Nem hetero, homo ou bi. Agora com vocês, o pansexualismo

Posted on 9/24/2012 by UNITED PHOTO PRESS MAGAZINE

Hermafrodito Norte da África 
Época Romana Séculos II, III
Desde que Alfred Kinsey fundou o Instituto de Pesquisa sobre Sexo, seus estudos influenciaram os valores sociais, morais e culturais dos Estados Unidos na década de 60, no que diz respeito à sexualidade.

Seus trabalhos foram concomitante ao início da chamada Revolução Sexual e até hoje os conceitos abordados são fundamentais para a compreensão da diversidade. A Escala de Kinsey tentava abarcar as inúmeras orientações sexuais, que vai desde heterossexualidade exclusiva, passa pela bissexualidade, bem no meio da escala, a homossexualidade exclusiva e termina com a assexualidade.

A bissexualidade, especificamente, elege como objeto de desejo homens e mulheres, sem distinção. Não precisa escolher porque não há distinções e a libido direciona-se igualmente para ambos os gêneros.

A androginia, interligada à bissexualidade, por exemplo, recusa as imposições sociais, pois não existe um ideal masculino e feminino para se corresponder. Não precisa renegar em si as características do outro gênero.

Defende-se a ideia que ninguém deve ser fragmentado quanto à sua identidade sexual. A coesão e harmonia entre os gêneros são totalmente plausíveis. Sustentam-se os interesses afetivos, sexuais e posicionamentos sociais.

O bissexual apropria-se da mentalidade androgênica e transfere ao campo dos prazeres a possibilidade de se envolver sexualmente com homens e mulheres, sem cogitar nenhum tipo de indecisão pessoal. Tampouco é medo de assumir uma ou outra orientação sexual, ideia muito difundida na sociedade e que não condiz com a realidade bissexual, que, de fato, posiciona-se de maneira dualista. É diante deste cenário que surge o pansexualismo. O prefixo “pan” significa tudo ou todos e, conceitualmente, uma orientação sexual muito mais ampla do que a bissexualidade.

O pansexual não se limita ao sistema binário, masculino ou feminino, mas seu objeto de prazer abrange homens, mulheres, transexuais, operados ou não, assexuados, drag queens ou drag kings. Os omni-sexuais ou oni-sexuais, termos usados também para designar o pansexual, afastam-se do exclusivismo de gêneros ou do essencialismo do bissexual. As relações estabelecidas acontecem mediante ao prazer vivenciado. O vínculo sexual e amoroso acontece conforme características de personalidade, ou seja, o pansexual se relaciona de acordo com as necessidades e reciprocidades. Rompe as fronteiras dos gêneros e abre um precedente, qualquer um é alvo de seu investimento libidinal.

Essa categoria de gênero dá início a algo para além do masculino, feminino ou transgêneros, que são as pessoas que transitam entre os dois gêneros oficiais, homem ou mulher. O próprio transgênero transformou-se em um leque de tendências. Os pangêneros, por sua vez, convivem bem com o sexo anatômico, muito embora, por uma convenção social implícita, moldam-se e representam papéis sociais de acordo com o gênero do seu sexo oposto, através de roupas, comportamento típico, maneirismo e estereótipos, mas sem se enquadrar a nenhum gênero binário.

É importante salientar que pansexualidade não é condição sexual. Condição sexual está ligada a um aspecto natural como na intersexualidade associada ao hermafroditismo; ou é uma identidade sexual como no caso da homossexualidade. O pansexual está ligado a uma orientação sexual que implica desejo, cuja fluência do prazer vai calcar a busca do objeto de amor, ou seja, o pansexual orienta-se através de suas preferências sexuais. A Identidade de gêneros corresponde a como nos reconhecemos dentro dos padrões de gênero estabelecidos socialmente. Os pangêneros se identificam com os padrões de gêneros e consideram todas as orientações, condições e identidades potencialmente aptas a satisfazer seu desejo.

Diante do fato de a satisfação sexual ainda estar ligada a gênero, o pansexual tende a ter dificuldade quanto a esse preceito social. Estas ramificações sexuais, denominações que mais parecem um grande quebra-cabeça, nos conduzem a possibilidades antes desconhecidas, nas quais nossas identidades de gêneros, moldadas pela sociedade, pela cultura e pela história, não nos permitem vislumbrar a grandiosidade da sexualidade humana. Fato é que os rótulos sexuais segregam e não unem. Transformar nossos preconceitos em compreensão; estender o olhar e enxergar além das denominações e opiniões simplórias e imediatistas deveriam constituir a verdadeira condição de convívio entre os seres humanos.

Breno Rosostolato
Professor de psicologia 
Faculdade Santa Marcelina
Brasil