Amor e sexo

Posted on 5/18/2012 by UNITED PHOTO PRESS MAGAZINE

Regina Navarro Lins, escritora e jornalista
Uma das mais respeitadas psicanalistas e sexólogas do Brasil, Regina Navarro Lins, escritora e jornalista, está deixando os conservadores de cabelo em pé. Entre suas colocações está a de que o relacionamento extraconjugal não pode ser visto como uma traição, recusando-se a empregar o termo infidelidade quando fala sobre o assunto: “As pessoas precisam se sentir bem quando estão sozinhas, parar de achar que está faltando um pedaço. É como se o parceiro tivesse o papel de suprir suas necessidades”. Na sua concepção, o que leva à separação é o fato de o casal começar a fazer concessões até que as frustrações aumentam e fica insuportável estar junto. Ou seja, é preciso mudar a mentalidade até na educação dos filhos.

Regina indaga por que as pessoas não têm tempo para nada, como administrar dois relacionamentos: “Os padrões de comportamento estão mudando, as pessoas estão percebendo que não é preciso ficar 24 horas grudadas. Elas podem abrir um espaço e encontrarem-se uma ou duas vezes na semana. Mas criar modelos é que está errado, todo mundo fica meio parecido, as singularidades dançam. Como o amor é romântico, povoa as mentalidades há muito tempo - é a maior propaganda do Ocidente - todo mundo acha que tem que achar a sua metade e isso gera sofrimento”.

Para ela, esse comportamento teria que ser aprendido na infância, como os orientais, que estão melhores do que os brasileiros nesse aspecto porque desenvolveram a capacidade de estar sozinhos, meditando: “As pessoas costumam até responder que estão bem, mas ficar sozinha é como se fosse um empecilho para ser feliz. Essa mentalidade tem de ser mudada, a pessoa não pode se sentir diminuída por conta disso. Em caso de precisar de amor, os amigos podem tirar essa ideia de que é preciso um alguém ao seu lado”.

A pergunta mais recorrente é se sexo e casamento são incompatíveis: “Os padrões de comportamento estão mudando e as pessoas ficam um pouco assustadas porque não há modelos em que se apoiar. É assim que elas têm chance de descobrir a forma como querem viver, sem copiar ninguém. Sexo e casamento só geram sofrimento no modelo de casamento que está aí, mas, daqui a alguns anos, as pessoas irão optar por um outro caminho, que pode não ser o de uma vida a dois, simplesmente não existirão leis. A falta de sexo no casamento é um problema sério, porque as pessoas precisam de sexo. À medida em que vão aumentando o carinho e a solidariedade, o desejo diminui. Muitas mulheres adoram o marido, mas não querem mais fazer sexo, e a outra parte sofre muito quando um dos dois não quer. Sente-se rejeitada.

Algumas regras precisam ser mudadas, começando pela exigência de exclusividade sexual, porque, mesmo sem verbalizar, já está explícito que quem se casa deve exclusividade sexual ao parceiro. Mas as pessoas precisam entender que amor e sexo são distintos, inclusive que amar não significa ser só um. Regina acrescenta: “Os casamentos encurtaram depois que o amor entrou na história. Durante muitos séculos, as uniões duravam porque não existia expectativa de romance ou de prazer sexual. Ninguém se decepcionava, ou seja, o marido tinha de prover e respeitar, ao mesmo tempo em que a esposa tinha que ser dona de casa e boa mãe. Mas no momento em que se passou a procurar realização afetiva e prazer, o casamento melou”.

Sob o impacto da AIDS, Regina deixa bem claro que, em toda a história da humanidade, o sexo só foi livre no período da pílula, ressaltando que prevalece uma negação da doença: “Todo mundo sabe que ela é contagiosa e fatal, mas, no entanto, milhares de mulheres aceitam transar sem camisinha. Mesmo que elas exijam camisinhas, depois de um mês de namoro, já liberam. Mas não foi só a AIDS que travou a liberdade sexual. Houve, sim, um movimento de repressão do sexo. Mas um dos problemas da AIDS, hoje, são os maridos que têm relações bissexuais e contaminam suas esposas, mas a culpa não é da bissexualidade, e sim da monogamia hipócrita que faz o homem não usar camisinha com a mulher em casa”.
Apesar de tudo, as mulheres se queixam da solidão e Regina explica: “Eu montei um grupo de trabalho com 10 pessoas que se sentiam sozinhas, e dessas, oito eram casadas, uma solteira e outra viúva. As pessoas adoram afirmar que antigamente era melhor. Não era! Hoje o idoso tem muito o que fazer, ou seja, ter ou não um parceiro não tem nada a ver com a solidão.

Afinal, como desvincular a realização afetiva e prazer sexual? “Durante muitos séculos, mulheres não encontravam a satisfação sexual dentro do casamento. Homens casavam para ter uma esposa e filhos e perdiam os bordéis, enquanto as mulheres consideravam o sexo uma obrigação”. Se hoje o homem não espera a mulher estar excitada e não se preocupa com ela na relação, imagina como era há algum tempo. Mas as coisas mudaram e mesmo que exista relação afetiva com prazer sexual, não se prolonga. Todo mundo se separa porque existe amor no casamento e antes era só um contrato, mas é possível se casar para ter prazer na companhia um do outro, sem desejo. É um peso muito grande para a pessoa satisfazer o outro em todos os aspectos.

Uma das soluções, sem dúvida nenhuma, para a psicanalista, é morar separado. E Regina esclarece: “Morando junto ou separado, se não houver respeito ao espaço do outro, não funcionará. Cada um tem o direito de fazer da sua vida o que quiser, e inclusive há quem more separado e ainda assim controle a vida do outro por telefone. O fato de ser obrigado a dormir com a pessoa todo dia é uma boa ideia e pode ajudar um pouco, mas, ainda assim, tem que haver respeito à liberdade do próximo. Não é uma solução, mas pode ser um facilitador”.

Quanto ao amor romântico ela afirma que funciona por um tempo, mas se é calcado na idealização, deixa de dar certo. Mas se o casal não tiver muito contato, funcionará bem. Mas é no dia a dia que se conhece a pessoa com quem se está relacionando de fato. “As pessoas precisam se sentir bem sozinhas, parar de achar que está faltando um pedaço. Quando a pessoa encontra outra, o casamento cria simbiose e elas ficam dependentes. É como se o parceiro tivesse o papel de suprir suas necessidades, e aí começam a fazer as concessões, até que as frustrações irão aumentando ficando insuportável estar junto”.

Concluindo, a maioria das pessoas sabe que tem de mudar, e que ninguém é condenado por não querer vestir a mesma roupa todo dia.