NIGÉRIA: Sexo, camiões e HIV

Posted on 8/29/2008 by UNITED PHOTO PRESS

Os camiões de gasolina formam uma longa fila de cinco quilómetros ao longo da estrada que leva a Eleme, no sul da Nigéria, até a refinaria, esperando sua vez de encher os tanques e começar a viagem de volta. Se a viagem for tranquila, um camião de gasolina que parte de madrugada das grandes cidades do norte chega a Eleme, região conturbada e rica em petróleo do delta, ao cair da noite. No dia seguinte, o representante da companhia petrolífera briga para conseguir um “bilhete” para o motorista autorizando a entrega. Com a carga a bordo, os camiões pesados e barulhentos fazem seu caminho do depósito de volta para a estrada. Mas como nem sempre as coisas funcionam como planejado, uma indústria próspera na beira de estrada está a cuidar de camionistas impedidos de continuar viagem, trabalhadores das refinarias, comerciantes de gasolina ou qualquer um à procura de alojamento, bancos, açougueiros, mecânicos, igrejas, restaurantes, lavanderias, salas de projeção de filmes, bancas de telemóveis – e sexo. Mais de 100 mulheres de todo o país trabalham nas pequenas barracas de madeira no centro da comunidade. Por N300 (US$2) por dia elas alugam seus quartos – onde não cabe muito mais do que um colchão, sem electricidade nem água corrente – e cobram um mínimo de N300 por sexo. Eleme, na região sul do estado de Rivers, um dos quatro estados principais do delta, é uma das maiores de uma série de oito estações de caminhões ao longo da rota de 800 km que levam ao norte onde encontra-se sexo comercial. A seroprevalência em Rivers é de 5,4 por cento, acima da média nacional de 4,4 por cento; a maior do país, porém, é a do estado de Benue, no centro da Nigéria, onde a taxa de infecção é de 10 por cento. Rivers, no entanto, está no centro da militância do delta, em que jovens já provaram que querem e podem lutar contra as forças armadas do governo federal para pressionar por uma divisão mais justa das riquezas do país, concentradas principalmente no petróleo e no gás natural da região. SIDA e insegurança C. Okeh, presidente do Comité Nacional de Acção sobre a SIDA de Rivers, teme que esta situação tenha um impacto na resposta ao HIV. No mínimo, “uma situação de crise significa que você não tem tempo para ouvir as mensagens [sobre SIDA] – a preocupação principal é a sobrevivência”, disse ele. Queen Henry é educadora de pares para profissionais do sexo em Eleme e trabalha para uma organização comunitária apoiada pela Associação Saúde da Família, o maior provedor de serviços da SIDA da Nigéria. Para ela, o problema mais urgente é a falta de segurança nesta região. Os soldados estacionados nos estaleiros do rio, onde navios de carga recebem combustível bombeado da refinaria por uma série de canos, cada um da largura da cintura de um homem, decretaram oficiosamente um recolher obrigatório a partir das 21h para o sexo comercial. Colocá-lo em prática tem significado rondas regulares nas barracas, colocando os clientes para fora e batendo nas mulheres que estão fora de seus quartos. Mas a mensagem da SIDA está a ser recebida, os preservativos são baratos e disponíveis, e as trabalhadoras do sexo são organizadas. Para Henry, não há dúvida de que todas as mulheres que ela aborda conhecem, teoricamente, a importância de proteger-se. “Mas o problema é que não estás no quarto com as raparigas quando estão sozinhas com o cliente”, explicou ela. “Por dinheiro, você faz [sem preservativo]; se queres proteger tua vida, não o fazes” foi sua afirmação realista. O discurso de Henry provocou um mini-debate entre as mulheres que tinham-se juntado em volta de seu pequeno quiosque, onde ela vende tônicos e cosméticos. “Duas mil nairas [pouco mais de US$ 17, que algumas mulheres cobram para fazer sexo sem preservativo] não podem curar a doença dentro do meu corpo [como resultado do HIV]. Eu já vi dinheiro [tive muito dele]; eu sou jovem demais para morrer. Não é por causa de [minha ganância] que eu vou estragar minha vida”, disse Patience Orkah, vestida com uma calça preta justa e muito maquiada. Photo: Obinna Anyadike/IRIN Umoru: "Elas me dizem para usar camisinha"Todas as mulheres concordaram, com excepção de Charity Ekiti. “Tudo que sei é se eu [ganho] dinheiro, eu ´dou´”, interrompeu ela. “Se eu [não morrer de SIDA], eu ainda vou morrer. Eu só sei que Deus não vai permitir”. Falando com voz alta e indignada, foi difícil saber se ela estava a falar sério. Mas o que ela deixou claro foi que não se preocupava em usar preservativos com seu namorado: “Não é gostoso assim.” Os preservativos ainda são um problema por causa de homens como Umoru, 36 anos, que tem uma esposa no norte mas trabalha de Eleme como motorista de camião levando gasolina para as cidades do sul. Ele visita sua esposa cada três meses, e neste meio tempo – “só duas ou três vezes” – frequenta as prostitutas, oferecendo-lhes o dobro da tarifa para não usar a camisinha. “Elas me dizem para usar uma, mas eu não consigo com o preservativo.” Ele disse que algumas mulheres recusam o sexo sem protecção, “mesmo por um milhão de nairas”. Mas ele conhece algumas menos exigentes, que são suas parceiras regulares. “Eu tenho medo, mas tudo que acontece é vontade de Deus” é como ele racionaliza o risco. Chinenye Imoh senta a uma mesa sob um guarda-sol o dia todo, distribuindo panfletos informativos da Sociedade Arewa contra o HIV/Sida, uma organização comunitária, a camionistas. Ela já ouviu todo tipo de desculpas, principalmente de camionistas do norte, muçulmanos mais conservadores, onde não se discute tão abertamente sobre sexo, a taxa de analfabetismo é alta e as meninas geralmente saem cedo da escola para casarem-se. “Dizem que [também no passado] as pessoas tornavam-se pele e osso e morriam. Outros dizem “não há doença sem cura”... mas estamos a tentar”, foi sua mensagem optimista.