“A liberdade sexual é uma utopia”

Posted on 8/15/2009 by UNITED PHOTO PRESS

Conhecida por narrar sua vida sexual livre e muito intensa, a escritora francesa Catherine Millet se roeu de ciúme ao descobrir que o marido seguia a mesma regra. Ela fala sobre esse conflito, que é tema de seu segundo livro Por Amarílis Lage.

Relacionamento aberto? Utopia. A constatação acima vem com o peso da experiência: a francesa Catherine Millet, 61, adotou a liberdade sexual como regra já em seus primeiros relacionamentos e não abriu mão dela nem quando se casou com o escritor Jacques Henric. Crítica de arte e fundadora da conceituada revista Art Press, ela causou estardalhaço ao relatar suas experiências sexuais no livro A Vida Sexual de Catherine M., de 2001.

Já nas primeiras páginas, há o relato de uma suruba, da qual ela participou pouco depois de ter a primeira transa aos 18 anos. Nas surubas seguintes, chegou a participar de eventos com quase 150 pessoas.O que parecia natural para ela começou a ser questionado quando Catherine achou fotos de uma das amantes de seu marido. O ciúme intenso que a dominou e que a levou a espionar a vida sexual de Jacques nos anos seguintes é narrado no livro A Outra Vida de Catherine M., recém-lançado no Brasil.

A experiência, diz, foi quase patológica.“Escrevi A Vida Sexual... como forma de escapar do meu analista”, brincou a autora, em uma entrevista coletiva durante a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), no início de julho, após declarar que o processo de escrita foi transformador. Suas roupas sóbrias e sua voz pausada desfaziam qualquer imagem de mulher sedutora que as obras poderiam sugerir. Pergunto se ela acha que os livros, tão confessionais, mostram quem ela realmente é. “O autor escolhe o que vai mostrar”, ela diz. “E já me disseram que, apesar de eu falar coisas tão íntimas da minha vida, permaneço misteriosa.

”No livro A Outra Vida de Catherine M., você é bem dura consigo mesma, quando critica seu egocentrismo, seu ciúme... Mas não percebi nenhum sinal de raiva contra Jacques ou uma crítica aos casos extraconjugais que ele tinha. Por que reagiu assim? Nós tínhamos um contrato não escrito: nós nos autorizávamos a liberdade sexual. Jacques viveu essa liberdade, assim como eu a vivi, então não havia uma traição. Havia um acordo. Eu não podia acusá-lo de haver me traído porque, a princípio, nós dois estávamos de acordo com essa liberdade sexual. E é verdade que eu jamais, durante toda essa crise, tive ressentimento ou agressividade contra ele.

Eu não recriminava seus atos. Eu recriminava a mim mesma, por sofrer.Mas por que você se recriminava? É natural sofrer em uma situação assim. Sim, mas nós sempre queremos fugir desse sofrimento (risos). E, para mim, esse sofrimento não era natural. A crise que eu atravessei teve aspectos patológicos. O ciúme que eu experimentei era mais que um sentimento natural, era quase uma doença da alma e se transformou em uma obsessão. Eu estava obcecada.

Você relatou também ter sentido ciúme em relacionamentos anteriores, como o que viveu com um ex-namorado, Claude... Sim, mas aquele ciúme era menos profundo, não se transformou em uma obsessão, como no caso com Jacques. Nesse caso com Claude, sim, era um ciúme mais natural. E onde está a diferença? Acha que o ciúme está conectado ao amor? Sim, claro. Mas, na verdade, acho que a raiz do ciúme é sexual. E que esse ciúme se exprime de modo mais direto quando existe também o sentimento amoroso. Falando em sexo, você conta em seus livros que suas experiências sexuais não tinham como meta sentir prazer. O que você buscava? Encontrar as pessoas (risos).

Para mim, a relação sexual fazia parte de um relacionamento normal com os homens. Se eu tivesse prazer nessa relação, tanto melhor. Mas, se não tivesse, não era algo grave – eu poderia ter outro encontro no qual talvez sentisse prazer. Para mim, a relação sexual era algo que vinha no meio de todas as outras coisas: a discussão, o trabalho em equipe, todas as atividade da vida estavam misturadas. O sexo não tinha uma importância particular. Entretanto, você escreveu que as suas experiências sexuais pareciam um pouco desconectadas das suas outras esferas de vida.

Como se existissem duas Catherine. Elas se tornaram separadas a partir do momento em que eu passei a viver com o Jacques, para que esses encontros sexuais que eu tinha não entrassem em conflito com essa relação de amor. Eu vivia essas experiências como se fosse uma outra Catherine que as vivenciasse. Era um tipo de arranjo comigo mesma para que a mulher apaixonada por Jacques não estivesse em conflito com a mulher que vivia a sua liberdade sexual. É por isso que eu separei as coisas. Na sua opinião, esse conflito entre a liberdade sexual e a vida amorosa é inevitável? Ou é possível conciliar as duas coisas? É inevitável.

Acho que esse contrato não escrito entre Jacques e eu, de respeitar a liberdade sexual um do outro, era uma utopia. A liberdade sexual, como sonhada pela nossa geração, de maio de 1968, era certamente uma utopia. Você acha que viver a liberdade sexual é mais difícil do que optar por uma relação monogâmica? Não. Na verdade, acho que a liberdade sexual é até mais fácil do que a monogamia. Então, por que você a considera uma utopia?

A liberdade sexual é uma utopia na medida em que ela não proporciona a serenidade – para assegurar essa liberdade, será necessário estar sempre em combate, em uma luta. E é uma utopia, também, na medida em que ela não vai evitar o nosso sofrimento. Como aquele que é causado pelo ciúme. Eu sabia que essa obstinação inquisitorial levava ao vício.

Os sintomas foram a repetição mais frequente dos atos, a necessidade de dores mais fortes. Logo, os papeizinhos encontrados ao acaso não foram mais suficientes, e fui procurar no fundo dos bolsos. Cometi dois ou três furtos: uma folha de bloco (...) e a foto de uma jovem nua (...). Não as guardei com o objetivo de mostrá-las a Jacques para acusá-lo. Elas foram se juntar à desordem das minhas gavetas. De vez em quando, olhava para elas (...) Sua única função era relançar o puro abandono na dor.