Sasha Grey traz sexo para a Cultura

Posted on 8/25/2013 by UNITED PHOTO PRESS MAGAZINE


Sasha Grey não é mais aquela garota que grita – e faz – sacanagens. Entre 2006 e 2011, emplacou 271 filmes pornôs e ganhou o status como uma das atrizes mais audaciosas da indústria e lotou sua prateleira de prêmios, como o de melhor cena de sexo grupal, oral e outros ainda mais hardcore. Aos 25 anos, com o cabelo curto e roupas mais comportadas, a norte-americana deixou tudo isso de lado para se dedicar ao que jovens com certo talento querem fazer pelo resto da vida: projetos artísticos. O mais recente deles é o romance Juliette Society, seu primeiro livro erótico, que a trouxe ao Brasil para uma bateria de eventos e entrevistas com diversos veículos brasileiros nesta semana.

A ex-atriz pornô Sasha Grey esteve em São Paulo no Brasil para lançar seu primeiro romance, o livro erótico “Juliette Society”, que será adaptado para o cinema. Mais famosa porn star do século 21, mesmo não tendo os peitões das rivais, ela largou o cinema adulto há dois anos, mas não a pornografia, escrevendo sobre ménage à trois, sadomasoquismo e sexo sujo.

Todo cheia de digressões e referências a diretores como Alfred Hitchcock (“Psicose”), Luis Buñuel (“Viridiana”) e Jean-Luc Godard (“Viver a Vida”), a narrativa do livro acompanha a história de Catherine, uma jovem estudante de cinema que entra para uma sociedade secreta de sexo, formada por gente milionária e poderosa.

Sasha diz ter baseado sua história em coisas que leu, ouviu de pessoas ou que testemunhou. Ela admite que tem muitos pontos em comum com a protagonista. “Eu baseei Catherine em mim mesma quando tinha 18 anos”, admitiu durante o lançamento do livro, numa concorrida tarde de autógrafos que rendeu uma fila recorde na Livraria Cultura, em plena Avenida Paulista.


Cercada de jornalista, blogueiros, fãs, homens, mulheres e simpatizantes, Sasha conversou com todos que lhe apontaram gravadores, papel e caneta ou simples sorrisos, feliz com a recepção recebida. Falante, explicou para Globo, blogs e fãs que a personagem de seu livro é mais careta que ela mesmo. “Nós divergimos, porque eu encontrei a pornografia e ela não tem nenhuma saída para expressar esses novos desejos que sente. E nós temos opiniões diferentes sobre o amor. Eu sou mais positiva, e ela é mais cínica”, comparou.

Questionada se esperava que seu livro agradasse também às mulheres, uma vez que sua base de fãs é majoritariamente masculina, respondeu com um sorriso. “Eu tenho mais fãs mulheres do que você imagina”, comemorou. “As mulheres em geral, hoje, gostam mais de conteúdo erótico. Mas quando escrevi o livro, quis homenagear alguns atores clássicos de literatura erótica, como Marquês de Sade e Voltaire. Eram obras satíricas, divertidas e que refletiam a sociedade e a cultura de seus tempos. Eu quis fazer o mesmo com esse livro. Não importa quem leia, pode ficar excitado ou enojado, mas sempre pode dar uma boa risada”, contou.

Após saber do blog, do livro e do filme de Bruna Surfistinha, Sasha se mostrou interessada em conhecer mais sobre a história da mais famosa garota de programa brasileira. “Eu acho ótimo que ela tenha pegado algo que fazia e transformado em uma coisa maior. Com ‘Juliette Society’ é assim. Mas não é uma autobiografia, de jeito nenhum. Embora ter usado minhas experiências para desenvolver a história também traga autenticidade para a obra”, comparou. “Eu gostaria de ler o livro dela”, assumiu, curiosa.


A atriz, que já está preparando um segundo romance, ainda sem título, diz que tinha planos de estrear na literatura há pelo menos cinco anos. O grande responsável por sua estreia como escritora, porém, foi o sucesso de “50 Tons de Cinza”. “Quando ’50 Tons’ saiu, muita gente me associou com o livro por causa do nome (o título original é “50 Shades of Grey”), então achei que era uma boa hora para tentar escrever, algo que minhas fãs mulheres me pediam para fazer”, contou, destacando que ’50 Tons’ é fantasia, enquanto seu livro nasce de experiências reais.

Por sinal, ela diz que prefere a literatura erótica clássica ao best-seller de E.L. James. “’50 Tons’ não é o tipo de livro que eu goste de ler, mas achei ótimo que ele possibilitou que as pessoas falassem sobre dominação e sadomasoquismo num nível que nunca tinha acontecido antes na cultura pop. Ele chamou a atenção para algo que até então era considerado tabu”, exaltou.

Sasha diz que não faz mais vídeos adultos porque não precisa. Ficou rica, já que a fama lhe permitiu cobrar cachês cada vez mais altos no final da carreira. A fama foi conquistada por sua disposição de encarar fetiches de frente – de todos os lados, na verdade – , e sempre demonstrando muita vontade, enquanto a maioria das estrelas do ramo não passa das posições convencionais.


Ela assume ter decidido calculadamente filmar cenas de sadomasoquismo geralmente recusadas pelas atrizes mais famosas da indústria pornô. “Foi uma decisão bem direta, mas nunca pensei que minhas escolhas alcançariam esse nível. Sadomasoquismo não era parte da cultura em geral, era uma subcultura, e eu queria fazer alguma diferença dentro dessa subcultura quando eu entrei para o pornô”, explicou.

Ainda que houvesse essa lacuna no mercado, ela conta que se dedicou aos filmes de dominação por gosto pessoal, algo que passou a explorar logo após perder a virgindade, pouco antes de rodar seus primeiros filmes. “Definitivamente foi uma escolha pessoal. Eu sentia vergonha da minha sexualidade e dos meus desejos enquanto estava crescendo. Eu tinha essas fantasias e desejos e não sabia explicar porque, não tinha ninguém com quem conversar a respeito. Mas sabia que devia ter mais pessoas como eu. Existem tantos estereótipos negativos cercando tudo o que envolve sexualidade, nas coisas que vão além do papai-e-mamãe…”, filosofou.

Aos 25 anos, Grey continua longe do ela mesma chama de “padrão Jenna Jameson”, ícone pornô de cabelos loiros e seios grandes, que marcou a pornografia nos anos 1990. Sasha não tem as curvas de “mulher-fruta” que tanto agradam ao brasileiro médio. “É um estereótipo porque vende. As pessoas sabem que se colocarem uma estrela ‘padrão Jenna Jameson’ em um filme, vão criar burburinho, mesmo que ela faça um strip por 30 segundos”, disse.


Mas ela fez sucesso fugindo do padrão do mercado, tanto de medidas corporais quanto de ousadia na atuação. Seu corpo de ninfeta apareceu em mais de 270 filmes eróticos, num contraste gritante com as turbinadas por silicone com quem contracenou. E decidiu encerrar a carreira nos seus próprios termos, ao decidir que o ciclo tinha acabado. Tudo graças a Steven Soderbergh.

Em 2009, ela estrelou “Confissões de uma Garota de Programa”, drama indie dirigido por Soderbergh, recebendo menos do que ganhava no início da carreira erótica. “Tive sorte de ter tido esta experiência diferente”, ela pondera. Mesmo que o papel não fosse muito distante de sua realidade. “Sim, interpretei uma prostituta. Mas foi em filme de Steven Soderbergh”, aponta.

A atriz, fã declarada de filmes de arte, conta que é obcecada por cinema desde criança. Após filmar com Soderbergh , que ela considera um “gênio”, e participar de uma temporada do seriado “Entourage”, ela fez alguns filmes de horror e terminou recentemente o longa “Open Windows”, dirigido pelo cultuado cineasta espanhol Nacho Vigalongo (“Extraterrestre”).


Filmado na Espanha e com Elijah Wood (trilogia “Senhor dos Anéis”) no elenco, “Open Windows” conta a historia de uma atriz que é sequestrada por um fã obsessivo. “Eles estão editando o filme, é algo insano. Os efeitos especiais compõe boa parte da história, e sem eles você não tem realmente algo completo”, contou ela.

Seu livro também está prestes a virar um filme. “Espero que aconteça. Estamos negociando a produção”, revelou. Os direitos do livro estão sendo adquiridos pela 20th Century Fox para um filme que será produzido pela Anonymous Content (mesma produtora de “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”) e adaptado pelo roteirista Scott Z. Burns (“Terapia de Risco”). Mas ela ressalta que não pretende aparecer no longa. E se pudesse escolher a protagonista, já tem sua favorita. “Eu adoraria que a atriz principal fosse a Mia Wasikowska (‘Segredos de Sangue’). Ela parece inocente, mas também pode ser forte, você pode ver isso nos olhos dela”, explicou.

Agora que abandonou a antiga carreira, Sasha quer atuar em outras áreas. “Eu tenho outros interesses. Nem todos os projetos nos quais eu irei trabalhar vão lidar com temas de sexualidade. Talvez eu me envolva em projetos de música ou cinema que não tenham nada a ver com sexo”, disse, lembrando que também é vocalista de uma banda de rock industrial, aTelecine.


Ela já planeja escrever uma sequência para “Juliette Society” e sonha em colaborar com alguns de seus diretores preferidos. “Eu adoraria trabalhar com Todd Solondz, cujos filmes eu adoro. Acho que é um dos melhores cineastas que estão na ativa hoje. Eu adoraria trabalhar com Jeff Nichols também. E Michael Mann é um dos meus diretores preferidos. Eu adoro o poder que ele dá às mulheres no cinema”, listou.

Entretanto, seus próximos projetos são dois filmes B de Frank Latina, um produtor do Winsconsin que em 2009 escreveu e dirigiu o trash “Modus Operandi”. Sasha está no elenco de “Snap Shot” e “Skinny Dip”, nos quais vai contracenar com Danny Trejo (“Machete”), Pam Grier (“Jackie Brown”), Doug Jones (“Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado”) e Kumar Pallana (“Viagem a Darjeeling”).

Mesmo sem ter nenhuma vergonha do seu passado, ela tem um entendimento claro de que é difícil se livrar dos estereótipos. “Pornô é o último reduto da mídia que ainda é um tabu, as pessoas tratam como se fosse algo completamente alienígena. Mas elas têm a necessidade de que seja um tabu para que possam fantasiar com isso. Acham que esses ‘super-heróis’ da indústria pornô são algo diferente de tudo o que elas possam vir a ser. Se a sociedade aceitasse o pornô, todos iriam perder o interesse, porque ele deixaria de ser perigoso”, explicou.


“Eu achava que faria pornô por sete ou oito anos e depois criaria minha própria companhia e seguiria no ramo. Mas acabei atuando apenas por três anos”, recorda.

Antecipando o projeto de vida, em 2009 ela abriu sua sonhada produtora de filmes pornôs. “Foi meu primeiro fracasso”, conta. O sonho durou apenas três meses. Segundo ela, o insucesso foi motivado principalmente porque a produtora não se adequava à “caretice” do público médio americano.

Mas o que poderia desanimá-la abriu as portas para outras possibilidades. Cinema, séries, literatura, música. “Eu tinha planos, mas tantas outras coisas aconteceram. Sinto orgulho, às vezes, mas sinto também que tenho muita responsabilidade em não decepcionar”, concluiu, deixando clara sua inteligência, mais um de seus contrastes aos clichês de porn star.