Conversas privadas de mulheres sobre sexo

Posted on 9/11/2013 by UNITED PHOTO PRESS MAGAZINE


Liana Pinto
Consultora de comunicação e marketing, divorciada. Tem um blogue onde conta as aventuras amorosas de uma rapariga solteira em Lisboa, o ‘Sex and the Silly’. Diz que é tudo ficção.
Rita Viegas
Vive com o namorado. Durante o dia trabalha para uma companhia aérea mas também é cantora e actriz. Participou na série ‘Morangos com Açúcar’ e tem uma banda, os Chronicle News.
Cláudia Caseira
Solteira. Já foi modelo fotográfico e designer, agora trabalha na loja Amélie au Théâtre, em Lisboa, como uma espécie de relações-públicas que também promove eventos culturais.
Paula Bollinger
Fotógrafa, divorciada. Tem um blogue, ‘A Vaidosa Costela de Adão’, onde revela “o que passa pela mente feminina antes de abrirmos a boca e o que fazemos quando nenhum homem está por perto.”
Inês Pando
Professora. Além de dar aulas de Biologia e de Educação Sexual no ensino básico, trabalha como consultora e vendedora de artigos eróticos, na Mala d’Eros. Acabou de ficar noiva.
Rita Fazenda
Responsável de comunicação e marketing na Marcador Editora. Diz que respira livros e que, apesar de alentejana, é uma mulher do mundo e uma apaixonada pela boa vida. É solteira.

Juntámos três pares de mulheres, entre os 33 e os 37 anos, e demos-lhes nove temas de conversa – todos sobre sexo, claro. Depois, deixámo-las falar sem interferências. Saiba o que elas pensam sobre relações de uma noite, ménages à trois ou traições. E descubra qual é o homem ideal para cada uma


Liana Pinto e Rita Viegas
Relações de uma noite
LP – Já tive.
RV – Claro, e acho que é normal ter, agora não é de todo filosofia para mim.
LP – Para mim também não.
RV – Quando há uma one-night stand é uma cena assim muito vazia…
LP – O dia a seguir? Por isso é que eu acho que tem de se ir com um espírito one-night stand. Se for uma one-night stand porque no dia a seguir ele não liga mais é que é uma chatice.
RV – Pois, o problema é que eu fico sempre à espera de mais...
Fantasias
LP – Não tenho muitas fantasias, as minhas fantasias são mais profissionais. De resto, espaços, sítios…
RV – Eu realizei as que tinha, acho que toda a gente tem fantasias e que aqueles momentos em cima da mesa podem ser uma fantasia para uma pessoa, um tédio para outra.
LP – Em cima da máquina de lavar!
RV – A trabalhar, aqueles clichés! Em cima do capô do carro…
LP – Eu acho que uma fantasia é um cliché. Há coisas que sabemos que são quase impraticáveis, como querer passar uma noite com o Brad Pitt, ao resto chamo mais desejos. 
RV – Sim, mas sobretudo nos homens há muitas, aquelas coisas dos três e das gémeas ou das polacas ou das brasileiras. De facto, também não estou no mesmo caminho.
Ménage à trois
RV – Não tenho ideia, nem sequer desejo. Mas nunca digo nunca.
LP – Se estivesse casada há 20 anos e fosse para festejar o aniversário, se fosse muito importante... Mas de resto não. Acho que o ménage à trois, para funcionar, ou é com uma pessoa que não se conhece de lado nenhum – mas depois também é esquisito estar com um estranho – ou com alguém conhecido, que depois no fim ia ter de matar para ninguém saber! Já estive com homens a quem perguntei se já tinham tido. Uns sim, outros não, outros gostavam. Mas nunca ponderei fazê-lo, porque nunca foi uma coisa que desejasse. Estar com dois homens não, e estar com outra mulher também não me seduz.
RV – Quando há três pessoas, há sempre um rejeitado.
LP – No ménage, ou de facto não sentimos nada uns pelos outros e é mais uma experiência ou há sempre receio. O homem tem receio de que o outro tenha uma performance melhor, a mulher tem medo que ele se envolva emocionalmente com a outra…
Orgias
RV – Não! De todo! Acho que a relação sexual é demasiado íntima e a dois. É uma partilha, não é uma necessidade física.
LP – Não concordo. Não sinto que uma relação sexual precise necessariamente de amor ou emoção. Não é verdade, é científico, está provado, o corpo tem determinadas necessidades, e nós por vezes resguardamos esse desejo e fechamo-lo cá dentro porque a sociedade nos ensina determinado tipo de coisas. 
RV – Pois, também tem a ver com a sociedade, que nos julga se a coisa sair do padrão.
LP – Uma desgraçada [Marte Dalelv] no Dubai foi violada e presa por ter tido sexo fora do casamento. É ridículo, as sociedades vão moldando o que é o homem e a mulher, o que é permitido ou não. Uma das coisas que os 30 me deram foi a certeza de que não devo nada a ninguém e que a minha vida é minha. Vivi em Nova Iorque alguns anos e vi muitas coisas, fui a festas de piscina onde calculo que muita gente tenha tido sexo. Gostei de lá estar, mas não me envolvi com ninguém. Também estive noutras festas um bocadinho mais hardcore, entrei e saí com medo de tocar em alguém! Acho que é preciso ser-se muito desprendido e ter uma grande confiança sexual e no corpo. 
Traição
LP – Acho que 99% das pessoas já foram traídas e traíram. Ou pensaram ou quiseram.
RV – Só em pensamento já é traição, não é?
LP – Traição é uma coisa muito pessoal.
RV – Na forma pensada já é uma traição.
LP – Eu já perdoei traições, já não perdoei, já tive um bocadinho de tudo e acho que vou continuar a ter. Conheço pessoas que têm relações duradouras, de 20 anos, e descobrem ao fim desse tempo todo que o marido teve uma noite e acabam por continuar porque existe algo de muito mais valioso. Às vezes as traições até vêm ajudar um bocadinho.
RV – A avivar a coisa.
LP – Pus no Facebook há tempos: “A traição não é um erro, é uma escolha” – é uma escolha errada, no fundo. E errada, depende! A história da LeAnn Rimes, por exemplo. Ainda hoje vi um documentário: era casada há quase 10 anos, foi fazer um filme, apaixonou-se pelo protagonista e ele, também casado e com filhos, apaixonou-se por ela. Os EUA fizeram daquilo um circo. Divorciaram-se, casaram e continuam juntos, mas ainda têm de lutar contra aquilo que a sociedade achou, que destruíram lares. Houve traição, mas provavelmente estavam destinados um ao outro.
RV – Ninguém rouba ninguém de ninguém.
LP – Agora há casos e casos, há homens que têm vidas duplas e que só estão bem quando estão com outras pessoas. E mulheres também. Não acho que haja mais homens do que mulheres a trair, acho é que eles são socialmente mais descarados. Nós também nos tornamos mais exigentes, determinadas, polidas e independentes, enquanto os homens se mantiveram iguais, daí as coisas hoje serem mais difíceis de resultar. É muito difícil manter uma relação sem perder a paciência. Facilmente perde-se o respeito por aquilo que se prometeu num altar. Por isso é que surgem tantas traições.
Homem ideal
LP – Eu tenho o amante ideal, para mim. O amante ideal tem de me descobrir. Os homens que acham que a mulher é um cliché e que o que fazem a umas resulta com todas, não.
RV – E que não perguntam, isso também é muito importante.
LP – Lá está, é um homem e uma mulher, são dois corpos diferentes que se encontram e têm de se conhecer.
RV – Pois, não é um acto de egoísmo.
LP – Como aqueles que gostam de estar a olhar-se ao espelho. Ah, tirem as meias!
RV – E deixem-se de ursinhos nos boxers. Quanto ao tamanho, depende.
LP – Importa, nem que seja para um primeiro impacto!
RV – Mas não é por causa disso que vamos deixar de gostar da pessoa.
LP – Nós também temos peito maior ou mais pequeno, não é? Depois o tamanho ideal não é ideal para todas, não é? Eu sou pequenina!
RV – Depende. Importa, posso dizer que sim. Mas noutras ocasiões posso dizer que não. Acho que isso é mais na cabeça dos homens, acham que a virilidade…
LP – ...se vê no tamanho, não é? Acho que às vezes os preocupa mais a eles do que a nós. Mas não vou dizer que a gente não olha e “Ih, que azar!” E duração? Eh pá, muito, por favor!
RV – Depende.
LP – Aprendam a relaxar e a fazer com que…
RV – ...depende! Depende das situações, de a coisa ser fugaz ou…
LP – ...Sim, fugaz é bom, mas é bom num ambiente fugaz, não num ambiente de relaxamento, em que depois do jantar bebemos um copo de vinho. Aí não pode ser fugaz!
RV – Não há regra, o tempo é o que for no momento. Depende das condições, da luz, dos cheiros. Isso tudo nos dá o tempo.
Sítios mais estranhos
LP – Não sei se tive sítios mirabolantes.
RV – Eu também não.
LP – Carro, praia, casa, nunca tive um sítio mirabolante. Nisso sou um bocadinho mais cuidadosa, gosto de desfrutar e estar à vontade.
RV – Senão a nossa cabeça também não funciona, não é?
LP – Sim, não me sinto à vontade. Já estive em sítios lindos e paradisíacos, nesse aspecto acho que sou um bocado mais romântica. Sou uma pessoa que está muito à vontade entre outras pessoas, mas neste sentido sou mais reservada, não gosto de ser observada. 

Tabus

LP – Não tenho nenhum.
RV – Também não.
LP – Tenho os meus limites estabelecidos, mas falo sobre eles. E, às tantas, o que é um tabu? Há pessoas para quem tudo o que for além da posição de missionário é tabu. Para mim, tabus são coisas como sadomasoquismo, pessoas que têm prazer quando se cortam ou se estrafegam.
RV – Ou outras coisas piores.
LP – Porque não me excita, atenção. Acho que um homem e uma mulher juntos devem poder fazer o que quiserem, mas eu tenho os meus limites, vestida de látex com uma coleira e uma bola na boca, desculpem, mas não. Na parte de trás de um táxi – lamento, mas também não; deve ser muito giro, mas não quero.

Acessórios

LP – Sozinha ou acompanhada? Acho que todas as mulheres deviam investir em lingerie.
RV – Acho que isso não é bem um acessório. Se ajudarem, os brinquedos são bem-vindos, mas, se complicarem, são para esquecer.
LP – Não são todos os casais que têm a coragem de usar acessórios.
RV – Depende, há coisas simples. 
LP – Acho que é saudável, acho que tudo dentro de uma relação é aceitável. Mas vou ser honesta, nunca se me colocou essa situação. Acredito que se uma mulher disser a um homem que vai trazer um vibrador para dentro da equação, ele deve questionar a sua masculinidade. Eles preocupam-se muito com a performance e com a satisfação sexual da mulher, porque se não atingiu o orgasmo ou é porque ela não sabe fazer ou porque ele fez algo errado. Não tem nada a ver, umas vezes atinge-se, outras não.

Cláudia Caseira e Paula Bollinger
Relações de uma noite
CC – Acho que todas já passámos por isso.
PB – Claro. Fala-me da tua melhor experiência.
CC – Ai, tenho de pensar. Porque para mim one-night stands foram mais nos vintes. Tive uma vez uma com um rapaz que me abordou com uma das melhores saídas: disse-me que eu era a rapariga mais linda que já tinha visto. Conquistou-me, era um óptimo beijoqueiro. Foi no Lux. Nunca mais o vi. Até cerca de um mês depois, numa revista, portanto não posso dizer quem é...
PB – One-nights stands têm de ser com sexo ou sem sexo?
CC – Ah, com sexo!
PB – Tive uma maravilhosa, mas não houve sexo nem beijos.
CC – Pode ser com uma rapariga também?
PB – Com sexo foi logo depois de me divorciar (estive casada 10 anos, divorciei-me há dois e meio). Um rapaz convidou-me para beber umas caipirinhas. Íamos ao Parque das Nações, mas de repente estamos na Ponte Vasco da Gama. Perguntei-lhe porquê e ele: “Ah, desculpa, enganei-me.” Fomos para a casa dele, em Azeitão, e aconteceu tudo. Depois não conseguimos encontrar-nos mais. 
CC – Mas isso é diferente, já o conhecias.
PB – Não! Conhecemo-nos pelo Facebook. 
CC – Há muitos anos, acho que nem 20 tinha, aconteceu-me estar a olhar para a cara de um rapaz e demorar meia hora até o reconhecer – já tinha ido para a cama com ele, imagina! Isto é o one-night stand perfeito, não é? Não te lembrares sequer!
PB – Também me aconteceu! Uma vez estava a jantar e estava um casal na mesa ao lado, a mulher reconheceu-me. Depois apresentou-me o marido, que estava a olhar para mim com ar esquisito. Recebi uma mensagem dele no dia seguinte: “Não te lembras, pois não? Fomos para a cama há um ano.”
Ménage à trois
PB – Nunca fiz. 
CC – Também não, mas não digo que nunca faria. Talvez.
PB – Estou fora, nunca fiz nem pretendo fazer. Quer dizer... Já beijei dois homens ao mesmo tempo, mas eram os dois gays!
CC – Eu, ménage, não, mas já estivemos quatro num quarto. No mesmo espaço, mas não a trocar nem a misturar, cada um com o seu. Foi uma noite. Sabes quando estás fora e te sentes livre? Houve muito álcool e depois foi go with the flow. 
Orgias
CC – Nada contra, mas não, acho que não me iria sentir à vontade. Nunca estive num ambiente assim.
PB – Não, eu também não.
CC – Aquele cenário do Eyes Wide Shut é muito giro, mas para isso tínhamos de ser nós, as mulheres, nuas e de máscara. Acho que nem de máscara ia estar confortável.
PB – Eu de máscara não sei, talvez.
Fantasias
PB – Já realizei todas as que quis.
CC – Eu também. Mas acho que depois vão aparecendo outras.
PB – Sim. Depende da pessoa, com cada uma surgem novas vontades. 
CC – Sim, e depois há outra parte também, que é continuar a inovar.
PB – Gosto de casas de banho públicas.
CC –Também gosto, acho que as mulheres todas gostam.
PB – Desde os 21. Lembro-me de que, quando vivia no Rio de Janeiro, tive um namorado com quem estreava todas as casas de banho. Podiam ser públicas, de discotecas, de bares. Mas a mais louca em lugares públicos foi no estacionamento de um centro comercial. Eram umas 18h, o movimento era grande e nós no carro. 
CC – Eu realizei desde aquelas fantasias mais teenagers, de ter sexo numa praia ou numa casa de banho pública, passando por elevadores, bares... Carros também, mas acho que isso não é uma fantasia, vem com a praxe.
Sítios mais estranhos
PB – O estacionamento público! De resto, discotecas, no meio da rua.
CC – Mas isso não é estranho.
PB – Uma vez estacionámos no meio de um túnel e foi fora do carro, de madrugada.
CC – Comigo foi no meio da auto-estrada. Que horror, ainda aparecia a Brigada de Trânsito. Fomos rápidos!
Traição
CC – Prefiro não saber, mas acho que quando acontece nós sentimos. Eu até consigo entender, mas não perdoar. Como também já fiz, percebo porque é que acontece, mas não consigo ultrapassar, fico com um bichinho de querer retribuir e isso desenvolve sentimentos podres, vingança, raiva... 
PB – Acho que é um acto de cobardia, a única coisa que posso dizer é que dói mais ser a outra do que trair.
CC – Acredito, não duvido nada. Tive um namorado, que foi o meu segundo (tive um namoro dos 14 aos 18, depois dos 18 aos 21), tanto eu como ele nos traímos um ao outro, mas nunca nos confrontámos com isso. Eu sabia que ele sabia e ele sabia que eu sabia, sabes? Era aquele tipo de namoro em que ambos éramos muito giros, era a fase do início da faculdade. Eu trabalhava como modelo e ele era o giraço da faculdade. Foi aquela relação em que não tens paz, há sempre ciúmes. 
PB – Na minha família houve uma traição e isso marcou muito o meu crescimento e o moldar da minha personalidade. Custou-me muito ultrapassar, portanto prometi a mim mesma que nunca iria trair ninguém.
O homem ideal
PB – É fiel, atencioso, inesperado e intenso.
CC – Eu não diria melhor.
PB – O meu amante ideal tem de viver, ser inesperado. Mas isso tem de vir com o facto de ser atencioso, carinhoso, meigo e fiel. 
CC – O tamanho importa também.
PB – Tem de ser médio, no mínimo! Mas a performance é essencial. 
CC – A duração só é problema se durar sempre pouco.
Tabus
CC – Acho que sou liberal, mas não sou radical, há um género de coisas que é demasiado para mim. 
PB – Eu não tenho tabus, mas há coisas que não me dão prazer, por isso não faço. Essas coisas de amarrar e puxar e sadomasoquismo não são para mim. Esses jogos do dominante e do submisso não me iriam dar prazer. 
Acessórios
PB – Vibrador! E algemas! E velas! Velas!
CC – O meu primeiro vibrador foi-me oferecido por uma amiga mais velha, deu-me um igual ao dela. Demorei a experimentar, não por preconceito, tinha uns 27 ou 28 anos, é a tal idade dos one-night stands, na altura tinha uma vida sexual muito activa. Como a maior parte dos homens não aceita bem brinquedos na cama, até estar sozinha demorou.
PB – Só uso o meu vibrador acompanhada! 
CC – É?! A sério?! Tens-te cruzado com nice guys, a minha percepção é contrária. 
PB – Nunca usei sozinha. E há outra coisa a que acho piada, vi uma vez um filme com o Gerard Butler em que ele oferece à rapariga umas cuecas vibratórias com controlo remoto. Gostei tanto que comprei umas. Fui para um jantar e entreguei o comando à pessoa que estava comigo. O homem ficou maluco – e eu também! É óptimo, é um microvibrador que tem várias intensidades e a pessoa pode brincar: liga, desliga, liga, desliga.
CC – Também gosto de algemas e daquelas bolinhas chinesas.
PB – Gosto de velas. Há dois tipos, as normais, que queimam mas dão uma dor prazerosa, e as que transformam a cera em óleo. É bom, podes massajar a pessoa depois, mas prefiro a que dói! Isto não é sado, pois não?
CC – Não! Achas?! Isso são anzóis nos mamilos – que horror! Agora há aqueles autocolantes, com uma franjinha, tipo burlesco, para pôr nos mamilos, isso também é giro. Adoro tudo o que seja lingerie.
PB – Tive umas cuecas que se transformavam em algodão-doce. Mas não ligo nada a lingerie.

Inês Pando e Rita Fazenda
Relações de uma noite
IP – Nunca vivi, mas compreendo, tenho imensas amigas que vibram, não há compromisso, não têm de dar nada.
RF – É um conceito um bocado estranho, pois.
IP – O facto de estar numa noite em busca de alguém que não conheço pode preencher uma fantasia. Mas nós somos mulheres, temos sempre um lado de princesuchas, portanto o depois de...
RF – ...Hum...
IP – ...o ficar à espera de um telefonema...
RF – ...Hum...
IP – ...ficar à espera de saber se correu bem, se gostaram tanto como nós...
RF – Pois, eu tenho uma opinião diferente. As gerações anteriores tinham muito essa coisa de um homem para toda a vida. O que acontece agora é quase o colmatar de uma necessidade fisiológica: o one-night stand passa por aí. E depois cada um vai para o seu lado. E essa coisa de que a mulher fica à espera, até já está a inverter-se. Conheço casos em que é o contrário, de homens com uma falta de auto-estima tal que acham que, como as mulheres não dizem nada, é porque foi horrível, uma porcaria. Em Portugal, há uns anos, os one-night stands eram supermalvistos, enquanto lá fora eram usuais. Se calhar por isso é que, para mim, sempre foi um conceito muito normal: a pessoa viaja, conhece uma pessoa numa noite, no dia a seguir está a apanhar um avião para vir embora, portanto não há muito mais a dizer. 
IP – O tal não envolvimento para além da parte física é verdade nas mulheres modernas, a quem se calhar até interessa um homem que não vai ligar no dia a seguir, não vai pedir nem exigir nada. Muitas até são casadas ou têm companheiros...
RF – ...Nessa parte já não sou assim tão liberal.
IP – ... e não querem propriamente um homem que queira um compromisso. 
Acessórios
RF – A oferta é enorme e cada vez mais online. Antigamente eram coisas de muito mau gosto, fluorescentes, horrorosas, kinky.
IP – Muito viradas para o homem.
RF – Hoje isso mudou. Não só porque são coisas para a própria mulher e estão adaptadas fisiologicamente, mas porque também são apelativas visualmente. Já não é aquela coisa tonta, das mulheres que iam para as despedidas de solteira e só aí é que compravam coisas. Num casal também acho que faz todo o sentido. Especialmente para pessoas que estão há imenso tempo juntas.
IP – Não só para essas, mesmo para casais no início, para se tornarem mais cúmplices e viverem experiências que nunca tiveram antes. Há jogos, acessórios, óleos, massajadores…
RF – Até marcas de preservativos já apostaram nesse segmento – assim se vê a banalização. Duvido é que a maior parte dos homens esteja assim tão disponível para esse tipo de coisas, pensam que lhes diminui a virilidade.
Fantasias
RF – Acho que há dois conceitos diferentes: o de sexo por si só – físico, robótico, fisiológico – e o de fazer amor. O segundo conceito, para mulheres menos ligadas a relacionamentos, é já quase uma fantasia. Conseguir encontrar o amor verdadeiro é uma fantasia, uma coisa muito difícil de conseguir nos tempos que correm. E depois há aquelas coisas mais básicas, todos os meus amigos gozam comigo porque desde miúda que a minha cena é velocidade, motas e homens vestidos com fatos de motocrosse. 
IP – As minhas fantasias são mais viradas para um relacionamento sério. Implicam romance, conquista, paixão. Aí é o que nos passar pela cabeça, pode ser com brinquedos, num local diferente... O sadomasoquismo não me preenche, mas acho que tem muito a ver com controlo e mesmo que não sejamos adeptas de sadomaso podemos brincar com o controlo. Ser vendado ou amarrado pelo outro é deixar de ter o controlo, ficar à mercê dele.
RF – É a questão da adrenalina, de criar momentos de expectativa. Agora sadomasoquismo puro e duro, não. Há uma coisa que acho muito gira, nem sei se é uma fantasia, gosto da maneira de vestir e de tudo o que tem a ver com o burlesco. Para mim, uma das mulheres mais fabulosas é a Dita von Teese. 
Sítios mais estranhos
RF – Acho que toda a gente já esteve numa praia, no campo...
IP – ...Num jardim público!
RF – …No cinema... Não sei se há algum sítio assim tão esquisito...
IP – Qualquer sítio que seja proibido, onde haja uma situação de aparecimento repentino de público, só por si já é excitante. Pode ser um elevador, um provador, uma loja.
RF – Acho que o mais estranho foi uma cena de minutos, na casa de banho de um bar de uma cidade – era o que estava mais perto.
Tabus
RF – Acho que o maior tabu que qualquer pessoa pode ter são os pais. Aquela coisa de pensares que os teus pais tiveram de fazer isso para tu estares aqui. Para mim é a coisa mais bizarra à face da Terra! De resto, não tenho tabus nenhuns.
IP – Eu não tenho mesmo, nem relativamente aos meus pais, vejo-os como pessoas sexuadas que são, conversamos sobre sexualidade, partilho com eles, sei o momento de vida de casal em que eles estão e inclusivamente posso sugerir-lhes uma ou outra brincadeira. São vivências diferentes.
Traição
RF – Se for uma coisa altamente premeditada e doentia e repetida, não, nem pensar! Agora acontecer uma vez, sem exemplo, porque alguém bebeu demais, não me choca. Acho que o essencial continua lá. Aconteceu e é preciso é que as pessoas resolvam as coisas e continuem para a frente. E quando falo em coisas repetidas não é só fisicamente, falo em redes sociais, conversas paralelas, mensagens, em todos os tipos de traição.
IP – Mesmo em pensamento, em vontade.
RF – Não, não, absolutamente imperdoável.
IP – Eu nesse aspecto sou muito mais conservadora. Para mim, a base de um relacionamento é o respeito. E se aconteceu alguma coisa ele não está lá. Nós somos assediados diariamente, o apelo de terceiros é muito fácil. Mas se estivermos numa fase do relacionamento em que estamos em baixo e facilmente cedemos, então é altura de repensarmos aquilo que queremos.
RF – Errar é humano.
IP – Não concebo envolver-me numa situação dessas e se o outro se envolve será uma situação muito difícil de ultrapassar porque readquirir a confiança leva muito tempo e às vezes não é de todo possível. Depois é um relacionamento desconfiado: “Quem será que ligou?” “Está no computador tantas horas porquê?” “Porque é que chegou tão tarde?”
RF – Não sei se isso é assim tão simples, era bom que fosse, mas acho que não...
IP – Acho que é fácil caíres na tentação de trair, daí dar tanto valor a quem consegue não trair. Mas a gente não sabe o futuro, não é?
Ménage à trois
RF – Não.
IP – Não faz parte de fantasia nenhuma. É terreno escorregadio.
RF – Acho que uma relação a dois já é uma coisa tão difícil, bonita, trabalhosa e intensa que nem sequer faz sentido uma terceira pessoa.
IP – Acho que o ménage à trois tem muito a ver com a tal auto-estima e acho que não há nada que te possa fazer sentir melhor e mais sexy do que estares bem no teu próprio papel – sozinha. A vivência de experiências que podem ser alucinantes por si não traz nada quando já estamos bem.
Orgias
RF – Não. Eyes Wide Shut não é de todo o meu género. Muito pelo contrário, tenho de olhar nos olhos das pessoas e ver o que é que há ali.
IP – Quando estás bem contigo, tudo à volta flui no sentido de encontrares alguém que acrescenta à tua pessoa, que partilha experiências, interesses e objectivos contigo, portanto para quê esta multiplicidade de parceiros e loucuras que às vezes só te fazem é dispersar do teu objectivo geral?
RF – Acho que as pessoas que ainda não perceberam aquilo que querem ou que andam sempre à procura dessa aventura, da adrenalina, da maluquice é que têm necessidade de procurar este tipo de coisas. Se têm essa hipótese, tudo bem, agora para quem percebe perfeitamente aquilo que lhe enche as medidas acho que não.
IP – A sexualidade é uma coisa vivida de forma muito individual, tal como há várias orientações sexuais, há várias formas de viver a sexualidade. No prazer tudo é válido.
Homem ideal
IP – O meu é o que tenho agora, um homem profissionalmente bem-sucedido, romântico, atencioso, que faz surpresas, que me deixa na expectativa. Em termos físicos, que me preenche. O tamanho é um mito, mais entre eles, porque nós, mulheres, sabemos que não importa. Aliás, muito grande até pode ser desconfortável.
RF – Pois… para mim…
IP – Desculpa, é que tu não sabes, mas eu estou noiva!
RF – Eu se calhar já encontrei o meu amante ideal mais do que uma vez. Não gosto de pensar nas coisas como se houvesse apenas um, acho que tem a ver com fases da vida, com pessoas, com formas de estar, com timings. Fisicamente dou muita importância à pessoa, que tem de me atrair também em termos de inteligência, não consigo lidar com pessoas incapazes de me acompanhar naquilo de que gosto e acho bonito – livros, arte, música. Quanto à questão do tamanho, também acho que é muito relativo, as pessoas acabam por encontrar um encaixe próprio.
 
Por Tânia Pereirinha, fotos Alexandre Azevedo