. "Primeiro Eva e depois Adão, por uma questão de diversidade e sobrevivência das espécies."

Persiste então em todos os seres vivos um padrão feminino de base. Nos humanos, cerca de 64 horas depois do encontro entre ovócito e espermatozóide, há uma identidade genética a partir do contributo de pai e mãe. Mas o Sr. Pénis está longe de ter tudo garantido. Mesmo ganhando do pai um cromossoma masculino, o cromossoma x tem dois mil genes e é mais influente do que o "pobre e miserável" y, com apenas 20, embora seja crucial para o que se vai passar a seguir. É preciso começarem a formar-se os testículos e a haver testosterona para se formar a uretra e toda a fenda urogenital que poderia transformar-se numa vagina fechar, cicatriz que todos os homens têm a lembrar as primeiras semanas de sexo indiferenciado. Mas nem aqui é declarada vitória, porque a base do cérebro persiste feminina mesmo com os genitais formados, o que acontece pelas quatro semanas.

Só entre as 22 e 24 semanas se dá a masculinização do cérebro. "Se não houvesse perturbação, todos seriam femininos", explica o médico, já que o cérebro fetal só tem receptores de estrogénios. Mais uma vez, a testosterona é fundamental: num processo de conversão, vai resultar num excesso de estrogénio, que vai explicar as diferenças na formação dos centros de decisão e irrigação no cérebro, que mais tarde contribuem para apetências distintas. Já se sabe: eles são melhores a ler mapas, elas em tudo o resto.

É também aqui que está enraizada a problemática da identidade, que nas últimas décadas tem gerado debates e mudanças no código civil.