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Amor, sexo e morte
Posted on 10/06/2009 by UNITED PHOTO PRESS
Desde a Antiguidade, o amor é cantado em verso e prosa. Inspira os poetas e enseja a ideia de que de dois se possa fazer um. Foi mesmo essa a primeira história da psicanálise: uma história de amor que deu lugar ao conceito de transferência. Lacan comenta que Freud o descreve como sendo o fundamento e a base do mundo. No entanto, o próprio Freud não construiu uma só teoria sobre o amor. Há versões sobre o amor também na cultura, mas é desde a leitura herdeira dos ensinos de Freud e Lacan que a psicanálise as aborda.
Por ocasião do seminário sobre Os Escritos Técnicos de Freud, Lacan destacou três paixões do ser: amor, ódio, ignorância. Um alerta para a necessidade de considerar a presença dos três na dimensão da transferência. Até então, a ignorância não era nomeada entre os componentes primários da transferência, no entanto, as duas possibilidades do amor e do ódio não se engendram na transferência sem essa terceira paixão. Sabemos, desde Freud, que o sujeito que entra em análise coloca-se sempre na posição daquele que ignora. Freud põe ênfase nas vicissitudes mais evidenciadas da experiência da análise, amplamente conhecidas e alvo, muitas vezes, de chistes espirituo-sos, em que o analista transforma-se no amado supremo e no agredido predileto, tributário da relação com o outro, através desse lugar que é o do analista. Dinâmica essencialmente aberta, sempre por se restabelecer, em que o saber falha, traído/revelado pelos equívocos, quando a verdade se pluraliza, dando lugar à variedade da verdade, abrindo para a inovação.
Freud defendeu que os seres humanos não têm na sexualidade apenas a obtenção de prazer, mas a veem ao mesmo tempo como um fardo e uma tentação. Além disso, o grande mestre da psicanálise nos ensinou que a morte é o corolário do sexo, dado que só os seres sexuados morrem, que “a vida empobrece quando a mais alta aposta no jogo da vida, a própria vida, não pode ser arriscada”.
Na clínica psicanalítica pode-se ver com clareza estes elementos agirem sobre o sujeito. Amor, sexo, morte chegam a se avizinhar quase como sinônimos e, com cada um, de um modo singular.
Das relações entre os três termos que compõem o título, a existente entre sexo e morte configura-se como um tema clássico em psicanálise. A junção desses dois termos está associada a um avanço de Freud com relação à sua teoria das pulsões. Já no campo lacaniano, está ligada às elaborações do mestre francês sobre o gozo, de modo que o amor é uma resposta, mas não é uma solução. Nas palavras de Octavio Paz, “(...) por ser temporal, o amor é, simultaneamente, consciência da morte e tentativa de fazer do instante uma eternidade. (...) Não nos livra da morte, mas nos faz vê-la cara a cara.” O amor surge como fruto de uma perda, perda de uma sexualidade natural, de um sexo animal. O amor vem, então, em socorro da relação sexual que não há. Mas o que quer dizer não há relação sexual? No Seminário 20 – Mais, ainda, Lacan coloca a impossibilidade da relação sexual ao falar do engano do amor, dizendo que “não há relação sexual”. Este brutal aforismo diz o que não pode ser dito: não há..., não proporção, não encaixe, não complementaridade. Mas, obviamente, isto não exclui a existência de relações sexuais.
Entre o sexo perdido e o amor inventado está a palavra. Se o ser falante opera o sexual com as palavras é porque a sexualidade não é de nenhum modo natural. A sexua-lidade está capturada nas palavras. Para aqueles que não creem no efeito da palavra, e ainda assim se dizem psicanalistas, Lacan adverte: “As pulsões são o eco no corpo, do fato de que há um dizer.” Para nós, psicanalistas, que trabalhamos com a palavra, ele propõe um ato analítico em que o desejo possa passar ao amor sem reduzir-se às insígnias de um ideal narcísico.
E, se na clínica psicanalítica a tríade amor, sexo, morte se descortina linguageira no divã, mostrando toda sua singular dimensão, é porque na vida cotidiana essa mesma dimensão se revela nos encontros e desencontros, nos amores e desamores, com indomável força pulsional.
Estes temas tão atuais quanto envolventes serão discutidos nas Jornadas de 25 anos da Maiêutica Florianópolis – Instituição Psicanalítica, que comemora com trabalho o percurso institucional na psicanálise, e que será realizada no auditório da Fecomércio nos dias 16 e 17 de outubro. Participarão dos debates, psicanalistas convidados de Florianópolis, Cuiabá, Curitiba, Rio de Janeiro e Buenos Aires. Está confirmada também a presença de Donaldo Schüler, mitólogo e literato, que fará a conferência Orfeu e Eurídice.
* Psicanalistas, membros da Maiêutica Florianópolis – Instituição Psicanalítica