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O debate sobre a baixa na libido
Posted on 1/11/2010 by UNITED PHOTO PRESS
Desde que o Viagra apareceu em cena, uma década atrás, a indústria farmacêutica procura algo similar para as mulheres – o que é chamado jocosamente, por certos pesquisadores, de “viagra cor-de-rosa”.
As companhias vêm testando uma série de potenciais produtos que incluem sprays nasais, pílulas, adesivos para a pele e injeções – todos projetados para melhorarem o desempenho sexual feminino. No próximo ano uma indústria farmacêutica alemã espera conseguir o aval do FDA (orgão que controla os medicamentos) americano para uma dessas drogas. E vários médicos já indicam, por conta própria, que mulheres tomem injeções de testosterona para tratar o “problema”.
Alguns psicólogos até concordam com essas promessas. Normalmente trabalhando junto às indústrias farmacêuticas, como consultores e analistas, esses profissionais estão ansiosos para adotar novas técnicas de tratamento para o baixo desejo sexual feminino.
Outros, entretanto acham que trazer tratamentos terapêuticos baseados em fármacos para um problema complexo é um absurdo. Para esses, os esforços para um novo medicamento – e mesmo para o diagnóstico do problema como doença – representa a transformação em patologia de uma variação natural do corpo feminino para que alguém lucre com isso.
Barreiras metológicas
Estudos mostram que, em média, 40% das mulheres americanas apresentam sinais de transtornos sexuais relacionados com o desejo. (saiba mais sobre o assunto aqui)
Mas um dos problemas enfrentados pelos pesquisadores é saber como medir a complexidade dos transtornos sexuais, diz o psicólogo Leonard Derogatis, professor associado da Escola de Medicina Jonhs Hopkins. No caso dos homens, exemplifica o pesquisador, eles funcionam quase como uma máquina, com botões de ligado e desligado, enquanto as mulheres seriam máquinas muito mais complexas do que isso.
Outra questão, diz Derogatis é sobre não haver um “padrão ouro” para o problema. Até então não há escalas que possam medir o nível do problema. Derogatis, entretanto, trabalha em uma escala designada “Entrevista de Diagnóstico do Interesse Sexual Feminino”, com a qual ele espera cobrir uma lacuna na problemática. O estudo que resultou nessa escala foi publicado no periódico Journal of Sexual Medicine em 2008.
Derogatis também é contra os críticos que dizem que toda essa discussão não passa de uma grande campanha de marketing para quando chegarem os medicamentos à farmácia. “Ninguém nunca disse que a disfunção erétil masculina era um mito, que estava na cabeça dos homens e que a história havia sido inventada pelas companhias farmacêuticas, então é perfeitamente possível adotar a mesma postura quanto aos problemas femininos”, afirma.
Sheryl Kingsberg, presidente da Sociedade Internacional do Estudo da Saúde Sexual da Mulher, também concorda que as mulheres preciam de mais opções nos tratamentos de seus problemas sexuais. “A prevalência de problemas sexuais femininos é tão grande que tudo o que for feito por elas para ampliar o leque de opções para alivá-las é interessante.”
Kingsberg aponta, entretanto, que não é para todos os casos que o tratamento poderá funcionar. “Se alguém está infeliz com o cônjuge, não há testosterona que irá resolver isso.”
A “medicalização” da sexualidade feminina
Outro time de psicólogos não concorda com intervenções farmacêuticas para esse tipo de problema. “Não é que não haja problemas sexuais”, argumenta Leonore Tiefer, professora de psiquiatria da Universidade de Nova York. “A questão é como você classifica isso, como você decide decide quando isso é um problema e como se organiza para resolvê-lo.”
Tiefer se diz convencida de que as questões físicas são uma porcentagem realmente pequena dos problemas sexuais femininos. A pesquisadora se diz preocupada com os efeitos colaterais desses novos medicamentos, interação com outros tipos de medicação e as consequências a longo prazo para a saúde feminina.
Além disso, Tiefer se diz preocupada com o diagnóstico da falta de libido como uma disfunção, e o seu tratamento com drogas, o que simplesmente apaga as diferenças das respostas sexuais de homens e mulheres, ignora o aspecto relacional do sexo e assume que todas as mulheres podem ser tratadas do mesmo jeito.
“O modelo médico para o problema diz que o funcionamento sexual correto é regular, rotineiro, mensurável, envolve orgasmos e ponto final”, diz Tiefer. “Esse modelo não diz nada sobre a amplitude do prazer, variações entre as pessoas e a diversidade.”
Além disso, ela afirma que pesquisas não mostram que há realmente uma correlação entre níveis de testosterona e desejo.
Leanne Nicholls, psicóloga clínica do projeto inglês Avon and Wiltshire Mental Health Partnership Trust aponta que um estudo publicado no periódico Feminism & Psychology diz que as maiores dificuldades relacionadas com o sexo entre as mulheres tem a ver com problemas no relacionamento (60%) contra apenas 7% de problemas de fundo clínico.
“O mais importante para as mulheres é o fator relacionamento”, diz Nicholls. “É um tanto estranho que sistemas classificatórios biomédicos simplesmente descartem isso.”
Derogatis defende que o tratamento psicológico deve sempre acompanhar um possível tratamento farmacêutico. “Não estamos contra eles [os psicólogos]”, diz Derogatis, enfatizando que as pesquisas estão abertas a colaborações entre psicólogos e médicos. “Queremos fazer isso em conjunto”, finaliza. Mas o debate continua.