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Não preciso de ter um pénis para ser um homem
Posted on 9/23/2008 by UNITED PHOTO PRESS
Há 15 anos, era uma mulher. Agora, é um homem. Actor e produtor pornográfico, Buck Angel é a personagem principal da curta-metragem Schwarzwald: The Black Party, de Richard Kimmel, que passa hoje 27 de Setembro no Cinema São Jorge, no âmbito do Queer Lisboa, festival de cinema gay e lésbico
"Olá, sou Buck Angel, o homem com vagina." É assim que ele se apresenta no seu site pornográfico. Nos EUA é uma estrela porno. Na Europa é conhecido nos circuitos alternativos dos clubes de sexo gay. Nasceu em Los Angeles há 38 anos. Trabalhou como manequim quando era mulher e sempre se sentiu preso num corpo que não era o seu. Até descobrir que podia mudar de sexo, viveu em permanente revolta e chegou a tentar o suicídio. Hoje é um homem, mas nunca quis operar os órgãos genitais. Nem acha que isso seja importante.
A conversa decorre ao telefone, uma vez que o actor não vai estar presente no festival. Desde que atende até que desliga, a cordialidade e a voz de adolescente são a marca de Buck Angel. Isso e a preocupação em sublinhar que é um homem. Transexual no género e pansexual na orientação, ele desafia todas as convenções. É uma pessoa e uma personagem. Não se lhe conhece outro nome que não seja o que usa como actor. "Buck é um nome forte, de macho, como eu", diz. Angel é o apelido da sua mulher.
Há cerca de dois anos decidiu ir viver para o Iucatão, no México. É mais fácil ser pornógrafo no México do que nos EUA?
Sem dúvida. Estava a tornar-se difícil continuar o meu trabalho como pornógrafo. O governo de Bush não me interessa, acho que deu cabo dos EUA. Estavam de olho em tudo o que eu fazia e criaram leis sobre obscenidade que praticamente lhes permitem entrar em minha casa e prender-me. Há dezenas de julgamentos nos EUA por causa de vídeos que o governo considera obscenos. Mas eles não dizem o que é a obscenidade. É uma palavra em que cabe muita coisa, portanto, sem uma definição clara, podem levar a tribunal quem quiserem. É assustador, é nazi. Sou um criativo, não posso viver num país que me limita através das leis.
Acha que a mudança de governo que se anuncia para os EUA vai ser positiva para o seu trabalho?
Estou desejoso que Obama vença as eleições e espero que sim, que ele mude muita coisa nos EUA. Se perder, vou ficar em estado de choque.
Pensa regressar?
Nunca. Só vou aos EUA para votar. Tenha uma vida maravilhosa aqui.
Os seus vizinhos no Iucatão sabem que vive da pornografia?
Tenho uma vida recatada e viajo muito. As pessoas querem saber, claro, e a minha empregada diz-lhes apenas que trabalho na indústria do cinema. Não quero que se saiba, ninguém tem nada a ver com isso. O mais engraçado é que vou ao ginásio e algumas pessoas reconhecem-me. Mas, como toda a gente tem receio de meter conversa com quem trabalha na indústria do sexo, nunca me dizem nada.
Tem orgulho no que faz?
Muito. Se alguém me perguntar directamente, respondo.
Quantas vezes por semana vai ao ginásio?
Umas cinco vezes, desde há dez anos. Não é possível ser actor porno sem estar em boa forma. Quando me tornei homem, era importante ter um aspecto muito masculino e musculado. Era essa a imagem que eu tinha do que é ser homem. As pessoas hoje olhem para mim, ficam espantadas e perguntam-se: "Como é que ele já foi uma mulher?"
A sua masculinidade preocupa-o?
É passado. Sou um homem a 100 por cento. Às vezes, posso ter aquilo a que se chama intuição feminina, porque vivi muitos anos como mulher. Mas, de resto, sinto-me muito confortável, não me importo que haja quem me chame mulher. Sei que sou um homem.
É por isso que não quer fazer a operação de mudança de sexo?
Exactamente, não preciso de ter um pénis para ser um homem. O que importa é a forma como me sinto em relação a mim, não a forma como os outros acham que devo parecer ou me devo sentir. Se tivesse feito a operação, não a estaria a fazer por mim. Seria só para mostrar aos outros. Todos os homens que sentem desconforto com a minha imagem estão apenas a pensar naquilo que tenho entre as pernas, em mais nada.
Como é que a sua transformação aconteceu?
Nasci mulher e vivi grande parte da minha vida como mulher. Era uma "maria-rapaz". Só queria andar de calças, jogar futebol, fazer coisas de rapaz. Por isso, tive muitos problemas com drogas e álcool na adolescência. Não era feliz. Mas naquela época ninguém falava de transexualidade. Como era mulher e me sentia atraído por mulheres, achavam que era lésbica.
Qual era a reacção dos seus pais?
Levaram-me a vários psicoterapeutas, mas eu desistia sempre e bebia muito, envolvia-me em confusões. Agora que olho para trás, sinto-me muito triste por eles. Não sabiam como lidar comigo. Eu estava fora de controlo, cheguei a tentar o suicídio várias vezes. Quando me apareceu a menstruação e começaram a crescer os peitos, nem queria acreditar. Queria ser um rapaz, os rapazes não têm nada disto. Acho que nunca morri porque estava destinado a contar a história da minha vida e a poder ajudar outras pessoas com o mesmo problema.
Como é que descobriu a possibilidade de mudar de sexo?
Foi através de um documentário. Estava no cinema com um amigo e de repente uma mulher transforma-se em homem. Pensei: "Como é que nunca ninguém me disse que isto era possível?" Depois fui a uma livraria gay, encontrei um pequeno livro sobre transexuais, que era apenas sobre homens que se tornam mulheres [male to female, ou MtF, na designação inglesa], não havia nada sobre mulheres que se transformam em homem [female to male, FtM]. No livro estava o contacto de um médico em Los Angeles que dava injecções de hormonas a homens. Liguei-lhe, ele disse-me que nunca tinha trabalhado com FtM, mas, mesmo assim, marquei consulta. Foi um homem fantástico. Ele trabalhava com MtF há mais de 30 anos e eu fui o primeiro caso de FtM que lhe apareceu. Ensinou-me a injectar testosterona e a partir daí a minha vida mudou por completo. Foi há uns 15 anos.
Se nasceu numa grande cidade, como é que nunca teve acesso a essa informação?
Há 20 anos era tabu, especialmente para os psiquiatras. Uma das minhas psiquiatras era lésbica e só sabia que eu era lésbica, era só disso que falava. Não tinha conhecimentos suficientes para me dizer que eu me podia transformar num homem. É chocante, mas é verdade. Tive de fazer tudo sozinho. E perdi todas as amigas lésbicas que tinha, elas achavam que eu estava maluco por querer mudar de sexo.
Que é que sentiu quando o seu corpo começou a mudar?
Foi como se uma pedra enorme me tivesse saído de cima das costas. Sabia que a minha vida ia mudar por completo e foi isso que aconteceu. Antes disso, usava sempre um boné de basebol na cabeça e olhava a medo para as pessoas. Deixei de usar boné, comecei a sentir maior alegria de viver e de conhecer pessoas. Hoje não sou a mesma pessoa que era, mas sou a pessoa que sempre sonhei que viria a ser.
A seguir à testosterona fez alguma operação?
Ao fim de dois anos a tomar hormonas, encontrei um médico para me remover os seios. Queria ter um peito igual ao dos outros homens. Fui a dez cirurgiões diferentes e todos me diziam que ia ficar com grandes cicatrizes por baixo dos seios e eu não queria, claro. Por fim, encontrei um cirurgião em Beverly Hills que trabalhava com homens que sofrem de ginecomastia, que têm mamas. Ele fez um trabalho muito bom, não deixou uma única cicatriz.
E abandonou o álcool e as drogas.
Há 18 anos que não toco em nada.
É verdade que antes da transformação chegou a ser manequim profissional?
Nem sei bem como é que isso aconteceu. Estava algures e veio ter comigo um homem que me tirou uma fotografia e pediu os contactos. E uns dias depois estavam a ligar-me de uma agência de modelos a perguntar se queria ser manequim. Pensei que era uma brincadeira, mas aceitei. Na verdade, não gostava nada daquilo. Maquilhavam-me a cara, obrigavam-me a vestir vestidos, mas eu andava noutro planeta, por causa das drogas. Durou cerca de um ano, depois desisti.
Depois disso tornou-se logo actor porno?
Ainda trabalhei durante oito anos numa loja de roupa. Depois cansei-me. Comecei a filmar cenas porno de dominação e outros fetiches. Aprendi na Internet. Depois passei a trabalhar para um site com filmes de mulheres transexuais e percebi que a indústria pornográfica não produzia nenhum filme de homens transexuais, como eu.
Porquê?
A maior parte dos homens transexuais tem vergonha de aparecer e não quer mostrar os órgãos genitais. Mas eu estava tão feliz por ser eu que queria partilhar isso com o mundo. Acho que sou tão sexy como outra pessoa qualquer e há muita gente sexualmente interessada em homens como eu. Nunca me quis transformar num freak [monstro], não queria ser um número de circo.
A indústria pornográfica tratava-o assim?
No início, tentaram. Uma empresa que me quis contratar disse: "Buck, vamos fazer um filme em que te apresentamos como Buck, o Animal do Circo". E eu perguntei: "Vocês estão completamente doidos?" Acenavam-me com dinheiro, claro, mas eu não queria apenas dinheiro. Para mim, era sobretudo uma questão de orgulho.
Por isso é que criou a sua própria empresa de pornografia?
Exacto, a Buck Angel Entertainment apareceu como uma resposta ao tratamento que a indústria pornográfica me dispensava. Tudo o que hoje existe relacionado como o nome Buck Angel fui eu que construí. E já conquistei o respeito da indústria que me quis tornar um freak. Ganhei um prémio que nenhum homem como eu alguma vez ganhou na história da indústria pornográfica [Prémio Transsexual Performer of the Year 2007, atribuído pela empresa de pornografia AVN, com sede na Colifórnia].
Diz-se que é um dos actores pornográficos mais bem pagos do mundo.
Ainda não sou milionário, mas já estou próximo. Diria que sou provavelmente a mais famosa estrela transexual neste momento.
Vê-se como porta-voz dos transexuais?
Não, sou porta-voz das pessoas que não encaixam na norma. Nós é que decidimos como é que queremos viver a nossa vida. Nem todos temos de ser heterossexuais, brancos e católicos.
Quando faz um filme, está a pensar na dimensão política do seu corpo ou é apenas um negócio?
No princípio, era apenas um negócio, mas ao crescer mudou. Claro que ainda é para fazer dinheiro, é com isso que ganho a vida, mas tem também a mensagem de que o sexo é bom e positivo. Quem me vê nos filmes, percebe que estou a gostar de estar ali, não importa que não tenha pénis. Há muitas inibições relacionadas com o sexo, há quem só tenha sexo de porta fechada ou de luz apagada e eu quero mostrar o contrário disso.
Como é que funciona a sua produtora? Escolhe com quem quer trabalhar, escreve as histórias?
Comecei a fazer filmes pensando em mim, naquilo que eu próprio gostaria de ver. E ainda é assim que trabalho. No início, tinha uma câmara e filmava-me a mim a ter sexo com outras pessoas. Depois, passei a ter operadores de câmara, a elaborar um pouco mais a história, a ter ideias para cenários. É preciso dizer que 80 por cento das pessoas que compram os meus filmes são homossexuais masculinos. Eles não querem ver histórias, querem acção. Por isso, normalmente faço quatro ou cinco cenas diferentes, com quatro ou cinco homens diferentes.
Como é ter relações sexuais frente às câmaras?
Acho que sou exibicionista. Adoro, sinto-me muito bem e às vezes esqueço-me de que elas estão lá. Nunca finjo, tenho mesmo prazer nos filmes em que apareço. Se o meu parceiro não me agrada e se não existe energia sexual entre nós, não o contrato, porque o resultado seria falso.
É como o sexo que se tem com um desconhecido ou exige mais envolvência?
É como um encontro ocasional. Não há envolvência. Vamos, temos relações sexuais e tentamos excitar-nos ao máximo.
Em quantos filmes já entrou?
Acho que em 30. Agora, como viajo muito, só tenho feito dois por ano.
No resto do tempo faz animações em discotecas e clubes de sexo?
Sim, sobretudo na Europa. Costumo ir ao Hard On e ao Torture Garden, em Londres, e ao Cock Ring, em Amesterdão. Estive há pouco tempo em Toronto e já tenho coisas agendadas para o Brasil. As pessoas gostam de me ver.
Recebe muitos e-mails de pessoas com problemas de identidade sexual?
Muitos. Acho que sou um modelo para muita gente. Às vezes, escrevem-me adolescentes, com 15 ou 16 anos, e a esses não respondo. Sou pornógrafo, não me sinto à vontade para dar conselhos a menores. Podia arranjar problemas.
Considera-se bissexual?
Gosto de homens e mulheres, mas não sou bissexual, sou sexual, apenas.
Mas é casado.
Com uma mulher.
Portanto, tem um casamento hetero e no resto da sua vida é pansexual?
A minha mulher é muito aberta e muito boa pessoa, não temos problemas com isso.