Solange F.

Posted on 12/27/2008 by UNITED PHOTO PRESS

A assunção de liberdade começa no nome. Prolonga-se com a naturalidade com que decidiu aceitar a entrevista em que revelou a sua orientação sexual ou posar para uma revista "de homens". Se há uma luta nela, é essa, a de tornar claro que aquilo que se é, que se escolhe ser, será sempre natural De actriz de Luís M. Cintra a 'comentadora' cor-de-rosa, um percurso livre"Uma data de pessoas se calhar só me conhece por isso. Por um lado fico contente, por outro acho completamente absurdo. Por exemplo, as coisas que aparecem nas publicações do social nunca é pelo teu trabalho... só me faz rir. O Bruno Nogueira, dos Contemporâneos, com quem trabalhei no Curto-Circuito, chama-me "a fufa mais conhecida." Ri. Mas é assim: "Solange F., aquela que é lésbica." "Que recebe prémios por ser lésbica." Foi assim que ela se referiu, com ironia, aos prémios da ILGA e da rede ex aequo, que a distinguiram pela sua luta contra a homofobia. "Estou a ser premiada por dizer quem sou." Esquisito talvez ainda mais saber, mesmo que não queira pensar nisso, que a partir de agora, ou melhor, a partir de Maio, quando "se assumiu" numa reportagem da Única do Expresso, tudo o que lhe aconteceu está contaminado por isso.
Do convite para a Tertúlia Cor- -de-Rosa do programa de Fátima Lopes, na SIC, ao de posar para a revista "de homens" FHM - mesmo se esse convite, o da FHM, já lhe havia sido endereçado antes. A "fufa mais conhecida" tem razão: muito pouca gente sabia dela e menos gente ainda tinha reparado, mesmo depois desta estranha fama, que a estrela mais recente das crónicas de maldizer da TV começou, muito improvavelmente, no teatro puro e duro, escolhida por Luís Miguel Cintra entre os alunos do Conservatório para representar Heiner Müller e Strindberg na Cornucópia. Esteve lá seis anos. Saiu quando alguém lhe sugeriu participar num casting da SIC Radical para um programa novo. "Tinha mandado currículos para várias agências e surgiu isso. Fui escolhida com a Rita Andrade." Entrou no programa em 2004 e nunca mais fez teatro. Porquê? E porquê sair da Cornucópia? "Gostava muito de voltar a fazer teatro, planeio fazê--lo. Mas estava lá há muito tempo e fazia sempre personagens secundárias e era sempre a rebelde, se calhar por ser pequenina e com ar de rapaz... queria experimentar outra coisa." Cintra, o mentor, ficou chocado. "Só me perguntava porquê. Era completamente anti-TV, talvez agora tenha mudado."Do Curto-Circuito, onde se "fez" na TV, em três horas de emissão diária com perguntas em directo
("Ganhei a fama de pessoa frontal, dizia o que pensava"), foi para o Elas sobre Eles, com Luísa Castelo-Branco e Ana Marques: "Mulheres a falar de homens. Claro que não é preciso ter relações de amor e sexo com homens para poder falar deles - mas na altura a minha orientação sexual não era pública. A Luísa sabia e protegia-me muito, como se fosse minha mãe." Depois do Elas sobre Eles era suposto fazer "um programa sobre sexo" que nunca mais começava. "Ainda fiz casting para as novelas, mas não fui chamada - aí acho que já podia ser um problema a minha orientação sexual, tipo eu a beijar um tipo e toda a gente a achar que aquilo não era 'crível'." Surgiu então o convite para a Tertúlia. "Ligaram-me do Fátima Lopes e pensei: 'Ai, não me digam que querem que vá outra vez contar a história da minha vida'. Afinal era para aquilo. Disse logo que não ia dizer mal de ninguém." Dos adolescentes do Curto-Circuito para os reformados do Fátima, uma cambalhota quase tão grande como a de Heiner Müller para a SIC Radical. E o fio da navalha: "Constatar que há gente a filmar e fotografar 'figuras públicas' com telemóvel em qualquer lado fez-me muito mais cuidadosa. A minha namorada não quer ser exposta e evito levá-la a sítios onde possa suceder."
No meio disto tudo, o mais estranho será talvez perceber que as escolhas de Solange - as que fazem tanta gente agradecer-lhe - foram quase todas guiadas pelo acaso. Cruzar fronteiras entre a cultura erudita e a popular, arrasar estereótipos ao integrar o universo cor-de-rosa (mesmo correndo o risco de ser ali a "mulher barbada") ou assumir-se como objecto desejo (ao arrepio da imagem da lésbica que é lésbica porque os homens "não lhe pegam"). "Sou apanhada nas curvas, sou muito ingénua e naif e muito impulsiva - não estou a medir as consequências políticas das coisas." Talvez assim funcione ainda melhor.