Adeus, inocência, viva o sexo...
- Terceiro volume da HQ ‘Lost girls’ deixa claro que as protagonistas nunca foram cândidas.
Aos poucos, elas deixaram os recônditos onde se escondiam e foram revelando aspectos impensáveis da meninice. E o que Alice (Alice no País das Maravilhas), Wendy (Peter Pan) e Dorothy (O mágico de Oz), protagonistas de clássicos infantis, deixam claro é que não eram, assim, tão cândidas. Inocência, aliás, não era exatamente a tônica do dia-a-dia das meninas. É a lição que se tira ao conferir o último volume da deliciosa série Lost girls, escrita por Alan Moore e ricamente ilustrada por sua mulher, Melinda Gebbie. Dessa vez, em O grande e terrível eles apelam para temas bem mais incisivos, como incesto e pedofilia – antes sugeridos, mas agora explicitamente detalhados. Ainda no hotel austríaco onde se encontraram de forma inesperada às vésperas da Primeira Grande Guerra, elas se reúnem para sessões de prazer extremo e revelações picantes. Dorothy, a mais jovem das três, confessa que, apesar das horas de diversão que tinha com os funcionários da fazenda no Kansas, nutria desejos secretos pelo pai, a quem chamava de tio. Todos supunham que o grau de parentesco era esse mesmo o que os unia. Mas, excitada com o incentivo das amigas, Dorothy Gale avança nas confissões: foi mesmo o pai quem a iniciou nos mistérios mais profundos do sexo. Juntos, viajavam a Nova York e lá experimentavam de tudo, sem pudores ou tabus. Até que um dia, de volta ao campo, a madastra da menina a flagou numa cena nada paternal. Foi quando Dorothy saiu pelo mundo, com a missão de virar uma mulher coquete.
Wendy Darling, aparentemente, uma pudica dona de casa, se transforma quando estimulada da maneira certa. É por ela que sabemos das brincadeiras perigosas que Peter Pan e seus amigos faziam nos parques de Londres. Viciada em sexo, a Wendy adolescente pintava e bordava em casa, com os irmãos, com o amigo Peter e até mesmo com o misterioso homem com mão em forma de gancho que perseguia a todos. Um dia percebeu a coisa que passava dos limites e entendeu que ele estava era se aproveitando dos meninos. Alice Fairchild, a mais velha e experiente do trio, sucumbe à pressão das amigas e experimenta coisas que há tempos não sentia. E acaba revelando que sua aversão aos homens não passa mesmo de medo. Constantemente drogada com ópio, à mercê de uma tutora insaciável, ela conta que teve, sim, envolvimentos com homens e que, obviamente, teve muito prazer com aquilo. Mas, ensinada a dominar, preferia exercer esse tipo de poder com outras mulheres.
À medida que a série avança, Alan Moore se torna cada vez mais explícito em sua narrativa. Claro que as imagens acompanham isso com louvor. Mas o importante é que em Lost girls o sexo ganha ludismo e poesia necessários. Até mesmo o que parece gratuito tem um sentido escondido na vida das personagens, vindas de universos completamente diversos. O resultado flui de forma harmoniosa, até porque Moore já tinha trabalhado dessa forma antes nos três volumes de A liga extraordinária, cruzando personagens extraídos de obras literárias de épocas e estilos diferentes.