Sexo ainda é tabu no cinema

Posted on 12/21/2013 by UNITED PHOTO PRESS MAGAZINE

“Ninfomaníca” mostra o sexo sem limites
Filmes com cenas de sexo geram debate antes de chegar às salas, especialmente quando desafiam conservadores.

Uma safra de filmes com discussões abertas ou sugestões acerca do desejo vem tomando conta das telas de cinema. Mas antes mesmo de um longa-metragem com cenas de sexo fazer a estreia, é comum ler informações que dão conta de seu caráter “polêmico”. A palavra, utilizada à exaustão, parece ganhar letras maiúsculas se o centro das ações envolver relações homoafetivas e a libertação da mulher na cama.

“Historicamente, tanto no cinema brasileiro quanto no cinema mundial há essa premissa de que o básico é permitido, o bom e velho ‘papai e mamãe’. O resto tem que ser velado para não contrariar o moralismo”, explica o professor de cinema Ataídes Braga.

Ele aponta que os “vetos” começam nos estúdios. “Até os pequenos se policiam quanto às cenas mais explícitas”, diz. “Charlie Countryman”, sem título em português, é um desses exemplos. Depois de ser exibido em Sundance, ele voltou à sala de edição para eliminar a cena que Shia LaBeouf faz sexo oral em Evan Rachel Wood por considerá-la “incômoda”. O contrário não é tão comum, basta lembrar da sequência de Vincent Gallo e Chloë Sevigny em “Brown Bunny” (2003).

“Isso é uma censura clara. A mulher não pode ter o controle do seu corpo? Não pode gostar de sexo? Mesmo em produções dirigidas por mulheres, o que vemos ainda é muito conservador. Nas artes plásticas, por exemplo, muitas dão vazão à sexualidade, mas no cinema nos prendemos a esse modelo hollywoodiano do amor consentido, da comédia romântica”, opina.

Ataídes Braga acredita que a sétima arte precisa quebrar mais as convenções, ter uma pitada mais Pasolini (diretor italiano à frente de produções como “Salò ou os 120 Dias de Sodoma”). “Eu vejo com muito bons olhos o cinema pernambucano, o trabalho que Cláudio Assis realiza, que Hilton Lacerda fez em ‘Tatuagem’. Esse filme é um retrato importante da década de 1970: o amor livre, a quebra de convenções por meio da arte”, sintetiza.

Com canais televisivos sendo copatrocinadores de boa parte das produções, a “repulsa ao sexo” tão comum entre novelas – que há anos se debatem sobre a questão do beijo entre gays – respinga nos resultados. “Cada filme vira, assim, uma concessão”, opina o professor.

Para Ataídes, se cinema é desejo, é preciso dar vazão. “Lars Von Trier é um cineasta que tem uma coragem que poucos têm. Aposta que vai horrorizar muita gente com o ‘Ninfomaníaca’ (com Charlotte Gainsbourg no papel principal e previsão de estreia em janeiro de 2014). Irão chamá-lo de louco, de pornográfico, porém, ele aposta no desejo dessa personagem e vai romper paradigmas”, acredita.

Organizador do festival Mix Brasil, que teve neste ano sua 21ª edição em São Paulo e no Rio de Janeiro, André Fischer se depara com o rótulo “polêmico” com frequência, especialmente porque o evento é voltado ao público LGBT, e, evidentemente, ultrapassa essas fronteiras.

“Engraçado é que a gente passou por isso no festival, com o filme de abertura, o ‘Interior. Leather Bar’, com James Franco. A primeira palavra que a nossa própria assessoria utilizou para descrevê-lo foi ‘polêmico’. Eu acho que acaba sendo um vício de linguagem do jornalismo, que naturalmente gera leitura e acesso”, comenta.

Fischer, que é jornalista, acredita que essa forma de chamar atenção pode acabar sendo positiva. “Muita gente acaba indo ver o filme para ter a própria avaliação”, diz. Para ele, porém, há que se separar polêmico de transgressor, elemento fundamental, a tônica de “Tatuagem”, por exemplo, que venceu o Mix Brasil na categoria de melhor longa nacional.

“Ali era um outro arranjo das relações, era a época da ditadura. O fato de ser gay é um detalhe. São pessoas indo contra o sistema”, afirma o organizador do Mix Brasil, que se mostra otimista com relação ao espectador, ao menos – 45 mil estiveram no evento. “Nem sempre as pessoas buscam a temática, o cinema precisa ter algo que as desafie”.

Para André Fischer, organizador do Mix Brasil, filmes que saiam das fórmulas para agradar ao grande público e fujam dos trilhos são alternativos em sua maioria. “Mas eles estão sendo muito produzidos. Neste ano recebemos 20 inscrições de longas-metragens brasileiros e selecionamos oito. São produções que muitas vezes nem pensam em chegar ao grande circuito das salas de cinema, só que existe a urgência da mensagem. E mesmo quando seja pensado para um nicho, ele pode cair nas graças do público e da crítica. A visibilidade ainda é o grande problema”, analisa.

Tendo o sexo como parte ou centro da trama, o importante é romper tabus. “Virou uma espécie de cinema de resistência”, diz Fischer que acredita ser pertinente, por exemplo, o debate acerca de “Azul É a Cor Mais Quente”, de Abdellatif Kechiche. O filme estreia em circuito nacional na próxima sexta-feira, dia 6 de dezembro, e traz sequencias caprichadas de sexo entre as atrizes Adèle Exarchopoulos e Léa Seyodux . “Alguns irão ver porque foi o grande vencedor do festival de Cannes deste ano, outros para ver as duas mulheres. Podem concordar, podem discordar. O fundamental é que produções assim tenham seu espaço garantido”, conclui.