Donna Summer me ensinou tudo que eu queria saber sobre sexo e tinha medo de perguntar

Posted on 5/24/2012 by UNITED PHOTO PRESS MAGAZINE

Não era fácil a adolescência de quem gostava de “disco” e de punk. Ao mesmo tempo. De dia, trancado no quarto, tentando entender o que acontecia com minha cabeça quando eu ouvia pela enésima vez “The Clash” – o álbum de estreia de uma das bandas mais influentes de todos os tempos. De noite, tentando convencer algum porteiro que eu não tinha só 14 anos e merecia entrar nessa ou naquela discoteca para ouvir o último sucesso de Andrea True Connection – acredite: houve mais de um.

Como já disse em várias entrevistas – e martelei à exaustão no meu livro “De a-ha a U2” – minha formação musical foi um tanto bipolar. Se na infância e pré-adolescência eu era submetido a impulsos sonoros tão variados como as coletâneas de Ray Conniff, os batuques de Clara Nunes, o bizarro arranjo de Waldo de los Rios para a Sinfonia 40 de Mozart (!), Chico e Caetano ao vivo, e a trilha sonora de “Sacco e Vanzetti” (que recomendo aqui numa rara gravação ao vivo por Joan Baez) – isso para dar apenas alguns exemplos dos LPs que figuravam na coleção de discos dos meus pais –, quando pude escolher o que queria ouvir, vi-me diante de decisões tão ecléticas quanto essas primeiras audições. Que de certa maneira – e isso, não tenho dúvidas, é algo a comemorar – acabou orientando toda a minha curiosidade musical nesses nem tão cansados assim 49 anos.

Hoje em dia, claro, não tenho o menor problema em declarar descaradamente meu amor equiponderado por, digamos, Gaby Amarantos e Brittany Howard (a vocalista do Alabama Shakes!). Ou minha admiração infinita por Racionais MC, Lady Gaga, Arctic Monkeys, e El Robot Bajo el Água – na mesma intensidade. Não foi um aprendizado fácil, mas, depois de décadas, posso dizer que você só tem a ganhar quando deixa de lado as imposições do seu próprio gosto e decide, como um dia cantou Lou Reed, “dar um passeio pelo lado selvagem” da música. Ou mais…

Quisera eu ter essa sabedoria nos anos 70. Naquela época, ciente do conflito que uma declaração aberta dos meus gostos musicais pudesse causar na minha imagem – e o que mais preocupa a gente na adolescência do que a nossa imagem? –, eu tentava separar as coisas. E, ainda franzino por culpa de um metabolismo que teimava em atrasar, eu via minhas chances de me divertir na incipiente vida noturna que se abria diante de mim sempre maiores se eu abraçasse a “disco” do que o punk. Não obstante, os dois gêneros continuavam a me encantar e a me mostrar as possibilidades do universo musical. Sobre o punk, e a influência que ele teve sobre mim, ainda devo um post (já honrei o desdobramento “natural” do punk, a “new wave”, aqui mesmo neste espaço, e cheguei a falar um pouco mais especificamente do punk quando damorte de Malcolm McLaren; mas ainda devo uma homenagem decente ao gênero, eu sei). Sobre a “disco” – que também já apareceu aqui pegando carona em um ou outro assunto –, a morte de Donna Summer inevitavelmente inspirou-me a falar sobre esse período que muitos só conhecem por duvidosas “noites do flash back”, ou por esporádicas aventuras em antigas coletâneas empoeiradas nas casas de parentes e amigos mais velhos.

Para quem tem menos de 40 anos (ou talvez menos de 50… tenho que me conformar com isso), é difícil imaginar hoje que um som que faz parte do nosso “ouvido coletivo” um dia soou como inovador e excitante. Injustamente rotulado de “divertido, mas sem conteúdo”, o “disco sound” foi imediatamente relegado ao plano hedonista mais superficial do convívio social – a busca por um prazer sem compromisso, que, não surpreendentemente, era a tônica dos anos 70. Mas que longe de ser chato, era sensacional – e transgressor. Quando vejo uma reportagem atual sobre jovens que viram a noite e se divertem em baladas que muitas vezes extrapolam o que se poderia chamar de diversão saudável, eu tenho vontade de chamar essa “galera” que se acha muito louca e contar algumas das histórias dos anos 70… Mas eu divago…

Em nome da transparência, devo dizer que eu era dos mais comportados nessa época. Talvez prejudicado por uma entrada precoce no colégio – que me colocava cerca de 2 anos abaixo da faixa etária dos meus amigos de classe (um “abismo” irrelevante depois dos 25 anos, mas que é temerário quando seus anos ainda começam com o algarismo 1) – eu nem sempre era incluído nas “baladas” de então. Mas eventuais escapadas, e inúmeros relatos (quase todos parcialmente mentirosos, mas mesmo assim…) de festas e noitadas sonorizadas pelo estado de espírito descuidado do final dos anos 70, iam me permitindo montar um retrato de uma época que, se não foi das mais enlouquecidas do século passado, certamente foi uma das mais divertidas.

Parte dessa minha sensação de não pertencer ao grupo com que eu convivia – ou mesmo à época em que vivia – tinha a ver com meu atraso (certamente atrelado ao tal atraso do meu metabolismo) em descobrir as possibilidades eróticas e de atração e sedução do meu corpo. Novamente, fica difícil para meninos e meninas de 14 anos hoje em dia, que geralmente não pensam das vezes antes de mandar um detalhe de sua intimidade por foto no whatsapp para seu namorado ou namorada “firme” (de cerca de duas semanas), banhados em pornografia acessível em menos de dois cliques em qualquer “smartphone” – enfim, fica difícil para essa geração atual imaginar que a sensualidade adolescente um dia já foi realmente uma descoberta, um processo perigoso, assustador e extremamente prazeroso, que dependia muito mais de ousadias internas do que de uma rede social virtual.

Nos meus distantes 14 anos, tudo que eu queria saber sobre sexo eu tinha realmente medo de perguntar – como sugeria o livro “clássico” dos anos 60, assinado pelo médico americano David Reuben (adaptado livremente para o cinema por Woody Allen, em 1972) –, todas as dúvidas que meu corpo nem sempre sutilmente me fazia começaram a ser respondidas quando eu ouvi, pela primeira vez, “Love to love you baby”, na voz de Donna Summer.

Naquela época – pasme! –, quando a gente ouvia uma música nova, era no rádio (como a própria Donna Summer gravaria em ou outro “hit” de sua carreira). Essa primeira vez com “Love to love you baby” foi provavelmente nas ondas da Rádio Excelsior (“A máquina do som” – e se você tiver minha idade, tenho certeza de que deu um sorrido quando leu isso… mas eu divago). Fui pego totalmente de surpresa com a reação que a música provocava a princípio nos meus ouvidos – e, mais tarde, alhures. Mais que o refrão (o próprio título, repetido “ad infinitum”), o que ficou na minha cabeça foi a estranha impressão que o rádio do carro não era um lugar adequado para se ouvir “aquilo”. Meu quarto, no escuro, parecia ser uma opção bem mais adequada. E foi lá que fui ouvir meu primeiro LP de Donna Summer – comprado, claro, na Hi-Fi da rua Augusta, em São Paulo.

Só muito tempo depois fiquei sabendo que “Love to love you baby” havia sido banida em várias rádios americanas e européias (inclusive a BBC inglesa) – e quando li isso, pareceu-me uma reação, se não justa, plausível para a época. O que Donna Summer cantava era a coisa mais próxima do sexo explícito possível de ser traduzido em notas musicais. Por trás dessa magia havia um nome: Giorgio Moroder, um genial produtor musical italiano (mas baseado nos Estados Unidos), que praticamente inventou esse som. Na voz de Summer, ele encontrou o veículo perfeito para criar uma escola musical, que inspiraria, a partir da segunda metade dos anos 70, centenas de imitadores em incontáveis pistas de dança.

Na sequência de “Love to love you baby”, veio uma série de faixas se não tão poderosas, ao menos tão insinuantes quanto esse seu primeiro sucesso. Uma delas, para você ter ideia, chamava-se “Try me, I know we can make it” (algo como “Experimente-me, eu sei que podemos fazer alguma coisa”…); e outra, um “melo” romântico na versão original de Barry Manilow, ganhava conotações mais que insinuantes na interpretação de Summer: “Could it be magic”, cujo refrão “Come, come, come into my arms”, podia ser ouvido tanto como um contive para o abraço quanto como uma súplica para que o parceiro amoroso tivesse um orgasmo bem no meio dos braços de quem cantava – e como a intérprete era Donna Summer, você pode imaginar que versão as pessoas preferiam entender… E depois disso veio “I feel love”.

Nunca ouvi? Faça a você mesmo esse favor e dê um clique no título da música acima – para a gente poder continuar (sim, já está longo o post de hoje – e vem mais!). Na sua versão mais enxuta, de quase seis minutos, “I feel love” é – curto e grosso – uma “rapidinha”. Vários remixes – e algumas regravações memoráveis (como a do Bronski Beat com Marc Almond) – ampliaram ainda mais o potencial erótico dessa obra-prima, mas nada supera a perfeição do original de Summer. Quem nunca teve uma noite de sexo embalada por “I feel love”, não sabe o que está perdendo…

O que poderia ter sido uma breve carreira impulsionada por um “truque de uma nota só” – no caso, músicas sensuais para uma época de excessos – acabou servindo como uma bela introdução para uma história que atravessaria mais de uma década. Aos poucos, Donna Summer foi ficando mais romântica e menos erótica – Madonna, claro, pegaria esse título para si ao longo dos anos 80. Nem por isso, Summer deixou de enfeitiçar nossas noites (e algumas matinês!) dançantes. Como citei no post anterior, minha faixa favorita na sua voz é “Heaven knows” – e ela já é de 1979, quando suas canções caminhavam mais na direção do seu coração do que de sua virilha. Assim mesmo, é mais um clássico, junto com toda a “Suíte MacArthur Park”.

“Bad girs”, “On the radio”, “Last dance”, o incrível dueto com Barbra Streisand “No more tears”, “Hot Stuff”, “Dim all the lights” (talvez a minha segunda música favorita da cantora), e mesmo a tardia “This time I know it’s for real” (que é de 1989) – Donna Summer parecia não errar nenhuma nota! A combinação perfeita de um refrão impecável e imediatamente reconhecível com batidas que, ao contrário de oferecer um estilo monótono, explodia em inventividade (na sua interpretação, todo mundo era capaz de dançar até um pastiche de charleston chamado “I remember yesterday”!), fez com que o catálogo de suas músicas se transformasse num dos mais sólidos do século 20. E com uma vantagem: ao contrário de várias estrelas da era da “disco”, suas músicas não envelheciam. São, obviamente fruto de uma época muito específica. Mas como as boas canções atemporais que o pop já criou, elas falavam com todas as gerações – e digo sem medo de errar que falam até hoje.

Por isso sua morte, no último dia 17, mexeu com tanta gente. Na mesma semana, o pop perdeu outra voz bastante conhecida dos anos 70 – Robin Gibb, dos Bee Gees. Mas enquanto esse ótimo artista ficou relegado a algum lugar do passado, Donna Summer parece que estava sempre perto da gente. Mesmo com uma produção artística bastante rarefeita nos últimos 20 anos (sem falar de certas controvérsias de sua vida pessoal, que cheguei a discutir com ela numa entrevista que fiz no final dos anos 90), sua presença era não só sentida em todas as festas como desejada e aplaudida. E assim vai ser enquanto as pessoas gostarem de dançar.

O que eu acho que vai acontecer por muitos e muitos tempos.

O refrão nosso de cada dia

“Intergalactic”, Beastie Boys – em uma temporada que definitivamente não é uma das mais alegres para o pop, faço uma pequena homenagem a outro ídolo que perdemos: Adam Yauch, do Beastie Boys. Estive com eles uma vez só, nos idos de 2006 (e até escrevi sobre este encontro aqui) – pouco, para retribuir a minha admiração que eu tinha pela banda e, em especial, por Adam “MCA” Yauch. Sim, sim: ia precisar de um outro post só para escrever sobre isso – mas hoje o espaço maior foi de Donna Summer. Ao meu Beastie favorito – não só pelo lado musical como pelo lado ativista (era uma das figuras mais importantes no movimento pela independência do Tibete) –, deixo aqui um singelo e modesto tributo, lembrando a todos, com o surreal “Integalactic” como ele foi anarquicamente fundamental para a história do pop.

Zeca Camargo