À procura da conexão perfeita

Posted on 9/30/2012 by UNITED PHOTO PRESS MAGAZINE

Talvez você nem saiba, mas seus traumas, medos e insegurança lhe acompanham até na hora de fazer amor - e podem estar atrapalhando sua realização sentimental. Quem alerta é o terapeuta norte-americano Krishnananda, que recomenda a busca pela intimidade como o caminho para ter uma vida sexual plena.

A conquista da intimidade é fundamental para a felicidade sexual em um relacionamento. No entanto, por intimidade não imagine o despir-se físico frente ao parceiro ou parceira. Trata-se aqui da nudez de traumas, medo e insegurança. Só conhecendo suas fragilidades e compartilhando-as sem temor nem projeção com sua cara-metade é que será possível uma plena realização amorosa. Quem garante é o terapeuta e escritor norte-americano Krishnananda, um dos fundadores do Learning Love Institute (Instituto Aprendendo a Amar, em tradução livre). De passagem por Fortaleza para participar do Festival Internacional Holístico, Krishnananda falou com exclusividade ao O POVO sobre seu método de trabalho. 

OPOVO – Como é possível viver a sexualidade de uma forma plena? 

Krishnananda – Depende de que tipo de sexualidade você quer viver. Se você quer viver uma sexualidade que inclui intimidade é diferente de quem viver uma só de excitação... Porque quando duas pessoas ficam mais íntimas a sexualidade muda. Quando duas pessoas ficam mais perto têm mais vulnerabilidade. Quando estão mais vulneráveis, também têm medo e insegurança. Para duas pessoas continuarem a ter uma vida sexual com intimidade, com uma convivência de anos, você tem que criar um espaço de segurança e é delicado quando entra a sexualidade. Porque no início, a sexualidade pode ser muito quente, ativa, orgasmática, mas depois quando sobem o medo e a insegurança pode ser que isso desapareça. E o corpo pode ficar disfuncional. A mulher pode não conseguir mais orgasmos porque tem medo, porque tem traumas. Assim como o homem. Se o homem se sente pressionado por boas performances, pode ser que tenha ejaculação precoce, que não consiga ereção, que se empenhe para ter um bom desempenho e a mulher não se sinta segura porque ele não está lá, não está lá de coração, entende? Duas pessoas em intimidade têm que saber que vai ocorrer essa mudança. E quando acontecer, tem que saber mais das feridas que carrega. Porque todo mundo traz feridas de insegurança. 

OP – Como conquistar a intimidade num relacionamento?Krishnananda – Nosso trabalho é muito focado: como criar intimidade. Começa em saber o que você entende por intimidade, o que você quer. É preciso saber se você quer crescimento ou você só quer saber como é ter uma relação onde você vai se sentir mais seguro, mais aceito. Depende do que você está pensando. Intimidade é um ambiente de crescimento, é uma maneira de conhecer quem você é de verdade, porque é um espelho. Começa em saber o que você está querendo. Se você encontrar uma mulher, tem que saber que é uma jornada, vão ter conflitos e precisa haver perseverança. Intimidade é a coisa mais difícil do mundo. Você tem que contar todas as suas feridas, medo, insegurança, abandono... 

OP – Feridas, medo, insegurança. De onde eles vêm? 

Krishnananda – Vêm da infância., de abusos, traumas. Traumas de negligência, quando um menino ou uma menina não é realmente amado. Quando não tem amor incondicional, e as crianças crescem com a ferida de não ser amado, de não ser suficiente. Isso cria uma sensação que lhe obriga a fazer alguma coisa para ser suficiente. Você tem que impressionar as pessoas. Você sai de você e se abandona. E quando se abandonando, a intimidade não é possível porque a outra pessoa não encontra você, encontra uma máscara, uma tentativa de ser aceito. Para a intimidade, você tem que saber que eu tenho essa ferida de não ser suficiente, de não me conhecer de verdade. Na intimidade real, você tem que abrir as feridas entre vocês dois. Tem que que compartilhar, tem que ser aceito também com isso. Mas não é procurar uma pessoa para aceitar você. Se eu procuro alguém só para me dar a sensação de que sou suficiente, essa pessoa vai me rejeitar porque ela não quer esse peso. 

OP – Isso implicaria uma relação de dependência.Krishnananda – Isso é muito comum. Também se procuro uma mulher para não me sentir abandonado, ela também vai sentir um peso. Porque não quero esse peso de ter que preencher a sua ferida de abandono. Porque se eu sinto isso, não vou querer intimidade com nenhuma mulher porque tenho tanto medo de ser rejeitado. Você tem que curar isso, tem que saber que tem uma ferida de abandono e precisa sentir isso no corpo, sentir o vazio que tem dentro de você. 

OP – Para uma relação de amor verdadeiro é preciso primeiro cuidar de minhas feridas? 

Krishnananda – Isso. Não é que você cure suas feridas, mas é que você tem que saber que você tem as feridas. Quando você vai para uma relação real, vai com sua bagagem (emocional), com seus pacotes (sentimentais). Nós chamamos isso de “bagagem de feridas”. Muitas pessoas pensam que não têm essas cargas. “Eu amo você! Estou aqui totalmente para você!” Mas na verdade não é assim. No início, na lua de mel é assim, mas depois... Se eu entro numa relação com uma mulher e depois de um tempo ela não está presente para mim como eu gostaria, se eu quero mais sexo e ela não quer, se eu quero mais presença e ela está ocupada, se eu digo que quero que ela me entenda, que ela me dê suporte... Eu estou transferindo para ela toda essa bagagem, não é? Sem saber que eu tenho isso. Eu tenho que saber que eu estou transferindo para ela todas essas coisas. E assim eu posso reconhecer que esse não é o papel dela. Da mesma se ela for muito possessiva, não é?, se ela for muito ciumenta... Se eu faço alguma coisa que provoque seu ciúme, ela pode ficar com raiva, e vou sentir muita pressão. vou pensar: “Poxa, eu não quero isso, quero minha liberdade!”. 

OP – É possível manter a fidelidade em relações duradouras?Krishnananda – Eu acho que sim, mas só se vocês estão crescendo juntos, se aumenta também o diálogo, a comunicação entre vocês, se estão procurando evoluir, fazer terapias, seminários... Se você está crescendo em você. Eu estou há 20 anos com a mesma mulher e é melhor a cada dia, e o sexo é sempre melhor. Nós dois estamos sempre crescendo. 

OP – A qualidade do sexo é fundamental para uma relação?Krishnananda – Depende do que você está se referindo como “qualidade”. Para mim, qualidade é conexão. Para a intimidade não é experiência sexual no sentido de energia. Pode ser, mas a prioridade é conexão com a pessoa. Você tem que ficar conectado com a outra pessoa. Digamos que você está fazendo amor e tem uma coisa que provoca o medo da outra pessoa, pode ser que a outra pessoa se desligue, se desconecte, ela não está mais lá, não está presente. Ela - ou ele também – pode continuar a fazer amor, mas sem estar presente. Nós chamamos isso de “retraumatizar”, porque nesse momento a pessoa que não está mais presente está experimentando um trauma do passado. Pode nem saber qual é o trauma – pode ser um trauma de violência, de negligência. É muito, muito delicado. Então você tem que ter a sensibilidade dessa coisa. E também tem a insegurança. Se você está fazendo amor com alguém – isso acontece mais com homens que com mulheres, porque homem tem mais essa ferida da castração, tem sempre a pressão de estar de “pau duro”, tem que sempre fazer o melhor... Se a mulher percebe que ele está sentindo isso, há a possibilidade de ela dizer: “Espera aí, homem! Eu não quero essa performance, eu quero conectar com você. Se você está se sentindo inseguro, vamos parar e conversar sobre isso”. É mais criar uma sensação, um ambiente em que eu possa falar de tudo, que você não vai me rejeitar se eu tenho medo ou insegurança. 

OP – Foi um caminho difícil chegar a essa linha de pensamento?Krishnananda – Eu fiz muitas terapias, estive em muitos grupos para conhecer essas feridas, porque são muito profundas: abandono, medo, choque... Choque é uma sensação de não sentir nada, de não se sentir presente e seu sistema nervoso quebra. É tão intenso esse momento de medo, que o sistema nervoso desliga. Há muitos anos eu trabalho nisso. Depois quando eu entrei numa relação, você tem que ter perseverança, e também ter uma maneira de resolver conflitos. Se a minha mulher faz uma coisa que me provoca, eu preciso saber porque eu fui provocado. Não é dela a culpa. Não é ela a origem da provocação. A origem está dentro de mim, na minha infância. Eu tinha uma mãe muito controladora. Então, se a minha mulher, que é muito forte, tem essa tendência de ser controladora – e digamos que ela tenha (risos) – vai me remeter a minha mãe... Eu crio uma pessoa que tem similaridade com minha mãe e ela com seu pai. Então, de vez em quando eu não a vejo, eu vejo a minha mãe! Eu preciso saber nesse momento que ela não é mais Amana (a esposa dele), é Ruth (a mãe), não é? (risos). Eu preciso saber que neste momento eu estou totalmente regredido, não sou mais um homem de muitos anos. 

OP – Esta linha de pensamento se aplica a pares homoafetivos? 

Krishnananda – Não tem nenhuma diferença a orientação sexual. A coisa é sempre igual. Todo mundo cria essas dinâmicas em todas as relações. 

OP – Vale busca a intimidade?Krishnananda – Depende do que você quer na vida. Todas as coisas na vida começam com a sua intenção. Se você tem a intenção de conseguir muito dinheiro, você vai criar oportunidades para conseguir isso.


ENTENDA A NOTÍCIA
Krishnananda (nome de iniciado de Thomas Trobe) é um psiquiatra formado em Harvard, com especialização na Universidade da Califórnia. É terapeuta, escritor e um dos fundadores do Learning Love Institute, no Arizona (EUA).
Festival Internacional Holístico
Quando: Até 10 de outubro
Onde: Osheanic Internacional(Av. 13 de fevereiro, 3059, Aquiraz - Prainha - CE)
Programação completa: www.osheanicinternational.com
Outras informações: (85) 3361 1058 / 9901 0003 / 9741 1444