The Dark Revelations of Gerhard Richter
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S. with Child,” from 1995.© Gerhard Richter 2019 (08102019)
Though the artist was previously indirect in his references to the horrors
of the Third Reich,...
NAO EXISTE PECADO DO LADO DEBAIXO DO EQUADOR
Posted on 11/24/2007 by UNITED PHOTO PRESS
A nudez sempre esteve presente nas artes, mesmo com toda a censura e o moralismo marcantes na cultura brasileira diante de um processo de colonização em que a Igreja sempre exerceu forte poder sobre os corpos e as mentesAté os anos 50 do século passado, no Brasil, a nudez gerava escândalos. Tínhamos um teatro e uma literatura ainda bem-comportadas. Mas nem tanto. Nelson Rodrigues, nosso anjo pornográfico, causou escândalos com suas peças “imorais”. Na literatura tivemos Adelaide Carraro, Cassandra Rios, Hilda Hilst... No cinemas, uma série de diretores ousados cutucaram o cão com vara curta.Tivemos, ainda nos anos 50, o filme “Os Cafajestes”, de Ruy Guerra, no qual Norma Benguel aparece nua em várias cenas, muitas delas frontais. “Hair”, baseado no filme homônimo de Milos Forman, foi adataptado para o teatro. A peça, encenada no Brasil, exibiu várias cenas de nudez. Sônia Braga mostrou toda a sua beleza, sem pudor, em vários momentos. Em plena ditadura militar, as pornochanchadas reinaram livremente. Sexo, sacanagem e muito humor. As sessões eram tão disputadas quanto às adocicadas chanchadas dos anos 50/60.Na passagem dos 70 para os 80 do século passado, duas peças marcaram o imaginário de uma geração: “Macunaíma”, de Antunes Filho, e “Trate-me Leão”, montagem coletiva do Asdrubal Trouxe o Trombone. “Trate-me Leão”, com Luís Fernando Veríssimo, Hamilton Vaz Pereira e Regina Casé, foi um retumbante sucesso no apagar das luzes da ditadura militar. A peça mostrava toda a insatisfação de um grupo de jovens diante de uma sociedade burguesa e opressora. A nudez dos atores buscava o homem puro, sem máculas, numa das quadras mais complexas da nossa história.A peça definiu uma atitude frente à vida. A ausência de personagens adultos em cena é total e fundamental. Jovens perambulam, depois de uma semana de terno e gravata, em busca do prazer. Vários cenários entrecortam o espetáculo - ambiente familiar, escola, metrô e, por fim, uma praia deserta no litoral brasileiro. Ora o ânimo entre os jovens é pesado, ora alegre. Problemas de grana, amores desfeitos, felicidade passageira. Jovens em busca de um futuro menos cinzento. A nudez pontua algumas cenas, colocada diante dos problemas comuns à juventude da época: a liberdade de grana, a liberdade do corpo.Nudez e purezaOutro grande marco do teatro brasileiro foi “Macunaíma”. Baseado na rapsódia de Mário de Andrade, a peça foi montada pela grupo de Arte Pau Brasil. Apresentada no Brasil e no exterior, o espetáculo teve vida longa. Inovador em termos de engenharia teatral, o nu em Macunaíma era de uma forte pureza. O corpo nu dos atores e atrizes pontuava, muitas das cenas, representando, em vários momentos, a própria natureza.Símbolo do brasileiro - como aponta João Etienne Filho -, Macunaíma é um herói que, de tanto penar na terra sem saúde e com muita saúva, se aborreceu de tudo, foi-se embora e “banza solitário pelo céu”. Havia imoralidade em Macunaíma, pornografia? Em nenhum momento. A nudez e o sexo livre entre os índios - ele era filho da tribo dos tapanhumas - se contrapõe com a modernidade do início do século.“Macunaíma nasceu no fundo da mata-virgem, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Fez coisas de sarapantar”, retratava Mário de Andrade. Com as cunhãs, Macunaíma era pura diversão. Sexo sem video-taipe. O corpo era livre. O sexo também. Em São Paulo, quando foi resgatar seu talismã, o muiraquitã famoso, Macunaíma viu na cidade coisas perturbadoras. As cunhãs ensinaram que sagüi-açu era elevador, que os piados eram as buzinas e as máquinas, que para ele eram tamanduás, eram automóveis. Macunaíma pensou: os homens é que eram máquinas e as máquinas é que eram homens.O sexo foi definhando. Então, o herói não achou mais graça nessa terra. Cismou ainda meio indeciso, sem saber se ia morar no ceú ou na ilha de Marajó. Plantou uma semente de cipó e subiu para o céu. Como narra Mário de Andrade, ao final da jornada do herói de nossa gente:— A tribo se acabara, a família virara sombras, a maloca ruíra minada pelas saúvas e Macunaíma subira pro céu, porém ficara o uraí do séquito daqueles tempos de dantes em que o herói fora o grande Macunaíma imperador. E só o papagaio em silêncio do Uraricoera preservava do esquecimento os casos e a fala desaparecida. Só o papagaio conservava no silêncio as frases e feitos do herói.A peça de Antunes Filho ainda ecoa com toda a força neste 2007. Como a própria rapsódia de Mário de Andrade - cheia de nossos signos e símbolos, alguns perdidos diante de um processo colonizador que perdura até os dias de hoje. Mas nem santo, nem homem nesta terra põe fim a uma rica cultura brasileira mesclada por índios, africanos e europeus. O povo brasileiro, afinal, é persistente. Inclusive, no sexo.Sexo sem pecado?Na nossa América o erotismo permeou a arte. Sexo sem pecado é como ovo sem sal - disse o cineasta Luís Buñuel. Nudez, sacanagem, filmes pornôs. Pecados artísticos povoaram nosssas mentes e corações. Nelson Rodrigues afirmou em muitas de suas entrevistas: “Sexo é o que restou da pré-história, do vil passado do homem”. O erotismo se encontra na poesia lírica, na pintura, na dança, no cinema. Penetra na fantasia, no sonho, no vago sentimento do inacessível. Os Cantos de Salomão e a poesia trovadoresca são mais eróticos do que o Kama Sutra. O erotismo está mais no sugerir do que no mostrar totalmente. Como no barroco, no claro-escuro, na promessa do idílio, no mistério a ser desvendado, na repetição do ato de amor como se fosse sempre a primeira vez.Os poetas sabem disso muito bem. Manuel Bandeira: “Deixa teu corpo entender-se com outro corpo. Porque os corpos se entendem; as almas nem sempre”. Mário Quintana: “Amar é mudar a alma de casa”. Lygia Fagundes Telles: “Vocação é ter a felicidade de ter como ofício a paixão”. Desafiando o moralismo, quase sempre de origens questionáveis, o indivíduo se afirma em relação à sociedade. As reações são freqüentes e, mais das vezes, previsíveis. Alheio a elas, o erotismo rompe, reivindica, transgride.Os SertõesJosé Celso Martinez Corrêa sempre foi um transgressor. Desde sua montagem de “O Rei da Vela”, de 1967, pelo Oficina, de Oswald de Andrade, Corrêa transgride. A montagem teve repercussão nacional, marcando seu nome na cena teatral. Oswald fez em “O Rei da Vela” uma ácida crítica ao decantado liberalismo. Personagens caricatos, repletos de cinismo e hipocrisias foram um prato cheio para as transgressões de Zé Celso. O mesmo ocorreu quando o diretor lançou mão de “O Balcão”, do também transgressor Jean Genet. A peça causou escândalos.Agora, com “Os Sertões“ atualiza suas críticas quanto o moralismo vigente no processo civilizatório brasileiro. Crítica que foca também aspectos da cultura, da política, da economia e até das relações sociais em um mundo globalizado. Por exemplo, em “Os Sertões” a secretaria de Estado do governo Bush, Condoleza Rice, e o apresentador de tevê Sílvio Santos são alvos de deboche. Ambos, dentro da paródia criada por Zé Celso, são ridiculizados por suas posições políticas e morais. José Celso não mudou. E nem mudará. Sua leitura do mundo será sempre de um artista irrequieto, independente do momento histórico. Um artista da ruptura e da desconstrução.