Amor é prosa. Sexo é poesia

Posted on 1/16/2014 by UNITED PHOTO PRESS MAGAZINE


Sabe a música que Rita Lee canta, Amor é Prosa, Sexo é Poesia? Aquela que foi inspirada pela crônica de Arnaldo Jabor que também se chama Amor é Prosa, Sexo é Poesia? Folheando um livro de crônicas noite destas, dei com a crônica, justamente quando também tive oportunidade de participar de conversas em que as pessoas falavam desse tema. Uma das conversas foi com amigos, adultos. Outra com adolescentes, recém-saídos da infância.

Parece que o interesse é sem fim. A história dos comportamentos andou muito, a humanidade conseguiu liberdades fundamentais, sobretudo as mulheres. E a tentativa de delimitar os campos, onde o amor , onde o sexo avançou um bocado.

Certamente todos nós temos alguma consciência de que os dois campos não são necessariamente equivalentes. Embora o assunto continue a provocar muitas polêmicas em rodas de conversa.... E mais ainda, em conversas mais intimas. Eis a conversa que ouvi entre adolescentes: “Ele está querendo namorar, ela é que só quer ficar...” Outro ainda, dizia: “Não meu, pra mim, por enquanto, só pegar... Ficar? Pode até ser... Mas namorar, quero não. Compromisso demais. dá pra mim, não.

Ficar, pegar, namorar, transar, amar... Seriam questão de gradação? Ou seriam modos de nós humanos lidarmos com o espaço possível a dar ao outro, que uma vez escolhido, já não será qualquer em nossas vidas? 

Nós que somos seres sexuados, marcados pela incompletude nossa de cada dia, pelas forças e pelas fragilidades e pela radical singularidade que nos define. Alias, qualquer que seja o nível do compromisso, de certo modo não estamos sempre em torno de pegar, ficar, transar, amar?

Então, parece mesmo que todo mundo sabe bem que amor e sexo são assuntos distintos, tanto que existem palavras distintas para falar dos dois. Distintos e .... misturados. Eis o eterno retorno da questão. Como é verão, tempo de sol em que a gente acaba mais exposto do ponto de vista do corpo, é justamente a pele que fica mais vulnerável, não é? Os dermatologistas avisam: proteja a pele, use protetor solar.

Vou tomar nossa tema pela questão da pele, ok? 

Quando duas pessoas sentem-se atraídas, elas dizem: é uma questão de pele... Encostou... Pronto. Não tem mais jeito!

Gilberto Gil cantou: Sentir é questão de pele, amor é tudo que move... e Zelia Ducan cantou assim: “Alma, deixe eu tocar tua alma com a superfície da palma da minha mão”

A clinica não para de reatualizar essa antiga questão. Esse é um ponto na vida que provoca muitas inquietações. 

Mais liberadas do ponto de vista do exercício da sexualidade., as pessoas entendem que podem demarcar bem as fronteiras. Inclusive, certamente muitos acrescentariam uma outra modalidade de encontro que nem Rita Lee, nem Jabor listaram: a amizade com sexo.

Tudo vai muito bem quando as duas partes estão em comum acordo. O problemas, às vezes, começa por ali, onde na verdade, ele sempre encontra espaço. A pele. 

Como a gente toca a alma quando toca a pele, Zélia, falou bem, o que era só sexo muito bem combinado, escorrega e vai para outra prateleira... Outra pasta do arquivo dessa nossa mente sedenta de categorias, classificações, demarcações, assepsias. E aí, fora de lugar, contaminado, desorganizado, muitas vezes a gente não sabe o que fazer com isso. Com o (im)previsto. Tem protetor para proteger a pele das quenturas do sol. Mas e para proteger do que queima nas artimanhas da paixão, nos labirintos do amor? E aí, o que se faz leitor?

Na falta de respostas prontas, chamo Luís de Camões, pelos fins dos anos 500, para deixar a fala dele na nossa roda de conversa: “Amor é fogo que arde sem se ver, É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer...É um querer estar-se preso por vontade... É ter com quem nos mata lealdade”

Não existe ainda protetor para esse fogo, não é? Ainda mais que a gente nem o vê... pelo menos a principio.

Feliz Ano Novo, leitor! Que não lhe falte prosa, nem poesia! E talvez dê para bendizer as poesias cheias de prosa. Ou as prosas plenas de poesia... Por que nem sempre as classificações conseguem dar conta do que acontece com a vida da gente, nem o que a gente sente, cabe dentro das pastas dos arquivos criados em velhos anos... E encontrar o que fazer com isso: Eis a arte de viver!

Andréia Clara Galvão - psicóloga