Pornovingança: o que fazer se fotos ou vídeos íntimos caírem na internet

Posted on 11/14/2013 by UNITED PHOTO PRESS MAGAZINE


Imagine ter suas fotos íntimas ou seu vídeo fazendo sexo bombando nas redes sociais. Pior ainda é saber que o material não foi parar lá por um descuido seu. O culpado é alguém em quem você confiava: seu ex.

Podemos apostar que, no mês passado, o seu feed do Facebook foi inundado por notícias sobre a Fran, a estudante de 19 anos, de Goiás. Ela virou meme nas redes depois que seu vídeo transando com o ex - ao que tudo indica, divulgado pelo próprio - se propagou pelo WhatsApp. Montagens de celebridades e políticos repetindo o sinal de ok que ela fazia nas imagens bombaram na net. A menina foi virtualmente humilhada e xingada por muitos desconhecidos. Virou piada para tantos outros. Mas também foi defendida por mais de 36 mil pessoas que curtiram a página "Apoio Fran" no Facebook.

A triste realidade é que cada vez mais mulheres têm tido sua intimidade escancarada para milhares de internautas. E o mais assustador: se antes era um desconhecido quem furtava o material, agora a atitude inescrupulosa vem do ex-marido ou ex-namorado, ressentido com o fim do relacionamento. "A vingança surge da raiva e da dor. Quem se vinga quer que o outro sinta o mesmo para equilibrar a balança e recuperar sua autoestima", diz a terapeuta de casais Lana Harari, de São Paulo.

O fenômeno cresceu tanto que já ganhou nome: revenge porn, algo como pornovingança. Nos EUA, surgiram sites específicos em que os homens devastam a privacidade das ex-parceiras para desconhecidos. Um dos primeiros, o IsAnyoneUp.com chegou a ter 30 milhões de page views antes de ser retirado do ar. Outro bastante popular, o Texxxan, reuniu fotos não consensuais de 250 mulheres. Os dois já foram fechados pela Justiça americana, mas uma vez que as imagens caem na rede, são facilmente copiadas em centenas de outros sites. Pior: muitas vítimas acabam tendo seus perfis em redes sociais descobertos e linkados ao conteúdo erótico. A partir daí, o inferno começa.

· Leia o depoimento de uma vítima da pornrevenge

Ataque intensivo

Não é difícil pensar que a situação pode acontecer com qualquer uma de nós - ainda mais em tempos de smartphones, namoros à distância, sexting... Por mais inteligente e esperta que a gente seja, também corremos o risco de ser enganadas quando o manipulador é alguém que nos conhece tão bem. E, afinal, se trata mesmo de um golpe baixo. Sexo é um recurso antigo de dominação do homem sobre a mulher. Por isso, o carausa a pornovingança como arma para denegrir a imagem dela, e ainda sair como pegador. "O sujeito que age assim pensa: se ela não vai ser mais minha, não vai ser de mais ninguém", diz o perito em crimes eletrônicos Wanderson Castilho, da e-net Security. Infelizmente, funciona.

Ainda hoje, é comum que a vítima seja vista como culpada apenas por ter permitido o registro das imagens. Espera aí, vamos deixar claro que não há nada de errado nisso?!? Justo agora que conquistamos o direito ao orgasmo, a liberdade para ter e realizar nossas fantasias, quando nos permitimos ousar mais em busca do nosso prazer, vamos voltar 20 casas? Quem encara o escândalo como uma punição - "bem-feito, foi boba" - usa a mesma lógica absurda de quem diz "foi estuprada, mas saiu de saia curta". Como se, por ter exposto sua sexualidade para seu parceiro, a mulher estivesse permitindo que qualquer um tivesse acesso ao seu corpo. "O cara que promove esse tipo de vingança quer exatamente isso: estigmatizar, mostrar que o corpo dela agora ‘é de todos’, ‘público’", diz a psicóloga e terapeuta sexual Ana Canosa, de São Paulo.

Nas redes, a mulher é chamada de vagabunda, recebe convite para fazer programas, é tratada como mercadoria. O apedrejamento virtual cria uma sensação de culpa na própria vítima - não só pelo ato em si, mas por ter confiado na pessoa errada. Com medo de ser agredida novamente, a mulher se fecha para novos relacionamentos. "O dano emocional se compara ao de um crime sexual. É uma espécie de estupro virtual", afirma a psicóloga Daniela Pedroso, do Núcleo de Violência Sexual do Hospital Pérola Byington, de São Paulo. E, assim como nesses casos, é preciso buscar ajuda para superar o trauma. O primeiro passo para a mulher recuperar a autoestima e a confiança: enxergar que, ao contrário do que dizem os anônimos na internet, ela não é a culpada, mas a vítima de um ataque cruel. E não deixar que um mau-caráter covarde - muito menos o resultado que aparece na busca do Google - defina quem ela é.
Ainda fica barato

No Brasil não existe uma legislação específica para a violação de intimidade. A Lei Maria da Penha, da forma como está hoje, não trata de crimes virtuais. Mas uma proposta apresentada no Congresso, apelidada de Lei Maria da Penha Virtual, pretende considerar a divulgação indevida de material íntimo uma forma de violência doméstica.

O que fazer se acontecer com você

· Não tente apagar de imediato. Se fizer isso, você vai adulterar a cena do crime, tornando ainda mais difícil o rastreamento do criminoso.

· Preste queixa em uma delegacia de polícia.

· Contrate um profissional que faça o rastreamento das mensagens e a remoção do conteúdo. Quanto mais rápido ele agir, melhor. Na primeira semana, as chances de eliminação do material são de 70%. Depois de um mês, caem para menos de 50%.

· Contrate um advogado e entre na Justiça, mesmo sabendo que as chances de vitória são medianas e a possível pena, pequena.