REPORTAGEM | O Outro Lado do Sexo

Posted on 9/30/2008 by UNITED PHOTO PRESS

Quando vira vício, a busca pelo prazer se torna escravidão. Ana, advogada, chegou a se prostituir para ter sexo rápido. Mariano, mesmo transando 20 vezes por dia, queria mais. Eles contam seu drama ao PINK HOT SEX. Do imperador Calígula ao ator Michael Douglas, e mais recentemente o astro Ron Wood, guitarrista dos Rolling Stones, que seriam viciados em sexo, conhecemos rasteiramente o perfil do dependente sexual: o sujeito que não consegue passar um dia sem ter suas fantasias realizadas, busca prazer incansavelmente, coleciona aventuras eróticas. Compulsão sexual, dependência de sexo, transtorno sexual não-especificado ou impulso sexual excessivo são algumas definições da literatura médica para o problema discutido desde relatos da Antigüidade, mas ainda pouco estudado. Em que ponto um comportamento sexual vigoroso atravessa a linha que separa o prazer da dependência? 'Ter vida sexual exuberante não significa ser dependente', diz o psiquiatra Aderbal Vieira Jr., da equipe do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 'O que chamamos de dependência não-química, na falta de denominação melhor, começa a se manifestar quando a pessoa sofre algum prejuízo em diversas áreas da vida.'
As dependências não-químicas mais freqüentes atualmente, de acordo com dados do Proad, são o vício em jogos, internet, compras e sexo. Se você sonha em fazer sexo numa caverna da Capadócia ou no banheiro da balada mais próxima, não há o que temer: 'As fantasias colorem a vida. O dependente, no entanto, perde a liberdade de escolha', diz Vieira. A seguir, dois ex-dependentes sexuais -um homem e uma mulher- contam como essa incapacidade de autonegociação os levou a momentos desesperadores. Ambos freqüentam, ainda hoje, os Dependentes de Amor e Sexo Anônimos (Dasa), grupo que tem como princípio de reabilitação os 12 passos do Alcoólicos Anônimos (AA), adaptados à questão sexual. 'Sem sexo, eu ficava maluca, totalmente descontrolada'Ana*, 45 anos, advogada. Vim de um lar desestabilizado pela violência. Meu pai era alcoólatra, uma pessoa boníssima, mas que se tornava agressivo e batia na minha mãe quando bebia. Ele era culto, oficial da Polícia Militar, trabalhava muito. Quando poderia estar com os filhos, ele se afastava, por ressaca moral. Minha maneira de conquistar seu afeto -e de competir com minhas irmãs- era mostrando boas notas.
Ele me estimulava, tanto que prosperei e sempre fui independente financeiramente. Fui também uma garota cheia de libido. Meus seios começaram a crescer aos 11 anos, e fazia algumas brincadeiras com os garotos da escola -deixava que eles pegassem nos meus peitos. Perdi a virgindade cedo, aos 14. Quando uma irmã se casou grávida, meu pai disse que ela deveria ter se espelhado no meu exemplo. Mal sabia ele quanta água já havia passado por baixo dessa ponte. 'Acordei com um estranho no motel, e à tarde já estava na cama com outro homem' Casei aos 21 anos. Meu primeiro marido era alcoólatra como meu pai e ainda por cima usava drogas. Eu já sabia disso, mas acreditava que meu amor seria suficiente para consertá-lo. Eu sofria violência física, verbal, moral, sexual. Quando montei meu escritório de advocacia, ele não perdia a chance de dizer: 'Você é o 'macho' da casa, tá cheia de dinheiro. Pra que vou trabalhar?'. Mesmo assim, nossa vida sexual era intensa. Tínhamos relações quase todos os dias, mas muitas delas forçadas. Várias vezes, quando bêbado, ele me agrediu fisicamente e depois quis fazer sexo. Eu me anulava, e acreditava que, uma vez desejada, uma vez amada. Se ele estivesse satisfeito, eu estaria bem. Aos 28 anos, conheci um homem que mexeu comigo -e mexe até hoje.
Acredito que meu padrão de dependência sexual começou a se manifestar mais fortemente a partir desse relacionamento. Ele era meu colega na faculdade. Um cara bonito, introspectivo, noivo, o que atiçava meu espírito de competição. Brinquei com ele dizendo que era o genro que minha mãe adoraria ter. Não demorou para transarmos -e foi maravilhoso. Foi o único homem que, até hoje, me deu prazer: eu não precisava me transformar em mulher fatal para seduzi-lo. Tive orgasmos com outros homens, mas nunca com a mesma intensidade que esse amante provocava. No meio desse caso, me separei. Mas, como meu amante não deixava a noiva, passei a ter outros rolos também. E acabei me casando de novo, com outro homem violento. Logo que nos conhecemos, ele me bateu, no meio de uma discussão, em um bar. Percebi, tempos depois, que o problema estava em mim, que atraía pessoas com o mesmo padrão de comportamento. Eu precisava de alguém para tentar consertar, tentar sanar a relação frustrada de meus pais. Esse segundo marido me evitava sexualmente. E, no período em que fui casada com ele, meu caso com o antigo amante pegou fogo. Nossa necessidade de transar era fora do comum. Fazíamos sexo no carro, no motel, em lugares públicos.
O ponto crucial da nossa história sempre foi sexual, embora eu alimentasse a fantasia romântica de me casar com ele, mas ele jamais quis se separar. Depois de cinco anos, nos afastamos, por vontade dele -disse que eu era pegajosa, ciumenta, e que não estava pronto para um relacionamento sério. Foi então que minha busca por sexo a qualquer custo se intensificou. Sentindo-me rejeitada pelo amante e pelo meu marido, saía à caça. Era uma espécie de vingança, e quem acabava machucada e agredida era eu. Quando sentia falta de sexo, acontecia o que chamo de 'disparada de gatilho'. Uma coisa descomedida. Cheguei a ter três homens num só dia. Acordei no motel com um cara com quem havia saído na noite anterior. À tarde, um rapaz que eu conhecia -e cuja mulher, minha amiga, estava grávida- me ligou e fomos transar. À noite, tive mais um encontro, dessa vez com uma pessoa da minha família, um primo. 'Cheguei a ficar numa esquina e saía com os caras sem nem cobrar nada' Fui várias vezes para a cama com desconhecidos com quem cruzava em ônibus, em bares. Cheguei a me vestir de prostituta e ir para uma esquina. Eu nem cobrava. Fazia isso para ter sexo rápido.
Comecei a transar também com mulheres. Tive um caso com uma funcionária do meu escritório durante dois anos. Namorei até um presidiário, que conhecia da época da faculdade. Eu ia semanalmente ao presídio, nos dias de visita íntima, e a sensação de transar numa cela me deixava excitadíssima. Uma das poucas taras que não realizei foi transar com um travesti. Nem sei com quantos homens dormi nessa época. Foram mais de 100, com certeza. E, muitas vezes, deixei de usar camisinha. Fiz o exame de HIV há um ano e, graças a Deus, deu negativo. Sem sexo, eu ficava maluca, descontrolada. Essas crises afetavam outras áreas: eu descontava na comida, tinha alucinações à noite, criava fantasias sexuais o tempo todo, ficava perturbada, não conseguia me concentrar no trabalho. Até meu cabelo caía! Eu pensava no meu ex-amante sem parar, achava que morreria se não tivesse aquele homem! Corri risco de vida várias vezes, dirigindo de madrugada, alcoolizada. Apesar do perigo, essas situações me fascinavam, era uma adrenalina grande. Trair meu marido me dava prazer, e para isso tinha inúmeras desculpas: curso à noite, chá de cozinha, uma tia que morreu, problemas com clientes.
Em 1998, aos 35 anos, meu segundo casamento acabou depois de cinco anos. Suas crises de violência contra mim se tornavam cada vez mais freqüentes e a única saída foi a separação. Eu já havia reencontrado o amante havia alguns meses, ele me ligou dizendo que tinha sonhado comigo, que sentia minha falta. Atendi prontamente, como um fumante que não consegue abandonar o vício. Voltamos a transar loucamente. Muitas vezes deixei de trabalhar para encontrá-lo. Soltei as rédeas do meu negócio, largando tudo na mão dos empregados. Perdi clientes e acabei fechando o escritório. Quando não estava com o amante, continuava nas 'disparadas de gatilho'. Fui ficando endividada, desmotivada. Lembrei dos grupos de apoio a dependentes. Conhecia os 12 passos dos Alcoólicos Anônimos, por causa do meu pai, e procurei o Mada [Mulheres que Amam Demais Anônimas], pensando que meu problema era dependência afetiva. Ali, me aconselharam a participar do Dasa [Dependentes de Amor e Sexo Anônimos]. Foi o que me salvou. Há dois anos, freqüento os dois grupos, e faço psicoterapia. Nesse tempo, percebi que, no fundo, o que eu queria era aquele amor romântico, caseiro, de novela.
Buscava o sexo para suprir a rejeição. Digo que tenho duas personalidades: sou uma 'puta doutora' ou uma 'doutora puta', mas a imagem que cultivo socialmente é a de boa moça. Minha relação com meu amante não está resolvida. Ainda nos vemos de vez em quando, ele nunca se casou. Mas entendi que ele não está comigo porque não quer. Simples assim. Hoje, estou namorando um rapaz interessante, tranqüilo, que conheci no metrô. Ele tem um perfil diferente dos homens pelos quais sempre me senti atraída. É gentil, trabalha e paga suas contas, é solteiro, tem 34 anos, uma graça! Estamos no começo do namoro, mas quero apostar num relacionamento saudável. Também não tenho mais necessidade de ser aprovada por um homem, pois estou investindo em mim, na minha qualidade de vida. Faço um curso de pós-graduação, retomei o trabalho em casa, captei novos clientes e planejo viagens que sempre imaginei, mas nunca fiz, por ter colocado o sexo acima de tudo.'
'Deixei de comprar comida para gastar com prostitutas'Mariano*, 39 anos, funcionário públicoEu era muito pequeno, mas lembro de uma babá ter me molestado sexualmente. Tinha uns 3 anos, fui morar com meus bisavós e essa moça, uma espécie de governanta, era quem me dava banho. Ela pedia para ver meu pênis, perguntava se estava duro e o introduzia em sua vagina. Não lembro das cenas claramente, nem sei se alguém de casa chegou a desconfiar do que acontecia. Eu simplesmente não sabia o que estava acontecendo, o que era aquilo, e também não sei até que ponto essa experiência influenciou minha vida sexual adulta. Fui uma criança solitária e sem amigos. Minhas diversões eram gibis, revistas de futebol e masturbação. Me masturbava compulsivamente, mais de 20 vezes por dia, até o colchão ficar encharcado de suor. Foi assim até os 15 anos, quando um amigo me levou a um passeio pela avenida do Estado, em São Paulo, e pela primeira vez fiz sexo com uma prostituta. A partir dali, todo dinheiro que conseguia gastava com programas. Aos 20 anos, me casei. Fui um marido fiel, porque era feliz com ela. Isso não quer dizer que minha compulsão diminuiu. Fazíamos sexo várias vezes por dia, todos os dias. Chegamos a transar 20 vezes num dia só. Ela sabia que era fora do comum, mas não reclamava, porque queria muito engravidar. E tivemos um filho. Mas o casamento se desgastou e chegou ao fim.
Solteiro de novo, aos 27 anos, voltei às garotas de programa -todos os dias. Procurava mulheres em boates e em anúncios de revistas de encontros. Queria experimentar louras, morenas, negras, índias, altas, baixas. Nunca fui dado a fetiches específicos, sadomasoquismo ou coisa parecida. Minha grande fantasia era estar com o maior número de mulheres que pudesse. Estabelecia uma 'meta'e a perseguia: 'Hoje quero uma negra de seios avantajados, hoje quero uma oriental, hoje quero uma mulher que tenha pêlos nas pernas'. Nesse período viajei três vezes para a Europa -França, Holanda, Itália, Inglaterra, Bélgica. Tinha interesse em conhecer outras culturas, mas era inevitável procurar experiências sexuais em cada nova cidade. Tinha a fantasia de transar com uma mulher numa vitrine de Amsterdã. Realizei. Era fascinado por mulheres louras de olhos azuis, o que me levou à Dinamarca. Minha situação financeira ia de mal a pior. Além das viagens, gastava tudo o que ganhava com prostitutas, em São Paulo. Quando ficava sem grana, pedia emprestado a amigos ou recorria a financeiras. Cheguei a ficar sem comprar comida: não me importava com o que comer, só pensava em sexo. No trabalho, conseguia cumprir minhas obrigações, mas passava o tempo todo pensando no final do expediente, como alguém que espera ansiosamente a happy hour para tomar uma cerveja com os amigos.
Quando ficava um dia sem transar, tinha crises de abstinência: suava, sentia dores no corpo. Uma vez, até desmaiei no trabalho. Ficava indisposto, perdia a capacidade de raciocínio. Eram sintomas parecidos com os de quem tem dependência química, embora não fosse o caso. Nunca usei drogas e sempre bebi moderadamente. Uma dessas crises durou 20 dias. Eu estava totalmente sem dinheiro, absurdamente endividado com três financeiras e com vários conhecidos. Quis vender um vale-transporte de dez unidades para um colega de trabalho. Ele sabia que eu vivia atrás de prostitutas e disse que não compraria o passe, pois, mais do que de dinheiro, eu precisava de ajuda.Até aquele dia, eu achava que podia continuar vivendo daquele jeito, mas a conversa com esse colega foi um alerta. Senti que aquela loucura por sexo não era mesmo normal. Já havia lido uma reportagem sobre o Dasa [Dependentes de Amor e Sexo Anônimos] numa revista. Procurei os telefones e, no dia seguinte, fui à primeira reunião. Ali, encontrei homens e mulheres com histórias como a minha, e percebi que era mesmo doente por sexo.Isso foi em outubro de 1999. São quase dez anos de Dasa, porque o processo de recuperação foi lento.
Comecei a a seguir a programação dos 12 passos, que é parecida com a dos Alcoólicos Anônimos. Eles ficam um dia sem beber, a gente fica um dia sem sexo, e assim por diante. Durante o tratamento, comecei a me interessar pelas mulheres de um jeito mais normal, não só pensando em sexo. Nessa fase, fiz dois testes de HIV e, felizmente, não contraí o vírus, apesar de ter praticado sexo sem proteção algumas vezes. Na época, achava que, se contraísse o vírus, era só procurar mulheres que também fossem positivas. Na verdade, acreditava que minha vida já estava perdida. Há cinco anos, conheci minha atual companheira, numa rotisserie perto de casa. Trocamos telefones e começamos a namorar. Com ela, tenho uma vida sexual equilibrada, sem dependência, sem obrigações. Não faço mais sexo para tentar preencher um vazio. Ela conhece a minha história e, até pelo fato de ser psicóloga, entende os problemas que enfrentei. Aos poucos, sanei minhas dívidas, e descobri prazeres que havia deixado de lado ou nunca havia experimentado. Coisas simples, como viajar, ir ao cinema, ouvir música, fazer caminhadas com minha mulher ou simplesmente estar entre amigos.'