Trecho do livro "Sexo no Capitólio", de Jessica Cutler

Posted on 12/01/2008 by UNITED PHOTO PRESS

Capítulo 1 Apenas entre nós, meninas, Washington, DC, é um lugar fácil para se conseguir transar com alguém. Não que eu fosse a garota mais bonita da cidade nem nada. Normalmente não era nem a garota mais bonita da sala. Mas posso lhes dizer com certeza que não era minha personalidade que trazia todos os caras até mim. Era uma simples questão de economia: oferta e procura. Washington não tem aquelas indústrias que atraem Gente Bonita, como entretenimento e moda. Em vez disso, tem o governo, também conhecido como a “Hollywood dos Feios”. E sem a população de modelos-atrizes para competir, minha cotação cresceu rapidamente quando me mudei para a capital. Não era preciso muito para fazer as cabeças se virarem por lá. Todo mundo estava a fim e tornava isso bem óbvio. Washington era uma cidade cheia de jovens solteiros e casados entediados, todos desesperados para se ligar a, bem, qualquer pessoa. Tudo o que você tinha de fazer era dizer oi a alguém, e eles eram seus. Se quisesse, você podia ir para casa com um homem diferente a cada noite da semana. Tantos homens, tão pouco tempo. Como eu poderia perder isso? O lado ruim era que quase todo mundo em Washington era nerd e inseguro.
Até os de melhor aparência tinham aqueles esqueletos de nerds nos armários. Isso era especialmente verdade quando se tratava de alguém que trabalhava com política. Só um nerd ficaria atraído pelo poder legislativo, entre todas as coisas. Os nerds amam a idéia de criar regras para as pessoas, não amam? Eles verdadeiramente acreditam que deveriam tomar todas as decisões por nós, só porque fizeram pós-graduação. Quer dizer, você consegue citar o nome de pelo menos uma pessoa legal na política? Simplesmente não há nenhuma. Se qualquer um de nós fosse verdadeiramente legal, estaríamos morando em Nova York. Cheguei a Washington via Manhattan, e tinha construído uma boa vidinha para mim por lá antes de estragar tudo. Em Nova York, quer dizer. E, sim, acho que isso aconteceu em Washington também, porém foi mais tarde. Nova York veio primeiro. Todos nós crescemos com grandes sonhos de nos mudar para Nova York e viver a Vida Glamourosa, mas eu estava presa a uma bolsa de estudo de quatro anos na Syracuse University, enquanto minhas amigas foram para a New York University, Columbia ou uma das muitas escolas de “arte e design” de Nova York. Nos intervalos das aulas na Syracuse, eu andava com dificuldade pela neve suja para conferir meus e-mails em uma das unidades de informática do campus. A lama marrom em minhas botas práticas e razoavelmente caras da L.L. Bean se transformava numa poça sob meus pés enquanto eu lia sobre os clubes e as situações loucas que minhas amigas estavam vivendo em Nova York. Estavam todas lá, divertindo-se e vivendo coisas fabulosas sem mim, enquanto eu padecia em festas de barris de chope e lutava para cumprir meus prazos no jornal da universidade.
Nunca poderia superar a sensação de que estava perdendo alguma coisa: eu tinha de sair de Syracuse o mais rápido possível, antes que ficasse louca de tédio. Apenas pelo mérito de meu currículo, consegui uma entrevista na editora Condé Nast, em Nova York. Eu tinha ganhado de incontáveis aspirantes (que incluíam muitos de meus colegas de classe em Syracuse) a chance altamente invejada de me tornar uma Condé Nastie. Essas eram as Grandes Garotas: Vogue, Glamour e, naqueles tempos, Mademoiselle, a revista que contratou minha melhor amiga, Naomi, logo que ela saiu da escola de jornalismo de Columbia. Eu conhecia Naomi desde o segundo ano, quando ainda vestíamos roupas pouco femininas da OshKosh B’Gosh e grudávamos meleca nas outras crianças quando elas não estavam olhando. Não seria fantástico se nós duas acabássemos trabalhando na Condé Nast? Telefonei para contar a novidade a ela, que me parabenizou por conseguir uma entrevista, mas me alertou que, se eu não “mostrasse posição”, o RH me mandaria para casa sem nada, a não ser uma pilha de revistas como brinde. — Certifique-se de estar com uma boa aparência, Jacqueline! — disse ela. — Faça uma boa refeição e consiga uma manicure antes de vir.
E você pode malhar um pouco também. Eu sabia que as garotas em Nova York pareciam modelos, mas esta era uma entrevista de emprego, não um quadro de avisos num spa. No entanto, eu tinha um currículo excelente e uma personalidade agradável. Como eles poderiam não me contratar? Obviamente, eu tinha muito o que aprender. — Então, como foi? — perguntou Naomi. Nós nos encontramos do lado de fora para fumar um cigarro depois da minha entrevista. Eu não fumava, mas gostava de fingir que sim. Fumar parecia tão bem em mim. Além do mais, aquilo me dava algo para fazer sempre que eu me sentia preguiçosa e com vontade de ficar do lado de fora. Abri a bolsa L.L. Bean Boat and Tote que eu usava, percebendo que ela não combinava muito com o pesado terninho de gabardine que eu estava vestindo em junho. Era o único terno que tinha na época — e estava todo errado. Tudo em mim estava errado: eu tinha prendido os cabelos num rabo-de-cavalo bagunçado, pois estava suando com toda aquela roupa de lã, e meus deselegantes sapatos Nine West precisavam ser engraxados; mas por que se preocupar com sapatos brilhantes de U$40? Sem maquiagem, sem bronzeado, sem manicure: errado, errado, errado. Mostrei a Naomi a pilha de revistas de brinde que a gerente do RH tinha me dado antes de apontar a saída. — Eles teriam lhe dado um emprego — Naomi disse —, se você tivesse se arrumado do jeito que falei. Naomi estava usando um vestido com estampa de girafa de Tracy Feith, sandálias douradas de saltos finos e grandes pulseiras de ouro nos braços.
Isso era o que as funcionárias de nível subalterno usavam nos escritórios da Condé Nast. Ela parecia estar na Vogue, parecia estar na Mademoiselle. Naomi mostrava posição. Então percebi como eu parecia grosseira em comparação a ela. Precisava de uma transformação radical o mais rápido possível. — Eles fizeram você se sentar numa das Cadeiras Magrelas? — Naomi perguntou, mas eu não tinha certeza do que ela estava falando. — Elas têm essas cadeiras lá — explicou. — Se sua bunda sai pelas beiradas quando você se senta, não contratam você. Ela olhou para o meu traseiro. — Acho que você não se encaixou — concluiu. — Muita pizza e cerveja lá em Syracuse — expliquei, envergonhada por ser grande demais para ser uma das Grandes Garotas da Condé Nast. Naomi pareceu horrorizada. — Garotas de Nova York não comem — ela disse. — Aprenda isso. Viva isso.