Adèle Exarchopoulos: 'Para mim o sexo é uma forma de liberdade'

Posted on 12/19/2013 by UNITED PHOTO PRESS MAGAZINE

Do que falamos quando falamos de sexo? A pergunta recebe um significado especial quando se abordam as
três horas de A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2, o magnífico filme do franco-tunisino Abdellatif Kechiche, adaptado da novela gráfica de Julie Maroh.

A Vida de Adèle, que passou pelo Lisbon & Estoril Film Festival, foi premiado em Cannes com a Palma de Ouro e é um dos mais fortes candidatos a filme europeu do ano. Não só pelas longas sequências de sexo explícito entre a experiente Léa Seydoux e a estreante Adèle Exarchopoulos, mas sobretudo pela forma subtil como Kechiche envolve o espectador no carrossel de emoções que acompanha a relação de dez anos entre a estudante adolescente (Adèle) e a artista plástica lésbica de cabelo azul (Léa). 

O que começa por ser uma disponibilidade emocional, abre as portas da descoberta do amor e a posterior entrega a uma tórrida exploração sexual, até que a razão se sobreporá a esse império dos sentidos.


Descendente de um avô grego, a actriz-revelação do festival, a alegre e descontraída Adèle Exarchopoulos, fala sobre o filme com a mesma naturalidade com que se expôs no ecrã. Algo surpreendente para alguém que recebeu aulas de representação para curar a timidez... E que atingiu a maioridade pouco antes de fazer o filme.

Esta foi seguramente uma experiência marcante. O que representa para si este filme?

Sim, esta experiência marcou-me enormemente. Acho que representará a liberdade, a tolerância. É a história de amor de uma mulher que descobre a sua sexualidade e que a quer partilhar. Nesse sentido, é um filme muito carnal.

Até que ponto mudou a sua vida enquanto mulher e actriz?

Não sei se me mudou, mas permitiu-me evoluir e absorver todas as emoções. Seguir esta história de amor permitiu-me crescer e melhorar.

O filme tem cenas de sexo lésbico muito fortes. O que lhe pediu o realizador, e como conseguiu que se sentisse à vontade?

Eu sabia que era uma história que teria sexo entre mulheres. Por isso, quanto ao sexo já estava preparada [risos]. O Abdellatif apenas pediu para sermos nós próprias e não apenas as nossas personagens. Depois de tantas horas de improvisação, com muita intimidade, sexo e até alguma violência, já estava preparada para tudo.

Estava mesmo preparada?

Pode parecer estranho, mas estava. Apesar de não saber que seria tão intenso.

Esta experiência alterou a forma como encara a sexualidade?

Não, porque para mim o sexo é uma forma de liberdade. Durante essas cenas, apenas damos aquilo que queremos dar. Em todo o caso, verifiquei que era difícil assumir a nossa relação na rua, se nos beijávamos durante uma cena no metro ou quando nos despedíamos à porta de casa. Sentíamos que estávamos a provocar uma reacção. Com o decorrer do tempo já não tinha qualquer complexo em estar em bares gay ou a fazer militância pelas causas homossexuais. Não é um mundo novo, mas percebo que eles têm de se defender.

Como encara toda esta controvérsia em redor dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo?

Acho que o problema mudou. Não é esse seguramente o problema no mundo. Penso que temos de parar de julgar a forma como as pessoas decidem fazer sexo. Há na vida problemas muito mais importantes.

É curioso que tenha essa opinião, pois é ainda muito jovem. É por ser uma pessoa bastante madura ou fez parte da sua educação?

Os meus pais são pessoas bastante esclarecidas, são muito comunicativos. Sempre me deixaram ver aquilo que queria e ter a minha própria opinião. Apenas discutíamos as nossas ideias. Por outro lado, sempre passei muito tempo com pessoas mais velhas do que eu.

Os seus pais estiveram de acordo com as cenas de sexo que teve de fazer no filme?

Estiveram porque me deram a liberdade de fazer o que me deixava feliz. Sempre tive uma relação muito cool com a minha família. E fiquei muito contente quando vi que o meu pai aplaudiu o filme.

Os seus pais não estão envolvidos na vida artística?

Não. O meu pai tem vários trabalhos, mas nada relacionado com a arte. E a minha mãe é enfermeira. E tenho dois irmãos. Que agora também querem ser actores...

Este filme levou vários meses a filmar. Como desenvolveram as personagens ao longo desse processo?

Fizemo-lo durante a rodagem. Andávamos sempre juntos. Habituámo-nos a estar nuas perto uma da outra, a fazer cenas de sedução. Foi algo muito solidário. Acho que não poderia ter feito o filme sem a Léa.

Sentiu que durante o filme poderia estar a ir longe de mais nessa exploração sexual?

Por vezes, sim. Cheguei a perguntar- me se não estaria a dar demasiado de mim própria, a ser demasiado livre, já que estava a dar a minha pele, o meu pudor, a minha intimidade... Mas acho que o filme merecia isso. O Abdellatif também idealizou um filme em que daríamos tudo.

E acha que deu mesmo tudo o que tinha para dar?

Não sei. Tentei dar tudo o que tinha. O resultado está no filme e cabe aos espectadores decidirem isso.

A ideia era seguir o original da banda desenhada ou assumir uma adaptação livre?

À medida que íamos avançando, íamo-nos distanciando do original. O Abdell tira coisas que só nós sabemos.

É verdade que nem sempre sabia quando as câmaras estavam a filmar?

Sim, é correcto. Por exemplo, uma vez íamos todos numa viagem de comboio e quando acordo percebo que me estão a filmar. O que o Abdell me dizia era para me esquecer da câmara e fazer a minha vida normal. Por vezes, ele escolhia pessoas da rua para participarem na rodagem connosco, para serem figurantes ou fazerem pequenos papéis.

Como foi que começou a sua carreira de actriz?

Foi por acaso. Quando tinha 12 anos estava num grupo de teatro e uma amiga perguntou-me se queria ir a um casting. Depois vieram outras sugestões e fui seguindo. Foi uma espécie de jogo, porque eu não sabia exactamente o que queria.

Além do lado mais erótico da sua personagem, há um lado completamente diferente, em que faz de educadora de infância. Como foi essa transição?

Para mim foi um desafio ficar diante de uma dúzia de crianças que não conhecia e conquistar a sua atenção. Mas depois de passarmos muito tempo juntos já havia essa familiaridade.

Sente que em França os adolescentes encaram o sexo dessa forma tão aberta como vemos no filme?

De certa forma, acho que existe essa libertação. Sobretudo com os amigos mais chegados, a quem contamos todos os detalhes das nossas aventuras amorosas.

E no seu caso, o filme fê-la encarar o sexo no cinema de uma forma diferente?

Cada realizador tem a sua forma particular de filmar o amor e o sexo. Por exemplo, nos Estados Unidos sabemos que mostrar armas é algo muito mais normal do que ter cenas com alguma nudez. Vamos ver como o filme irá ser lá exibido...

Que idade tem a Adèle agora?
19 anos.

Isso significa que teria uns 18 anos quando fez o filme, não?
Sim, tinha 18 anos.

E continua a ir à escola?
Não, deixei a escola. Não era a melhor aluna, contentava-me em ser uma aluna mediana.

Depois de vermos este filme, tornou-se obrigatório falar de prémios. Como encara toda esta expectativa em redor do filme?
É algo incrível. Poder estar aqui a falar do filme já é algo fantástico. Ainda não tive oportunidade de pensar muito nisso, mas todos os prémios serão obviamente bem-vindos...