Homem: o sexo frágil?

Posted on 12/09/2013 by UNITED PHOTO PRESS MAGAZINE


Se buscarmos a verdade, aos poucos construiremos convicções e elas serão a força motriz do nosso movimento em direção ao novo.

Fiz a leitura do livro com esse título: “Homem, sexo frágil?, de autoria do grande médico psicoterapeuta Flávio Gikovate, já na sua 4ª edição, nos idos de 1991. As suas assertivas caíram como bombas no seio de uma sociedade preconceituosa e sem conhecimento de si. Pela primeira vez, uma abordagem psicológica do homem por inteiro, como ele realmente é. E por que é como é. Ainda hoje, as suas palavras causam verdadeiros espantos, posto que deixam os homens nus em todos os sentidos. Vamos a elas? 

“A supervalorização da agressividade como parte da masculinidade determina uma associação da raiva ao desejo sexual, que, em muitos homens, jamais se desfaz. Os machões tem raiva das mulheres e as desejam; mas gostam mesmo é dos homens, seus amigos. Os homossexuais tem raiva dos homens e os desejam; gostam e são amigos das mulheres. 

Se vocês quiserem ir se familiarizando com a forma como conduzo os tratamentos de todos os tipos de impotência sexual, me baseio na ideia de que o pênis tem sempre razão! Ele só participa de festas para as quais foi convidado e nas quais se sente absolutamente à vontade. E de nada adianta tentar impor alguma coisa ao pênis, pois ele é anarquista por vocação e se rebela contra qualquer tipo de ordem. 

As mulheres se queixam quando os homens as tratam como objeto sexual. Os homens dariam o braço esquerdo para se sentirem objeto do desejo sexual das mulheres. 

O que é o sonho mais agradável para um sexo poderá ser pesadelo para o outro. 

Mesmo nos ambientes familiares mais “sofisticados” existe a tendência para impor aos meninos o padrão oficial de masculinidade... Não tenho notícia de nenhum caso em que um menino de 8 anos de idade tenha chegado em casa chorando porque algum outro bateu nele e seu pai ou mãe tenha dito: “meu filho, faça como Cristo: ofereça a outra face”. Quem oferece a outra face é “bicha”! 

A exigência familiar e social no sentido de o homem ser um profissional destacado é brutal. Mais importante do que ser feliz, é ter sucesso profissional, é ser motivo de orgulho para a família. 

Os homens não poderiam ter pensado de modo diferente, pois é antigo o seu orgulho com relação à condição de suposta superioridade. Este orgulho é antigo e suspeito pois, como regra, tudo o que é exaltado e louvado aos quatro ventos não corresponde à verdade. Reais superioridades costumam se manifestar de modo discreto, que não seja por outra razão para não provocar demais a inveja das outras pessoas. 

A chamada vida sexual promíscua, tão comum entre os homossexuais masculinos até há poucos anos, também estava em sintonia com estes desejos pré-civilizados presentes até hoje em todos nós. O estuprador é o indivíduo que não se conforma com o fato de, ao longo dos milênios, termos perdido o direito de abordagem sexual feminina sem necessitarmos do seu consentimento. Se sente brutalmente ofendido e humilhado com a recusa e, com freqüência, agride a mulher até matá-la; e isto não impede que o desejo sexual se realize. 

O amor é uma espécie de nostalgia da simbiose uterina e do aconchego que sentimos nos primeiros tempos de convívio com a figura da mãe. A importância deste impulso na nossa vida adulta é variável e depende muito da nossa história pessoal. A importância da sexualidade é mais constante e mais independente de nossas vivências infantis. 

Tudo o que nos provoca a sensação de aconchego tem a ver com o amor. Desta forma se cria uma outra manifestação de amor, antes inexistente: o amor ao grupo, o amor à pátria. 

O aconchego é sensação forte e prazerosa. Sua falta provoca grande dor, a dor de nos sentirmos desamparados, desprotegidos. Se percebemos que perdemos em aconchego quando desapontamos a figura materna, obedecê-la passa a ser um procedimento necessário. 

A partir de uma certa idade a preocupação de agradar se estende ao grupo todo, sempre a pretexto do mesmo medo: perda do aconchego, rejeição. 

Represálias físicas e materiais são modestas perto da dor que a rejeição e o desamparo podem provocar em nós. 

Acredito que exista um prazer erótico forte em todos nós ligado ao exibir-se, ao chamar a atenção a atrair olhares. A este tipo de prazer sensual podemos chamar de vaidade. 

Admiramos mais as propriedade que não temos. 

De todo o modo, o homem deverá sempre evoluir numa direção radical, pois quem fica no “meio-termo” não chama a atenção e não se destaca. 

A vaidade masculina se dirigiu cada vez mais para a intelectualidade, para sua razão. A vaidade feminina era essencialmente física. 

A inveja é o sentimento que surge quando uma pessoa admira determinadas propriedades na outra e não se percebe em condições de também chegar aos mesmos resultados. É uma sensação de humilhação, de inferioridade que se transforma em desejo agressivo. 

Somos animais de hábitos e parece que os hábitos se transferem de uma geração à outra mais do que podíamos imaginar. 

Nossa capacidade para nos bastarmos é muito baixa. E eu ousaria dizer que a incompetência masculina para a vida solitária é bastante maior do que a feminina. É claro que em psicologia há muitas exceções, mas parece que os homens ficaram mais dependentes emocionalmente das mulheres do que elas deles. 

Para os homens a situação está bastante mais difícil do que para as mulheres, porque nesta nova “selva” uma das variáveis fundamentais está invertida m relação à original: antes os homens tinham acesso sexual a todas as mulheres que lhes despertavam o desejo, ao passo que hoje cabe à mulher o direito de decidir sobre este assunto. 

Se considerarmos a recente revolução de costumes como o verdadeiro inicio da nossa história, somos ainda animais pré-históricos. Somos fósseis. 

Nós fomos mais “rebeldes” do que nossos filhos são. 

E quais são as razões para a tristeza ao se saber que vai ser pai? Qual a razão daquele horrível “frio na espinha” tão típico das péssimas notícias quando somos informados da gravidez de nossas esposas? São várias. A primeira delas, especialmente no caso do primeiro filho, é a imediata sensação de perda da liberdade. As crianças são muito exigentes de atenção e cuidados. 

Não é sem sentido pois, a afirmação de Platão feita há quase 25 séculos de que existe um certo antagonismo entre amor e reprodução. Os Gregos resolveram o problema tendo as esposas para fins reprodutivos e desenvolvendo fortes relacionamentos amorosos entre homens! Tem sua lógica, não podemos negar. Porém, se quisermos resolver os dois anseios com o mesmo parceiro, teremos de buscar um caminho mais sofisticado. Penso que o melhor seria que os casais apaixonados deixassem passar um tempo antes de pensarem em ter filhos. 

Apesar de toda a propaganda que se faz em torno da preferência do pai por um filho especialmente quando se trata do primogênito a verdade é que isto não corresponde aos seus desejos mais íntimos. 

Não há nenhuma relação entre maturidade emocional e capacidade de brincar com os filhos; também acho que o inverso não é verdadeiro; não são os mais imaturos os que mais gostam de crianças. 

Nossa forma adulta de amar é absolutamente infantil. 

A verdadeira razão para uma educação mais rigorosa do menino tenha sido sempre o ciúme e o pavor de sua homossexualidade e que, no final das contas, os homens tenham sido criados de um modo mais duro e por isso mesmo tenham se tornado tão competitivos. 

Ser menino é também uma condição mais exigente e significa principalmente não poder desviar do seu padrão sexual; significa não titubear e aprender desde cedo que os meninos não devem achar graça nenhuma em “coisa de menina”. 

Quando o marido é grosseiro e agressivo com ela, assim também se tornam muitos dos filhos. Imitam o pai em tudo, mesmo nos seus comportamentos inadequados e inconvenientes. Apesar da dor as mulheres preferem assim, porque significa que o menino está no caminho da normalidade, ou seja, no caminho da heterossexualidade. 

É evidente que certas trocas de carícias entre dois meninos pode ser também gerador de sensações eróticas agradáveis. Pode surgir uma tendência para se perpetuarem as buscas deste prazer, inclusive no que antigamente se chamava de “troca-troca”: numa primeira fase um menino ficava por cima e o outro por baixo e no momento seguinte a situação se invertia. Ambos experimentavam os dois tipos de prazer. Ambos cresciam com dúvidas acerca de sua virilidade, pois quem gosta destes tipos de carícias, muito macho não deve ser! O mais curioso é que todo o pavor dos pais e depois dos meninos ligado à homossexualidade não foi suficiente para impedir estas práticas na grande maioria dos meninos, ao menos até há algumas poucas gerações. 

Existe prazer em ser aquele que humilha, pois este é o que roça o seu pênis no outro menino. Existe prazer também em ser humilhado, pois sua bunda é acariciada e isto também provoca sensações agradáveis. Prazer erótico associado à humilhação e à dor persiste, em grau variado, durante nossa vida adulta e corresponde ao que chamamos de masoquismo. Prazer erótico associado a humilhar e agredir também persiste como resíduo em todos nós, em alguns não apenas como resíduo e corresponde ao sadismo. 

Todo o machismo é expressão da inveja, é a parte do desejo de oprimir a mulher para subtrair dela sua condição de superior. 

Os homens são encantados pelas mulheres e tem também bastante raiva delas! 

A intimidade sexual não gera aconchego, não atenua o desamparo. Ao contrário, dá a nítida dimensão de como se está sozinho. Isto, é claro, quando se está com alguém que não desperta outros sentimentos além do desejo erótico. 

As pessoas buscam novas soluções quando as antigas se tornam muito insatisfatórias. 

O desejo sexual não acompanha as afinidades intelectuais e o bom entendimento com o sexo oposto. 

Quando o homem não se sente em superioridade em relação à mulher, existe uma tendência para a inibição de seu desejo sexual. 

Todo tirano é fraco. 

Todos tem muito medo de se testarem sexualmente e de fracassar. 

O prazer masculino raramente se esgota aí, nesta caça à mulher que termina com o êxtase sexual e com a deliciosa sensação de se sentir procurado, quando não perseguido de modo insistente. Para que o ciclo se feche é absolutamente necessário que seus amigos saibam de todos os detalhes deste processo. 

O homem fará de tudo para que a mulher se envolva sentimentalmente com ele, pois isto a deixa totalmente dependente e nas suas mãos. Poderá humilhá-la por várias ocasiões uma vez que costumamos achar que por amor é legítimo suportar humilhações. 

Se o conquistador subestima as mulheres, os tímidos as superestimam. 

Do ponto de vista sexual, o sexo frágil é o masculino! 

O homem ama, se casa e é pai. Com freqüência se divorcia... Cito Schopenhauer que disse que “o casamento é uma instituição que interessa a duas classes de pessoas: às mulheres e aos padres”! Isto, é claro, foi dito no século retrasado. 

E é bem possível que hoje o casamento seja até pior para as mulheres do que para os homens e, apesar disto, ainda são elas as que mais se apressam em transformar o amor em sociedade civil. 

Quem tem valor não precisa se submeter à tirania de ninguém. 

A grande maioria dos homens divorciados, e que vivem da forma típica para esta condição, é do tipo egoísta, é o macho conquistador que não tem interesse em se envolver emocionalmente. 

O amante existe porque existe o marido. Se este a deixar, o amante não lhe interessará mais. Terá que procurar um outro marido protetor. 

O amante é um tipo peculiar de homem egoísta, que assume o papel de fraco e necessitado de proteção. É uma estratégia curiosa e bastante bem sucedida, especialmente se ele for bonito e cativante. Nunca poderá ser o marido, pois não tem qualidades para isto, no sentido de não ser competente para sustentar a mulher em nenhum sentido da palavra. Mas a sua fragilidade e impotência desperta o anseio generoso, especialmente naquelas mulheres que estão recebendo muito de seus maridos e não conseguem retribuir a eles por causa da inveja que eles lhes despertam. Algumas mulheres generosas também se apaixonam, quando jovens, por estes “menestréis” de segunda categoria e que, numa análise mais acurada, são um tipo bem educado de “gigolô”. 

Se buscarmos a verdade, aos poucos construiremos convicções e elas serão a força motriz do nosso movimento em direção ao novo. Surgirão os novos homens e, estes sim, juntamente e em igualdades de condições com as novas mulheres, serão capazes de construir o novo mundo. 



*Antônio Padilha de Carvalho é palestrante; Especialista em Educação e Filosofia; Membro da Academia Maçônica de Ciências, Letras e Artes(AMCLA) da COMAB(Confederação Maçônica do Brasil)e colaborador do DC.