Catherine Millet fala sobre sexo e ciúmes na Flip
Libertina escritora francesa conta sobre o ciúme que sentiu do marido. Domingo (5) foi o último dia da Festa Literária Internacional de Paraty.

A escritora e crítica de arte francesa de Catherine Millet, autora do livro 'A vida sexual de Catherine M.', emque contava em detalhes sua vida de 'serial lover'. Na mesa 'As sem-razões do amor', com a participação de Maria Rita Kehl, fala sobre sexualidade e a crise de ciúmes do marido, com quem vive um relacionamento aberto, e que rendeu o livro 'A outra vida de Catherine M.'
A psicanalista Maria Rita Kehl precisou se conter para não transformar a mesa As sem-razões do amor numa sessão de psicanálise: Cathérine Millet é um prato cheio para qualquer divã. É verdade que, em alguns momentos, Maria Rita não resistiu à tentação de enveredar por um jargão ligeiramente fora de lugar, cheio de “interditos” e “recalcados”, o que me parece uma forma involuntária de fugir do assunto que, afinal de contas, realmente interessa nos livros da escritora: as suas aventuras sexuais. Ainda assim, Cathérine, cuja expressão angelical não cansa de me impressionar depois do que li, disse coisas interessantíssimas, a propósito de seus dois livros, A vida sexual de Cathérine M. (surpeendentemente esgotado: me parece que a editora comeu mosca) e A outra vida de Cathérine M. (Jour de souffrance, no original). Exemplos: “A minha crise de ciúme passou quando me dei conta de que ela me dava um prazer masoquista.”
“Não existe ciúme verdadeiro que não seja sexual. A crise não teve nada a ver com amor, sentimento que não estava em questão na minha relação.”
“Sempre tive um duplo olhar sobre as coisas: quando eu tinha relações sexuais, eu via os meus parceiros, mas também via a mim mesma na cena. Isso cortava um pouco o meu prazer, porque penso que o prazer sexual intenso depende de um abandono total. Mas talvez esse outro olhar que me acompanha sempre seja, justamente, o olhar do escritor.”
“Pratiquei muito sexo grupal, em clubes ou com grupos de amigos, mas continuei tendo meus tabus. Justamente imaginar Jacques Henric fazendo amor com outra mulher era algo inconcebível. Mas era nisso que eu pensava quando me masturbava.”
“Não escrevo para me curar de alguma coisa, mas para me desembaraçar de mim mesma. A escritura apaga a memória primária das coisas, a ponto de eu não ter mais certeza de ter vivido tudo aquilo sobre o que escrevi.”
“A liberdade sexual foi algo natural para mim, entrei nela como num jardim cheio de flores perfumadas. Meus pais brigavam muito, e minha mãe tinha um amante. Desde cedo percebi que a família não era um valor absoluto. Então não se tratou de uma transgressão contra pais tradicionais”.