Moralidade do sexo

Posted on 5/23/2008 by UNITED PHOTO PRESS

“Sem medos – Jornadas contra a homofobia” é o nome da campanha que trouxe o Bloco de Esquerda a S. João da Madeira, na passada sexta-feira, para discutir “a moralidade do sexo – norma sexual e desvio”.Na sessão, que decorreu no auditório do sindicato do calçado do concelho, estiveram presentes representantes da Rede Ex-Aequo – Associação de Jovens Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgéneros, da organização Panteras Rosa e ainda o deputado bloquista José Soeiro. No arranque do debate, o representante do Bloco de Esquerda recordou que, no combate pela igualdade de direitos, o movimento LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e trangéneros) conseguiu já algumas conquistas, como “a constituição da própria república”, a proibição da descriminação e a admissão da união de facto. Mesmo assim, sublinha, “a homofobia existe e é uma violência para muita gente”. Uma violência que acontece em casa, de onde muitos jovens são expulsos por gostaram de alguém do mesmo sexo, na escola e na rua, onde são chamados de fufas ou paneleiros. Mas também, vincou o bloquista, na doação de sangue, ainda que a relação homossexual seja protegida, e na elaboração dos próprios direitos, atribuídos de acordo com a orientação sexual, o que, referiu, “constitui uma violação do próprio principio constitucional da igualdade de direitos”. No combate à homofobia, o Bloco de Esquerda apresentou algumas propostas na Assembleia da Republica, também trazidas à sessão pública de sexta-feira. José Soeiro recordou a proposta da educação sexual nas escolas, “uma educação para a emancipação, de combate aos preconceitos”, a proposta para criar o Dia Contra a Homofobia, a 17 de Maio (dia em que, em 1990, a homossexualidade deixou de ser considerada uma doença), e ainda o direito ao casamento. Um em cada dois homossexuais tenta o suicídio De acordo com Paula Antunes, representante da Rede Ex-Aequo, o número de tentativas de suicídio é três vezes maior nos jovens LGBT. E atira: “um em cada dois jovens tenta efectivamente cometer o suicídio”. A causa principal, adianta, é o isolamento. Daí a constituição, em 2002, da Rede Ex-Aequo que surge pela “necessidade de combater o isolamento”. Paula Antunes está actualmente no projecto de educação da rede, uma iniciativa que visa “colmatar a lacuna que existe na educação sexual”. Para isso, “a rede tem pessoas formadas que se deslocam às escolas para esclarecer questões relativas à LGBT”. Além deste projecto, a rede tem também um observatório de educação que permite, através do preenchimento de um formulário online, “dar voz e reportar todas as situações de descriminação, de qualquer cariz, respeitantes ao tema da orientação sexual e identidade de género que tenham ocorrido em estabelecimentos escolares em Portugal”. A representante da associação de LGBT acrescentou ainda uma situação discriminatória àquelas anteriormente mencionadas por José Soeiro: “se tiver a minha companheira de 10/15 anos internada no hospital não tenho direito a visitá-la porque ela não é da minha família. A união de facto não contempla isso”. “É um direito básico – sublinhou – e uma sociedade que não contempla situações a esse nível é repugnante”. Uma opinião partilhada por Sérgio Vitorino, activista LGBT e membro das Panteras Rosa, uma frente de combate à “LesBiGayTransFobia”. Descobriu-se homossexual nos anos 90, altura em que a homossexualidade era considerada uma doença. “Cresci a chamar-me paneleiro. Sabem o que é chegar ao espelho e dizer – eu sou paneleiro?”. “Mas hoje – afirmou – não tem que ser assim, há associações, há um movimento em Portugal”. Apesar disso, lamentou, continua a haver clandestinidade. E avança com números: “cerca de 90 por cento dos homossexuais do nosso país continua a viver uma vida dupla, continua no armário e a viver mal a sua sexualidade”. E mais, atirou, “as expressões de ódio vêm muitas vezes de homossexuais porque não têm auto estima”. As jornadas contra a homofobia do Bloco de Esquerda seguem agora para o Porto (em data a confirmar), numa sessão que contará com a presença do sexólogo Júlio Machado Vaz. Braga, Oeiras, Setúbal, Santarém e Lisboa são as cidades que se seguem. Os encontros são abertos ao público.