The Dark Revelations of Gerhard Richter
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S. with Child,” from 1995.© Gerhard Richter 2019 (08102019)
Though the artist was previously indirect in his references to the horrors
of the Third Reich,...
AMOR E IRRACIONALIDADE
Posted on 11/25/2007 by UNITED PHOTO PRESS
Em um de seus mais belos ensaios, Max Weber afirmou que a maior força irracional da vida é o amor sexual. O problema é que as duas partes dessa força, amor e sexo, foram culturalmente separadas a partir do momento em que regulamentaram as relações sexuais em favor do casamento. E, devido ao caráter fundamentalmente ético e não propriamente afetivo dessa instituição, com imposição de direitos e deveres sobre os sentimentos dos cônjuges, esse amor, sem a sua raiz, procurou formas de existir na arte, na literatura ou em qualquer criação humana que lhe permitisse marcar sua diferença dos outros amores: do amor fraterno, do amor materno, do amor filial, do amor à pátria, de tantos amores, enfim, que têm direito aos seus objetos. Sem ter direito ao seu, mas com profundas esperanças de reencontrá-lo, esse amor desejou ser o mais belo de todos os amores, e conseguiu. Por isso a palavra erotismo, que poderia valer para todos, ele conquistou apenas para si. Arte e literatura que chamamos de eróticas trataram exclusivamente desse amor. Em troca, receberam a sexualidade que, por ser de impossível desaparecimento, embora não pudesse ser vivida pelos corpos amantes, ganhou outra vida, embelezando e desenvolvendo-se nas pinturas, nas esculturas, nas palavras, onde tantas vezes passou dissimulada, fingindo ser maçã, anjo, curvas, cores, versos, rimas ou apelos de cartas sem destinatário. Enquanto isso, afastado desse amor, que até em formas incorpóreas tentou cultivá-lo, o sexo foi atacado pelo que de mais utilitarista apareceu neste mundo. Sob repressão, quanto mais força demonstrou e mais se aproximou da brutalidade e da violência, mais foi tratado como mera necessidade fisiológica. Desse modo, foi presa fácil de toda tentativa de comercialização voltada para transformá-lo não em objeto de consumo e sim em consumidor. Isso mesmo: o sexo não é objeto de consumo; ele é consumidor. Sem maiores dificuldades, descobriu-se que não passa de uma força inocente, dessas que podem ser enganadas por quem se dispuser a enganá-lo. Daí porque o provocam, o atiçam. Ele tem de ser transformado numa força como a sede e a fome para ficar indefeso, para que possa, mais do que desejar, consumir. É a função da pornografia. Acontece que esse resultado da comercialização dos objetos não afetivos do sexo não ocorreu num mundo vazio de valores. Por mais imperativas que sejam, as regras comerciais não são absolutas nem esgotam as possibilidades da vida. Para todos os valores não contábeis dos homens, sejam religiosos, humanísticos, artísticos ou valores existenciais em geral, a pornografia representou em maior ou menor medida uma intolerável degradação da condição humana. Isso porque a pornografia significou sobretudo despertar, desenvolver e satisfazer o sexo completamente afastado das suas origens afetivas. Dessa forma, contribuindo para marginalizá-lo ainda mais, acabou por marginalizar a si mesma. E, na tentativa de apresentar-se de acordo com valores que não lhe dizem respeito e cansou de desrespeitar, procurou vestir-se de erotismo sem ter nada a ver com ele. Não é arte, porque não passa de práticas de excitação; muito menos amor, razão de ser do erotismo, porque jamais o cultiva, embora queira seu nome para fins comerciais. No confronto entre o destino cultural do amor e do sexo, a dura avaliação: o amor levou a sexualidade para o erotismo e a pornografia contribuiu para eliminar a afetividade do sexo. Nos dias de hoje, se for possível fazer alguma coisa por eles, que seja lhes dar o direito de viverem culturalmente unidos. Em nós, seus portadores, essa desunião gerou tensões e sofrimentos que causaram danos muitas vezes irreparáveis, incuráveis. Foi uma penitência talvez muito severa, embora em favor do nada desprezível desejo de viver em ordem em grupos ou sociedades. Enfim, vale pequena reflexão em torno do inspirado título do idílio de Mário de Andrade: Amar, verbo intransitivo. Pois é nessa intransitividade, nessa ausência total de objetos, que essa potência, o amor, aparece. Pode ser despertado por alguém ou por alguma coisa, pelo que lhe der objeto, pelo que lhe der transitividade, mas que jamais será seu criador, sua origem. É assim o amor desse título. Sua fonte é a nossa animalidade em toda sua inocência sexual, em toda sua pureza. Dividi-lo, dando às suas partes diferentes destinos culturais, é correr o risco de vê-las corrompidas. Se o amor, por obra e graça de suas possibilidades de intelectualização, pode escapar por meio do erotismo; o sexo, sem as mesmas possibilidades, não escapou de corromper-se, vítima que foi da pornografia. Mas quem, depois de tudo, ainda o deseja em forma pura, que é a sua forma afetiva, original, não deve esquecer o seu nome completo, erótico e antipornográfico: amor sexual.